Ditadura é utopia

Há mais de meio século eu acompanhava pelo rádio do pai, em Colorado, todo o barulho da milicada. As descargas magnéticas pelas ondas médias e curtas me faziam pensar que a guerra estava chegando na cidadezinha do interior gaúcho. As noticias vinham pelo Repórter Esso da rádio Nacional e claro, pelo Milton Jung na rádio Guaíba. No dia seguinte fiquei sabendo que não teria aula por muitos e muitos dias o que, de certa forma, me deixou feliz. Só depois de um certo tempo, morando em Passo Fundo é que pude perceber a dimensão daquele 31 de março de 1964. Foi na Escola que fiquei sabendo, ainda menino, que gente morria para defender a liberdade da nova geração que se avizinhava e da qual eu fazia parte. Tinha anônimos dando a vida por mim em nome da democracia. Hoje quando vejo minha pós geração pedindo a volta dos milicos eu sinto um misto de impotência, recolhido, com medo de sair de casa.  A guerra de 64 era contra as mortes nos porões da ditadura e a favor da democracia, agora é contra a pandemia e é para salvar vidas.

Mitos

Procusto é um personagem da mitologia grega, portanto, um mito. Simboliza a negação da ciência e a relativização de vidas humanas. Era um gigante que trabalhava em uma estalagem nas altas colinas de Ática, onde oferecia hospedagem para os viajantes. Na casa em que morava, na serra de Elêusis, ele tinha uma cama de ferro, com o seu exato tamanho, e era ali que ele acolhia os viajantes.

Se fossem altos, Procusto decepava pés e cabeças para ajustá-los à cama e os de pequena estatura eram esticados até atingirem o tamanho suficiente. Daí o nome, Procusto “o esticador”. Enquanto aplicava a punição às suas vítimas, repetia: “Se você se destacar, cortarei seus pés. Se você demonstrar ser melhor que eu, cortarei sua cabeça.”

O mito deu origem à síndrome de Procusto, reconhecida pela psicologia e psicanálise. É um conceito de oportunismo, que aparece no ambiente de trabalho e de largo emprego na política para destruir quem é mais preparado, inteligente. É assim que o portador da síndrome expõe o seu arrogo, sua estupidez. Boicotam ideias com a intenção de diminuí-los. É o egoísmo sobre aqueles que prosperam.

Ao perceber alguma vitória que não a sua, a pessoa sente-se extremamente  ameaçada e não consegue comemorar algo que não seja feito por ela. Enfim, são pessoas com perfis frustrados ou autoestimas muito frágeis, avessos a lideranças e desafios.

Antes que eu esqueça, deixa contar como acabou o reinado de terror do nosso personagem. Ele foi capturado pelo herói ateniense Teseu, que o prendeu em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe a mesma crueldade que sentenciava aos seus hóspedes.

Por aqui aguardamos um Teseu que, ou estique a corda, ou corte o mal pela raiz.

 

É preciso desconstruir o Pinóquio

O Brasil era, até bem pouco tempo, o segundo colocado no ranking de ignorância sobre a nossa realidade, só perdia para a África do Sul. Agora deve estar em primeiro. O brasileiro à direita, gosta de distorcer os fatos, persistir no erro, adora uma mentirinha e por gostar tanto de bofeira, elegeu um Pinóquio para inflar sua ira e satisfazer seu ego. E cá estamos ferrados nas mãos de um aloprado.

Ô Gepeto, vê se vem logo consertar o estrago.

Cabeleireira abusada

Na praia cruzei no Salão da Regina, vazio.

Entrei e perguntei se faziam corte masculino e a moça disse:

– De homem? Sim, claro! Mas tens que marcar um horário.

– E que horários você tem? 

Ela abre o computador, corre os olhos na tela de forma rápida e precisa, depois replica:

– No momento, temos todos os horários disponíveis 

– Agora, pode ser?

– Deixa eu ver… pode sim

– E quanto é?

– Vinte, com tesoura e máquina

– Hummm, mas não castiga na poda.

– Corto só as pontas então, só uso a tesoura. 

– É mais barato?

– O preço é o mesmo

– Fazer o quê?!

Não tive escolha a não ser me acomodar na cadeira. Ela colocou um lençol nos meus ombros e falou de um jeito digamos, irônico, ou, às raias do deboche.

– Ainda não temos meio corte (risos)

Se na hora a tivesse a tesoura não estivesse tão  próximo da minha jugular eu teria abortado operação. 

Por pouco

 

Entrei na sorveteria naquela tarde pensando nos sabores a escolher. Logo vi um homem alterado na voz, chamando pela filha pequena. O cara era uma tora, cada braço dava uma perna, das minhas, o pescoço era a minha cintura, com folga, a testa mais parecia uma plataforma de retroescavadeira apropriada para quebrar ossos, começado pelo nariz. O tênis de cor acinzentada parecia uma sapata de sustentação de um prédio de oito andares.

Peguei a casquinha e me aprumei para recheá-la, quando ele repetiu:

– Perto do pai, fica perto do pai.

A menina veio na minha direção, agarrando a minha perna.

– Eu falei perto do pai, disse ele com uma voz ainda mais exaltada.

A menina apertou ainda mais a minha perna, que estava mais gelada do que os sorvetes no freezer.

Foi quando uma mulher se aproximou, pegou a criança pela mão dizendo:

– Vem com a mamãe, deixa o papai servir o sorvete.

O clima não ficou dos melhores já que, afinal, a mãe não deu pistas sobre quem é o pai? Era o mínimo que a clientela esperava.

Larguei a casquinha, já esmigalhada e ingressei na calçada da Rua. Disparei sem rumo, como se passasse da primeira pra quinta marcha num piscar de olhos e sem olhar para trás. Juro que senti o chão tremer às minhas costas mas, segui firme obedecendo a lei da física, aquela dos corpos em movimento e ao mesmo tempo calculando o estrago que seria caso uma patrola alcançasse o Corolla, por exemplo.

 

Se os repórteres abandonarem a árvore, Bolsonaro perde o palanque

 

Ouvi outro dia o relato de um jornalista político de Brasília falando sobre a insalubridade que é ficar debaixo de uma árvore esperando pelo Bolsonaro.

Já fomos melhores, os jornalistas nunca, em momento algum, baixaram a guarda para políticos de ocasião. Cada vomitada tóxica que sai da boca do Bolsonaro repercute na mídia e nas redes sociais como se fosse novidade. Nunca será um furo de reportagem porque as declarações são coletivas, mas são escadas para que os horrores ditos por este cara alcancem a mídia. Ele não tem argumentos e nem capacidade intelectual para se comunicar de outra forma. É o seu palanque eleitoral porque de outra forma ele não se sustentaria, foge do debate político como o diabo foge da cruz.

Bolsonaro é um farsante que se apega às palavras rasas para fulminar seus desafetos, entre os quais a imprensa que cumpre o seu papel de apurar a verdade. Aliás, ele odeia a verdade e está aí o motivo de tanta raiva dos jornalistas.

Então, o meio encontrado por ele para despachar seu ódio logo cedo foi transformar a árvore em palanque eleitoral. Depois, delirar com a reação pública, acompanhando a repercussão pelas redes sociais, sentado na privada do Palácio do Planalto, não aquela perto da biblioteca porque ele odeia cheiro de livros, mas do seu gabinete que deve ter um perfume adequado a badalhoca que produz.

O palanque que lhe resta é casualmente um símbolo que ele odeia por estar associada ao meio ambiente, mas que resiste á estupidez diária do Bolsonaro e empresta a sua sombra aos profissionais de imprensa que cumprem o seu papel de reportar os fatos.

Se os repórteres abandonarem a árvore, o trapaceiro perde o palanque.

 

Agora pode

– Pai, capitão é mais que general?

– Não filho, até chegar a general o capitão tem que ser major, acho que é  assim.

– Mas tem capitão que manda em general.

– Não filho, não tem, não pode

– E o Bolsonaro?

– O que é que tem ele?

– Tem general abaixo dele

– Bolsonaro é ex-militar

– Mas recebe como capitão, não recebe?

– Acho que recebe sim, mas ele não é mais capitão 

– Mas continua sendo chamado de capitão 

– Isso é eufemismo

– Então é por isso que você chama ele de capitão,  já chamou de mito que eu sei

– Capitão é mais autêntico

– Então você ainda o considera um capitão 

– Digamos que sim, ele é um líder, maior de todos

– Maior que general

– Evidente

– Mas você disse que capitão não pode mandar em general

– Agora pode

 

Cachinhos de ouro

Desci a Rua Dr. Flores como quem salta do trem em movimento, travando as pernas para não tropeçar nas pessoas, ainda mais com aquele chão de garoa. Ali perto uma mulher repetindo a mesma ladainha:
– Compro ouro e cabelo… compro ouro e cabelo…

Refeito eu daquele equilibrismo sem corda, passando ass mãos para ajeitar fiapos do cabelo, vi que a mulher me observava num olhar sereno, quase me pedindo em namoro. Mas o movimento dos seus lábios foi para dizer apenas:
– Compro ouro.

 

A célula que não vingou

Foi no Instituto Estadual Cecy Leite Costa de Passo Fundo, na antiga escadaria, tomada por mato, que nos idos dos anos 70 tentamos organizar uma “Célula Revolucionária de Resistência”, que consistiria em ação fulminante contra a direção do educandário que vivia em constante guerra com os insurgentes.

Nossos encontros noturnos, às escondidas, reunia meninos e meninas inconformados com as regras impostas aos alunos que fervilhavam ideias de desobediência em pleno regime de exceção, entre elas: Não podia fumar nos corredores, banheiros ou no pátio, nem dar pinga às Evangélicas ou Testemunhas de Jeová porque elas iniciavam a pregação já no primeiro gole, nem namorar e muito menos gazetear aula para pegar um jogo na TV P&B da Colorado RQ do bar da frente.

Uma noite fomos descobertos pela professora de Ciências que em questão de minutos, destruiu a nossa fórmula revolucionária num “chispam todos que a aula já começou”.

A célula abandonou as escadarias sem escalar, sequer, um degrau da rebeldia.

Mídia comparsa, povo alienado

Os senhores e senhoras da comunicação contemporizando as asneiras ditas pelo Paulo Guedes como sendo uma infelicidade do infeliz ministro. Em momento algum falam que nem o dólar a $4.35, que deveria favorecer as exportações, está resolvendo. Escondem do cidadão que houve uma queda de 40 por cento nas exportações da indústria na comparação com janeiro de 2019 (dados dia institutos de pesquisas confirmados pela Federação das Indústrias – Fiergs), que os americanos rebaixaram o Brasil e não estão comprando aqui, nem a China. Que cem mil mil empregadas domésticas custam menos que o cartão corporativo do Bolsonaro. Enfim, por que será que temos um povo alienado, que segue a tropa sem se importar com o abismo?