Ô Aveline, e os trinta mil do Nazário?

 

Praticamente todos os jogos no Estádio Beira-Rio eu tenho nas tribunas de imprensa, a companhia dos jornalistas José Aveline Neto e Olides Canton, dois personagens de história, causos e credibilidade da imprensa gaúcha. Eles têm opinião pra tudo e mais um pouco, furungando a vida dos mortais, sejam ou não celebridades, pouco importa. Passam pelo crivo, são jornalistas da cepa, natos, bem informados.

E foi numa destas “expeculações” em terras distantes que o Aveline se complicou ao fotografar uma festa onde estavam os jogadores brasileiros no Japão. Os atletas, entre eles o Ronaldo Fenômeno, comemoravam a vitória brasileira em uma casa noturna na cidade de Seogwipo, depois de um jogo da copa do mundo de 2002. A vitória foi contra a China , os jogadores foram dispensados naquela noite e partiram pra festa. Por ironia do destino escolheram uma boate bem próxima ao hotel onde os jornalistas estavam hospedados.

A notícia correu a bico fino, de orelha em orelha e sem perder tempo lá estava o Aveline com sua máquina fotográfica, para registrar a confraternização que, por certo, seria publicada na revista Gol, especializada em esportes, da qual ele é proprietário e que se sustenta por quase três décadas e meia no mercado gaúcho e nacional.

O assunto estava quase esquecido quando o Olides questionou:

– Ô Aveline e os trinta mil do Nazário?

É que meses atrás, com 15 anos de atraso, a Justiça determinou para que Ronaldo Fenômeno indenize o jornalista em R$ 30 mil por dandos morais, por ter ordenado seguranças a arrancarem o equipamento de trabalho das suas mãos e danificá-lo. Aveline naquela noite fotografava o Ronaldinho Gaúcho do qual é amigo pessoal, mas o Ronaldão se sentiu incomodado e partiu para o ataque, sem bola. O gol é da revista que vai embolsar a quantia, devidamente corrigida.

Opressores, oprimidos e o código de convivência no mesmo espaço.   

No momento em que o Brasil vive uma crise institucional sem precedentes, a editora Expressão Popular lança um livro que obriga qualquer cidadão a refletir sobre a realidade em que vivemos. Realidade que extrapola todos os conceitos de liberdade, participação e inclusão dos povos provocada pela tirania de um governo impopular, ilegítimo, corrupto, de ficha corrida exposta, caça os direitos dos trabalhadores, arma um bote mortal nos aposentados e destrói a educação, cortando verbas de pesquisa e sinalizando com a privatização das universidades públicas.

O livro “Transformação das Relações Humanas e Cooperação,” do finlandês Pertti Simula, (272 páginas), materializa conceitos e contextualiza fórmulas de se viver em um ambiente onde, no âmbito do Estado, as leis sejam estruturadas para que o povo organize suas atividades econômicas, políticas, sociais e culturais pela iniciativa do coletivo e não por decisões monocráticas de quem quer que seja.

Pertti Simula é um psicanalista, consultor e formador em escolas da Finlândia, Suécia e no Brasil, especificamente nos assentamentos de reforma agrária. A obra é fruto de sua atividade terapêutica individual e coletiva nesses três países. Traz uma abordagem do Método Conscientia, desenvolvido há mais de trinta anos com trabalhadores da educação, saúde e assistência social.

Os desafios da cooperação humana, seja na escola, no trabalho ou na sociedade são a tônica do livro que levam a refletir sobre as causas e a consequente tomada de consciência do que nos cerca. A violência do sistema capitalista sobre o comportamento humano é detalhado de forma simples e didática, acessível a qualquer leitor. A costura dos temas e a sua relação com a vida derrubam barreiras, esclarecem dúvidas e abrem caminhos. Os textos conversam entre si.

Uma analise profunda sobre os conceitos socialistas do ser humano não deixa dúvidas sobre o quanto somos vulneráveis diante de uma sociedade consumista onde o capital está acima de tudo, acaba por escravizar os trabalhadores em nome do dever, da obrigação, exigindo responsabilidades, enquanto o termo liberdade torna-se incoerente. Neste contexto, “o empregado, é um mero item na planilha de custos”, lembra Pertti, condenando a incoerência do sistema capitalista com os trabalhadores.  

Infelizmente diz ele, estamos acostumados a valorizar o lado negativo das coisas em detrimento das ações positivas que nos cercam. Questiona se numa sala de aula, por exemplo, o professor deve concentrar a sua atenção nos alunos desordeiros ou nos que estão concentrados no estudo? Ou uma reunião quando alguém reage com um comentário negativo perante a sua opinião pode roubar a sua atenção, ou você continua concentrado no que é importante? Perguntas como estas são frequentes para analisar as condutas sem que o lado negativo influencie diretamente no que está sendo pensado ou projetado.

Entender a qualidade nas outras pessoas é descobrir o que se tem de melhor, e é neste sentido que Pertti desenrola o novelo prático para entender o ambiente e absorver o que de melhor ele oferece. O exemplo é uma sala de aula onde um aluno bagunceiro altera o comportamento dos estudantes e o professor não consegue acompanhar o ritmo da turma. Neste caso o conselho dado é o de entender o que se passa para só depois adotar medidas para aliviar conflitos.  

Conheci Pertti Simula na Escola Nova Sociedade no município de Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre. Lá estava eu para desenvolver minhas aulas práticas de pedagogia do campo – Projeto Escola da Terra/Ufrgs. Esta escola rural do Estado recebe alunos de um assentamento do MST e lá o método baseado no conceito finlandês é discutido. Josefin Frosström, professora primária de uma escola de Helsinki, aplica a metodologia da sua escola. Do encontro gravei um vídeo, disponível no youtube (disponível no final), que resume o Método Concientia.

O vídeo é pedagógico e tanto Pertti como Josefin explicam situações que podem ocorrer na escola e de que forma a motivação e a cooperação, baseadas na valorização incondicional do educando, podem ser aplicadas respeitando o modo de sentir de cada um dos envolvidos. Ao invés de criticar, apontar o erro, gerar crises na sala de aula é preciso reforçar a habilidade de concentração do aluno para que se sinta valorizado. “Somos espelhos internos entre nós, cada coisa que vejo em você existe em mim também.” Em resumo é preciso inverter a lógica da crítica e incentivar a participação.

Pertti Simula destaca em seus estudos outro fator importante que exige um tratamento diferenciado dentro da escola: a democracia representativa como se aplica na sociedade não funciona em sala de aula e é preciso tomar decisões e buscar rumos de convivência. O espírito de responsabilidade coletiva, segundo ele, deve estar presente. Alerta que não se deve caçoar nem debochar, nem criar conflitos. A turma é que deve agir para resolver as crises muitas vezes agravadas pelo estresse ou até mesmo a dependência química, fatores que também são analisados e questionados na publicação.

Em resumo, fica aqui o gostinho pela leitura e pela prática deste jogo de convivência onde a astúcia do técnico é que vai impor o ritmo da equipe no seu desempenho coletivo. A publicação – Transformação das Relações Humanas e Cooperação – com publicação e lançamento no Brasil é recomendada aos educadores, cooperativas, sindicatos, militância de movimentos populares, para pessoas que lidam com elas próprias e com os outros.

O melhor ataque é a defesa

 

Saio do Estádio Beira-Rio, depois de um Inter x Londrina, convicto na zaga colorada. Não que seja a maravilha sonhada pelo torcedor, longe disso, mas é artilheira. Cuesta fez o primeiro gol e Klauss, duas vezes, devolveu ao inter a vice-liderança do campeonato numa tarde-noite em que mais de 36 mil torcedores assistiram uma exibição apenas regular do Internacional. Ainda falta um eito para ser o ideal. Foi um presente de dia dos pais do time que traz no hino um trecho que diz: “papai é o maior”.

 

 

O caso da Venezuela caiu de maduro para a direita brasileira

Vejo com certo encanto e adivinhação, o descalabro da direita que, nos últimos dias, tem inundado as páginas do facebook para pregar o ódio contra o governo da Venezuela. Até a descontrolada e possuída do capeta, Janaina Paschoal, quer que o Temer dê um golpe no Maduro. Seria uma gloriosa ação da quadrilha instalada no poder brasileiro, dar um golpe em outro país. Como pano de fundo, o que a direita quer mesmo é proteger seus corruptos de estimaçao, acobertar seus erros e desviar a atenção da nação. Não vejo outra justificativa.

Panelaço, patos e nariz de palhaço estão fora de cogitação aqui, mas se encaixa na Venezuela. Só não vão lá por extrema covardia, mas como todo o bom covarde, que agride quem não se defende e não sabe se defender, lança sua artilharia de longe, brincadeiras, aliás, que os americanos e os coreanos sabem exercer com maestria.

No caso do Brasil, a crise venezuelana veio a calhar no momento em que a rosa dos ventos, tenta erguer o tapete e expor toda a sujeira depositada debaixo dele pelo congresso nacional que inocentou o governo Temer e seus aliados, com o apoio do  vento negro, que insiste em desviar a rosa da sua rota normal.

O caso na Venezuela, que se arrasta por anos, sem que fosse dado grande importância, só veio à tona agora para os brasileiros, justo no momento que os senhores do golpe precisaram de um fato novo para desviar a atenção do povo e abrir caminho para que o ataque em marcha faça o estrago que se avizinha. O impasse no pais vizinho chegou na hora certa, literalmente caiu de maduro.

A PELEJA DO MAL CONTRA O BEM

Montaram a baderna

Armou-se a fuzarca

Em nome do bem

O mal se destaca.

 

Roubaram a crença

Do povo sofrido

Que desprevenido

Confiou no poder.

 

Um bando de arteiros

Urubus, carniceiros,

Aniquilaram num golpe

A constituição.

 

Caçaram direitos

De um povo liberto

Só eles tão certos

Em toda a nação.

 

Desviam recursos

Não sobra dinheiro

Segurança, saúde

Em má situação.

 

O mal se supera

E o bem não convence

O mal s’empodera

Em nome do bem.

 

E o povo perdido

Confia na mídia

Espera Justiça

Que tarda ou não vem.

 

E já não entende

Por que tanta briga

Por que tanta gente

Na tal confusão?

 

E lá na igreja

Procura resposta

apegado na crença

Ajoelha no altar.

 

Por bem meu senhor

M’explica afinal

Se o mal o bem

Ou se o bem faz o mal?

 

CHUPA PATO

A turma do pato anda apavorada. Paga, numa só tacada, o maior reajuste de combustíveis da história e não pode tirar passaporte para fugir do país. Sem saída, sofre calada.

  • Pai, a gente não vai pra Disney?
  • Agora não
  • Mas você falou que a gente ia nas férias de julho
  • Não vai dar filho
  • Não tem lugar no avião?
  • Não, o que não tem é passaporte, a Policia Federal não tem material pra fornecer passaporte.
  • Por que?
  • O governo não liberou verba
  • Então porque a gente não vai pra serra ver a neve?
  • O preço da gasolina disparou filho
  • É por isso que a mãe falou no café da manhã que a coisa tá complicada?
  • Sim filho, complicou de vez
  • Mas o Temer não ia resolver tudo? Aquela vez que eu fui pra rua ver o pato com você era pra derrubar a Dilma e colocar o Temer que tudo ia melhorar, você falou.
  • Brinca no teu game e não faça perguntas filho
  • Vamos passar as férias em casa?
  • Se quiser, podemos dar uma volta na quadra e voltar logo porque a rua não é segura.
  • Mas paaaai….
  • Fiiilho!!!!!

Cegueira

Leio num misto de desânimo e preocupação, as postagens indignadas de brasileiros e de brasileiras referentes a atitude das quatro senadoras da nação, tentando impedir a aprovação, sem cortes, da proposta do Executivo que altera as leis trabalhistas no Brasil. O que mais chama a atenção é o fato das pessoas condenarem as marmitas servidas às quatro mulheres entrincheiradas, deixando de lado os motivos pelos quais elas estavam lá. Tambem preocupa esta capacidade de indignação sobre o que assistem e a total falta de memória das pessoas quando se refere a diagnosticar problemas. Preferem se manifestar contra as marmiteiras e alimentar a cegueira, enquanto o país mergulha na lama da corrupção e do desmando. Chega a ser triste pensar que estas pessoas que escolhem os representantes que vão decidir o futuro de todos, tenham uma visão superficial das coisas. Pacatas na frente da TV, ficam sensibilizadas com a ferida Exposta, visível, sem dar importância a doença silenciosa que consome o corpo.

Cada qual com seu Guto

Não é um mau técnico, mas não é o melhor. Coloca em campo um time ideal, que não rende o esperado e quando faz alterações, troca mal. Tanto o Guto como o Zago tem um quê de implicância com o Nico Lopes. O cara é sacado de todos os jogos, quando entra em campo é claro. Aí coloca o Brenner, depois tira o Claudio Wink e mantém o Pottker. Deixa o time mais pesado, os dois judiam a bola e afundam o gramado.

O lamentável trio de arbitragem e o comportamento de alguns torcedores depois do jogo contribuíram para sepultar o espetáculo. O antijogo do Criciúma completarou o sofrimento de um futebol pobre de futebol. Lembrando que retranca e catimba fazem parte do jogo.

Já o técnico foi salvo pelo Klaus aos 48 do segundo tempo. Bota sorte nesse cara, tou falando do Guto. Sobrevida por mais uma semaninha, pelo menos.

O BUGIO OS CACHORROS E O JORNALISTA

(Crônica muito bem humorada do Paulo Monteiro sobre um fato real, cheio de elementos que valorizam a arte de contar histórias)

Falham todos os sábios e todas sabedorias. Apenas os poetas são infalíveis. Prova a musa popular gaúcha em quadrinhas como esta:
Todo mundo se admira
do bugio andar de espora.
O bugio já foi tenente
da Brigada Provisora.
A musa popular produziu muitos versos sobre esse nosso parente distante e até um ritmo tipicamente nosso: o Bugio.
Meu amigo Flavio Damiani é viva prova de que o poeta popular está certo.
Aos fundos de sua aprazível casa, em Porto Alegre, às margens do Arroio Passo Fundo, ainda vive o inspirador desses versos. Ali desfruta sua longevidade isolado dos demais de sua espécie, como um velho lobos solitário ou um quati-mundéu. Apossou-se de uma larga faixa de mata ciliar, apreciando, em particular, um frondoso abacateiro e os sons de uma pequena cascata.
Calmo, pacato, como rezam as biografias dos valentes heróis das nossas revoluções à gaúcha. Aprecia, sobre-modo, abacates. Colhe-os e, serenamente meditando sobre os símios e assemelhados, sentado nos galhos vai saboreando os frutos, espalhando caroços e contribuindo para a formação de uma pasta originada pelos que não consegue segurar.
Nosso “tenente”, com certeza, deve sentir saudades das peleias de antigamente. Os heroicos atos de incêndios, estupros, estaqueamentos e degolas, praticados pelos seus heroicos provisórios reviveram nas últimas semanas.
Espiando pelas janelas viu e ouviu os entreveros nas ruas de Porto Alegre. Acostumado aos constantes protestos do Bota e do Black Jack resolveu agir.
Conto.
Bota é um guaipeca preto, barulhento como todo o viara-lata. Black Jack é um border acarijozado, cabeça e lombo retintos e pernas carijós. Embora nascido na maior e mais rica cidade do país, não perdeu seus instintos caninos. E dá cobertura as arruaças promovidas pelo Bota. Este odeia o Bugio.
Basta Flávio soltá-lo no patio e começa as arruaças. Profere os mais violentos impropérios em sua linguagem canina, sempre acompanhado pelo indefectível border.
Dia desses o Chico (nome plebeu conferido ao nosso parente) não aguentou. Moria um abacate, como quem destrava uma granada e póim! bem no meio dos cachorros. Estes, ágeis baderneiros, desviavam-se do artefato e continuavam os protestos.
Flávio Damiani que, como bom jornalista, acompanhava a confusão resolveu seguir a normalidade da vida. Enrolou um tapete que por ali jazia e resolveu batê-lo. Desviando-se da encrenca aproximou-se do tronco do abacateiro e pom! ficou o tapete contra a árvore.
Santo Deus!
O bugio deu um pulo no galho. E desceu com galho e tudo encima dos cães.
Foi o tendéu.
Espalharam-se caninos e símio. O Bota, todo lambuzado e fedendo abacate podre refugiou-se dentro de casa, seguido pelo ilustre Black Jack. Flávio mal teve tempo de olhar e ver o Chico disparando em sua direção. Protegeu os olhos contra a árvore e mal teve tempo de sentir uma pata que lhe comprimia o coccix e outra sobre os ombros, seguindo o bravo “povisoro” de volta aos galhos.
O Chico sumiu. Viram-no há pouco mais para as nascentes do arroio Passo Fundo. Na casa de Flávio as coisas voltaram ao normal. Ao normal, em termos, pois o “tenente” abandonou o posto.
Moral da história, pois de toda a história que se preze precisamos retirar um ensinamento: Como governante daquele pequeno reino verde-amarelo, Flávio Damiani aprendeu por que os governantes preferem varrer o lixo para de baixo dos tapetes. 

A república dos trouxas

Boquiabertos, os protestantes que sairam às ruas na esperança de Justiça, se vêem tomados por um golpe desferido de dentro do próprio judiciário. O Ministro Marco Aurélio Melo foi bondoso com o Aécio Neves e mandou que ele reassumisse o cargo de Senador – pra que sofrer tanto desgaste politico se só fez o que os outros também fazem?

Já o ministro Edson Fachin teve piedade do Rodrigo Rocha Loures que nunca tinha ficado na cadeira e é de família tradicional e de conduta ilibada. Voltou para casa com uma coleirinha no calcanhar. Claro que haverá uima vigilância redobrada nos passos que ele vai dar. O pato da FIESP somos nós e o golpe da capa preta, alertado pelo Brizola, está em marcha.

Encontro dois manifestantes lançando farpas, irônicas farpas.
– Toma seu trouxa, quem mandou protestar?
– Achei que todos estavam contra a corrupção…
– Nem todos
– Aliás muitos
– Bastante
– Talvez a maioria
– Que declara não ter um corrupto de estimação
– Integramos a república dos trouxas

O que vai ficar díficil de entender nesta disputa de poder que transformou o Brasil, é a diferença entre o bem e o mal. O mal já leva uma larga vantagem.