Se os repórteres abandonarem a árvore, Bolsonaro perde o palanque

 

Ouvi outro dia o relato de um jornalista político de Brasília falando sobre a insalubridade que é ficar debaixo de uma árvore esperando pelo Bolsonaro.

Já fomos melhores, os jornalistas nunca, em momento algum, baixaram a guarda para políticos de ocasião. Cada vomitada tóxica que sai da boca do Bolsonaro repercute na mídia e nas redes sociais como se fosse novidade. Nunca será um furo de reportagem porque as declarações são coletivas, mas são escadas para que os horrores ditos por este cara alcancem a mídia. Ele não tem argumentos e nem capacidade intelectual para se comunicar de outra forma. É o seu palanque eleitoral porque de outra forma ele não se sustentaria, foge do debate político como o diabo foge da cruz.

Bolsonaro é um farsante que se apega às palavras rasas para fulminar seus desafetos, entre os quais a imprensa que cumpre o seu papel de apurar a verdade. Aliás, ele odeia a verdade e está aí o motivo de tanta raiva dos jornalistas.

Então, o meio encontrado por ele para despachar seu ódio logo cedo foi transformar a árvore em palanque eleitoral. Depois, delirar com a reação pública, acompanhando a repercussão pelas redes sociais, sentado na privada do Palácio do Planalto, não aquela perto da biblioteca porque ele odeia cheiro de livros, mas do seu gabinete que deve ter um perfume adequado a badalhoca que produz.

O palanque que lhe resta é casualmente um símbolo que ele odeia por estar associada ao meio ambiente, mas que resiste á estupidez diária do Bolsonaro e empresta a sua sombra aos profissionais de imprensa que cumprem o seu papel de reportar os fatos.

Se os repórteres abandonarem a árvore, o trapaceiro perde o palanque.

 

Agora pode

– Pai, capitão é mais que general?

– Não filho, até chegar a general o capitão tem que ser major, acho que é  assim.

– Mas tem capitão que manda em general.

– Não filho, não tem, não pode

– E o Bolsonaro?

– O que é que tem ele?

– Tem general abaixo dele

– Bolsonaro é ex-militar

– Mas recebe como capitão, não recebe?

– Acho que recebe sim, mas ele não é mais capitão 

– Mas continua sendo chamado de capitão 

– Isso é eufemismo

– Então é por isso que você chama ele de capitão,  já chamou de mito que eu sei

– Capitão é mais autêntico

– Então você ainda o considera um capitão 

– Digamos que sim, ele é um líder, maior de todos

– Maior que general

– Evidente

– Mas você disse que capitão não pode mandar em general

– Agora pode

 

Cachinhos de ouro

Desci a Rua Dr. Flores como quem salta do trem em movimento.

Ali perto uma mulher repetindo a mesma ladainha:
– Compro ouro e cabelo… compro ouro e cabelo…

Refeito eu daquele equilibrismo sem corda, vi que a mulher me observava num olhar sereno, quase me pedindo em namoro. De repente seis lábios se abriram dizendo apenas:
– Compro ouro.
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A célula que não vingou

Foi no Instituto Estadual Cecy Leite Costa de Passo Fundo, na antiga escadaria, tomada por mato, que nos idos dos anos 70 tentamos organizar uma “Célula Revolucionária de Resistência”, que consistiria em ação fulminante contra a direção do educandário que vivia em constante guerra com os insurgentes.

Nossos encontros noturnos, às escondidas, reunia meninos e meninas inconformados com as regras impostas aos alunos que fervilhavam ideias de desobediência em pleno regime de exceção, entre elas: Não podia fumar nos corredores, banheiros ou no pátio, nem dar pinga às Evangélicas ou Testemunhas de Jeová porque elas iniciavam a pregação já no primeiro gole, nem namorar e muito menos gazetear aula para pegar um jogo na TV P&B da Colorado RQ do bar da frente.

Uma noite fomos descobertos pela professora de Ciências que em questão de minutos, destruiu a nossa fórmula revolucionária num “chispam todos que a aula já começou”.

A célula abandonou as escadarias sem escalar, sequer, um degrau da rebeldia.

Mídia comparsa, povo alienado

Os senhores e senhoras da comunicação contemporizando as asneiras ditas pelo Paulo Guedes como sendo uma infelicidade do infeliz ministro. Em momento algum falam que nem o dólar a $4.35, que deveria favorecer as exportações, está resolvendo. Escondem do cidadão que houve uma queda de 40 por cento nas exportações da indústria na comparação com janeiro de 2019 (dados dia institutos de pesquisas confirmados pela Federação das Indústrias – Fiergs), que os americanos rebaixaram o Brasil e não estão comprando aqui, nem a China. Que cem mil mil empregadas domésticas custam menos que o cartão corporativo do Bolsonaro. Enfim, por que será que temos um povo alienado, que segue a tropa sem se importar com o abismo?

Francês em alto e bom tom

“laisse tomber le thé”

Foi lá pelos meados de 90 que eu fotografava, com uma Nikon, alguns iates de luxo ancorados em Saint Tropez na Rivera Francesa, tomando um chimarrão.

Um grupo de senhoras com seus cachorrinhos, se aproximou para saber o que eu bebia, (não lembro bem, mas posso assegurar que a Brigitte Bardot estava entre elas).

Numa mistura de vários idiomas, expliquei que se tratava de tea brasilian, ou thé, ou chá, ou mate, ou chimas, enfim, de um jeito ou de outro elas entenderam.

Eis que uma das simpáticas francesinhas da terceira idade, pediu para tirar uma foto ao meu lado, o que prontamente foi atendida. Aí veio outra, outra e mais outra.

Uma das últimas senhorinhas, com o rosto um tanto desfigurado por causa da maquiagem exposta ao calor do mediterrâneo, derretendo e descendo pelas laterais de orelha a orelha, além dos lábios exageradamente pintados de cereja, pediu a cuia e fez menção de levar a bomba à boca.

Prevendo a lambuzeira bomba abaixo, descendo até a erva, tentei interromper o movimento que ela fazia mas, sem conseguir salvar o mate e raciocinar uma frase em francês ao mesmo tempo, apenas gritei:
“No Boté la Bombê en la Boqué”.
Se ela entendeu eu não sei, mas que largou, largou.

Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Não deu no rádio

– Pai, tô indo pra casa.
– Tá por onde?
– No centro
– Então não venha pela Borges, Loureiro, evite a Salgado e nem pensar a Andradas ou a Sete de Setembro.
– Por quê?
– É que tá tudo trancado por causa das manifestações.
– Tou estacionada na frente da casa de cultura e tá tudo em ordem por aqui.
Mais tarde, em casa.
– Pegou muito trânsito?
– A cidade tá vazia pai.
– Mas no rádio só se fala em trânsito, nunca se falou tanto na vida. A cidade tá um caos.
– Normal
– Sério?
– Tô te dizendo, o Lula só chega as sete.
– O Lula vem aí?
– Sim, não deu no rádio?

Vai saber… é de matar curioso

No lotação a mulher ao lado saca o celular e inicia uma conversa. Claro que eu só ouço o que ela diz.

– Oi amiga, tudo bem?

– Eu também.

– Ela tá bem?

– Humm, bom…

– Ele melhorou?

– Vocês são amigos já faz um bom tempo né?

– O que foi mesmo que aconteceu com ele?

– Ai amiga, que constrangedor…

Aí a conversa se desenrola aos resmungos e um bom tempo e aenhora só ficou no humm, affe, ixe, a fudê… até que a certa altura da viagem toma novos contornos.

– Sim, vamos hoje a tarde

– É longe sim, dez horas de vigem, fora as paradas (risos)

– Vamos a Rê, o Dê, a Mi e Eu.

– Visitar o filho da Rê que mora lá.

– É, o mais novo, o Puí, ele tem uma filha que nasceu faz pouco.

– Sim, é Gabrieli, nome de pompa, com dois éles e ipsolon no final, dizem que é linda.

(Arrumando então: Gabrielly – ninguém é adivinha).

A mulher levanta ligeiro e pede pro motorista deixá-la na esquina, a lotação já estava na esquina, ela desce correndo sem que tivesse a oportunidade de saber ao menos o rumo da viagem e que tipo de mal constrangedor foi aquele do amigo da amiga.

 

 

O calor afeta o raciocínio bilíngue

Pois a amiga Susana Rangel, em meio a este calorão intenso, perguntou se tenho “airfry” na cozinha de casa.
Respondi que tenho ventilador de teto e justifiquei:
– Ar frio só na sala e nos quartos.
– Deixa de ser bobo guri, tou falando em fritadeira elétrica.
E eu lá ia saber que ela queria fritar hambúrguer sem óleo?!