Se vale pra Chico vale pra Francisco

A grande mídia, por interesse ou por descuido, fez uma tremenda confusão em relação a aprovação do teto na Câmara, na quinta-feira passada.
O que aconteceu foi o seguinte:
O prefeito cortou o salário dos servidores públicos com dedicação exclusiva que ele mesmo estabeleceu por decreto. Se é por decreto, não está na constituição. O teto estabelecido foi de R$ 19 mil aos servidores de carreira, portanto, concursados.
Ao mesmo tempo o prefeito mandou para a Câmara um projeto que dá gratificação para três secretários (Parcerias Estratégicas, Saúde e Fazenda) na ordem de 70% de R$ 13 mil, mais o salário da origem, sem teto. Tem salário que chegaria a R$ 38 mil.
A Câmara estipula que há teto em Porto Alegre e ele está na constituição do estado e vale para todos.
Foi isso que ocorreu.
Cumpra-se a lei que é esta aí: § 12 do artigo 37 da Constituição Federal inserido pela emenda 47 de 2004. Implantado no Rio Grande do Sul através de emenda a constituição do estado de nº 57 de 21/05/2008 que definiu o limite único como teto do funcionalismo, o subsidio do desembargador.
Vale para os três poderes.

Botando a carroça na frente dos bois

Os senhores da capa preta andam pisando na barra da toga, engolindo a saliva e beijando o chão.

Um procurador do Ministério Público Federal, adepto às  plataformas digitais, monta um PowerPoint para desmascarar um ex presidente. Uma roleta russa onde o alvo era a cara do cara.

Começo a pisar na barra da capa preta e se desequilibrar perante a opinião pública. O show não é função dele. O palco é dos réus e não dos senhores da lei.

O mesmo procurador, Deltan Dallagnol, tempos depois, se adiantou à instituição superior, deu o passo maior que a perna e foi ao chão, sem nem mesmo pisar na barra da capa.

Foi fazer uma média com o superior, o chefe se zangou e soltou o Zé Dirceu.

Agora é a vez do Juiz de Direito dar seu show. Sérgio Moro quer porque quer ficar frente a frente com o ex-presidente Lula, olhar no olho, mesmo que para terminar a sessão sem arrancar contra ele.  E Le não precisa disto, mas acobertado pela grande mídia não vai, de forma alguma, dispensar os holofotes.

A reforma de um apartamento ou um sítio em Atibaia é café pequeno perto de tudo o que puseram as mãos, mas o Juiz insiste na tecla. Prefere investigar a chinelagem em detrimento aos verdadeiros ladrões que estão aí, soltos, no comando da nação.

Os ladrões de galinha sempre levaram a pior enquanto os Eikes faziam fortuna em obscuros negócios. É fácil identificar quem afana uma penosa no escuro, porque as demais galinhas acusam as irregularidades no galinheiro para que os cães de guarda ajam de forma rápida e eficaz para evitar que o larápio fuja do telhado.

Já os gatunos, também conhecidos pelas alcunhas de gato fino ou colarinho branco mandam prender o larápio, para dar o exemplo em nome da moral e dos bons costumes, fazem o que chamam de chinelagem desocupar suas terras para dar lugar a grandes empreendimentos e sentam o porrete no colono que se recusa a deixar seu espaço, tudo em nome da democracia. Aliás, desde quando os poderosos dependem da democracia?

Enfim, como disse um frade certa vez quando decretaram o estado laico e mandaram retirar os crucifixos das repartições públicas. Quando questionado respondeu:

– Eu não quero ver um crucifixo dentro do congresso, ou de uma delegacia, ou de um tribunal, ou de um hospital, ou em qualquer lugar onde a lei não é cumprida e os direitos humanos não são respeitados.

A Justiça continua atuando a serviço dos poderosos e os poderosos são, comprovadamente, criminosos. Neste ritmo de trapalhadas Dallagnol soltou Zé Dirceu e Moro vai eleger o Lula. Só que esta parte do show não estava no script.

Azarildo não decla a previdência no Imposto de renda

 

Azarildo bem poderia ser irmão, primo ou um parente qualquer do Sofrenildo, personagem criado pelo cartunista Sampaulo.

Véspera da data limite para declaração do Imposto de Renda, não conseguiu acessar o comprovante de aposentadoria da Previdência Social. Aparecia no alto da tela uma mensagem que dizia: “Beneficio inconsistente ou não possui crédito no ano calendário informado”.

Foi ao posto do INSS localizado na Travessa Mário Cinco Paus, no Centro de Porto Alegre, entrou na fila e na sua vez, solicitou a atendente uma cópia para que pudesse abreviar seu calvário.

Já de saída, ao explicar o que estava ocorrendo foi bruscamente interrompido:

– Documento

Depois de teclar e perguntar pelo menos umas três vezes o nome da mãe a atendente disse que estava tudo normal.

– Os dados estão corretos

– Tudo bem, respondeu Azarildo, mas aparece este recado aqui, no alto da tela, fiz uma cópia aqui no celular…

A atendente não quis nem olhar e já foi dispensando o pobre coitado.

– A senhora poderia, ao menos, me fornecer uma cópia, para o caso de eu não conseguir acessar em casa?

A resposta foi um NÃO seco.

– Procure entender, amanhã tem greve geral e vocês vão parar

– Com certeza

– E se eu não conseguir acessar e continuar aparecendo este recado…

– O senhor vai conseguir sim

– E se não der?

– Vai dar

– Mas uma cópia, a impressora está atrás de você…

– Eu não acessei o seu extrato, só conferi os dados

– Mas os dados sempre estiveram certos nunca deu problema, o problema é…

Ela interrompe bruscamente e vira-se para a colega ao lado

– Ele quer uma cópia

– Não dá, respondeu a colega.

Nunca se soube direito, no entanto, se este NÃO DÁ é o verbo dar ou se não daria mesmo para imprimir por questões operacionais.

A indagação ficou no ar.

Retornou para casa, acessou a página e lá estava o mesmo recado de sempre

Não conseguiu declarar a previdência no Imposto de Renda.

O que ficou claro para o pobre Azarildo ao sair da agencia, foi a certeza de que a reforma da previdência não deve ser das aposentadorias, mas dos seus servidores.

Na semana seguinte foi ao posto do Partenon e conseguiu na hora a cópia que tanto precisava.

Desta vez teve a convicção de que nem todos os servidores precisam de reforma.

Depois do DVD dos aflitos, o tricolor vai lançar O LIVRO DE ELIminado

Frases do gauchão:

O Renato reclama que o Grêmio deu mole. Dá Viagra que levanta e não pega no doping.

O Inter só tem um goleiro. Vai chamar de volta o Manga, o Banitez e o Taffarel. E o Galvão vai ser chamado pra narrar a final do gauchão pra dizer: Vai que é tua Taffarel!

O torcedor colorado reclama tem dado um branco no jogador Alemão. E o Alemão é moreno.

 

E num momento de emoção de um diretor do Nóia, em lágrimas pelo campeonato histórico, um repórter quebra o climax ao perguntar se no jogo da final vai ter arquibancada móvel no estádio do Vale.  Um balde de água fria, nem Viagra levanta.

O Nóia acabou com o jogo da Baleia Azul, superou todas as etapas, perdeu a graça.

Depois do DVD dos Aflitos o Grêmio vai lançar um livro com a campanha do gauchão. Vai ser O LIVRO DE ELIminado.

Faz um ano que o diálogo ocorreu

O filho quer saber do pai:

– O que é um canalha?

– O Bolsonaro

– Mas o senhor disse que era o tio Eduardo.

– Este é um pulha

– Mas pulha não era o Lula

– Isso ele foi, em outra época

– Quando o senhor torcia pros canalhas?

– Sim! Não! mais ou menos

– Porque o senhor mudou?

– Porque eu torci pro Jean ganhar o BBB

– Humm, o que errou o cuspe?

– O próprio

– Mas o senhor é também contra a Globo

– Totalmente

– Mas assistia o BBB

– Isso foi em outra época

– O senhor também disse que a Dilma roubava

– É que eu assisti na TV, deu no rádio e no jornal

– Então quem embolsa é o Bolsonaro e não a Dilma?

– Nunca pus a mão no bolso dele pra te dar certeza

– E o Tiririca pai, quando ele disse – sim – no impeachment, você quase teve um infarto

– Ele é o Judas

– Mas o Judas não são os…. aqueles da Lava-Jato?

– Os delatores

– Isso, você sempre disse que eles eram Judas

– Sim, Judas foi o cagoete

– Cago o que?

– NÃO! Não é o que você tá pensando

– Nunca ouvi falar deste tal de cagote

– É cagoete filho, um delator

– Um Judas você quer dizer…

– Não deixa de ser, uma versão moderna

– Você disse que se fosse deputado não ia falar tanta merda

– Maneirando as palavras filho; não falaria mesmo, diria sim ou não em respeito ao povo e a nação

– Mas aqui em casa você antes de dizer sim ou não sempre faz um discurso

– Filho, por Deus, por você, teus irmãos, tua mãe, o gato e o cachorro, chega de perguntas tá?

Por: Flavio Damiani (publicado em 19 de abril de 2016 – pós impeachment)

Série B Qualificada

Talvez, nunca antes na história, a série B do Campeonato Brasileiro vai estar tão qualificada. O jogo entre o Internacional e o Corinthians mostrou um gigante em campo, gigante como seu próprio estádio, como seu próprio hino. Um internacional que se desprendeu, voou no gramado e não fez mais do que um gol por conta de um conjunto em formação, onde as peças ainda não se estabeleceram dentro das quatro linhas do tabuleiro.

Para encurtar o espaço, saio de um jogo, convicto de que o inter de hoje está a altura do seu pavilhão, vai tremular em qualquer que seja a divisão, um time de jogadores comprometidos, com garra, sem aflição. Jogadores eletrizantes, correm o tempo todo, marcam, voltam, armam, desarmam, se adiantam nas jogadas, sem sono, sem apagão.

A série B estende o seu tapete vermelho ao colorado dos pampas pois sabe muito bem quem está chegando. Mas, fica um recado aos demais participantes, vocês vão receber em suas casas os mestres da bola, professores de futebol. Chega com o respeito, a humildade e, convicto, que vem para valorizar uma competição da qual nunca participou. Portanto, viemos para somar, valorizar, contribuir, qualificar. Nosso objetivo é deixá-los sossegados e não aflitos.

 

Acareação

– Mãe, você bateu panela contra a Dilma, não foi?
– Sim, por que?
– E disse que não votou no Temer
– Sim, quem votou na Dilma, votou no Temer
– E você postou que o Temer não era o que você esperava
– Bem, não foi o que a gente pensava que seria
– Então quem bateu panela apoiou o Temer
– Não apoiamos ninguém, ninguém
– Mas se vocês tiraram a Dilma, sabiam do Temer
– Não sabíamos, não dava na TV, no trabalho, as amigas, só falavam mal da Dilma
– Mas a TV continua não dando nada do Temer e você disse que não gosta dele.
– É que eu quero continuar no meu emprego de carteira assinada e benefícios trabalhistas, quero ser respeitada como mulher e quero me aposentar em vida
A mãe pegou uma panela para fazer o jantar e o filho alcançou uma colher grande ordenando: – Bate mãe, bate!

De onde vem “Os Homens de Preto?”

Bastou uma nesga de conversa, em janeiro deste ano, com o Paixão Cortes, para descobrir uma história interessante. Entre um cavaco de assunto e outro, surgiu uma discussão sobre a evolução musical no Rio Grande do Sul e dos seus compositores, entre eles, o Paulo Ruschel, autor de um clássico do folclore rio-grandense. Aquele que fala dos “homens de preto trazendo a boiada, vem vindo cantando dando gargalhada”, e que sem alternativa “o bicho coitado (…) só vem pela estrada, direto à charqueada…”

Foi aí que lasquei:

– Como surgiu esta música?

Beirando os 90 anos de idade, com uma lucidez invejável, o Paixão é uma referência na pesquisa folclórica do Rio Grande do Sul. Pelas mãos dele passou parte do repertório musical dos pampas.

A profissão de engenheiro agrônomo da Secretaria da Agricultura do Estado nunca foi um empecilho para sua atividade cultural, aliás, pelo o que ele conta, ajudou a descobrir e divulgar.

Foi numa destas andanças que ele acompanhou, ou testemunhou, o nascimento desta, que ainda é uma das músicas mais executadas do cancioneiro popular gaúcho e um símbolo que levou o nome do Rio Grande do Sul pelo mundo.

Paixão Cortes era especialista em lãs, e conta que na década de 50 fazia uma exposição na cidade de Julio de Castilhos, onde está localizada a Cooperativa Regional Castilhense de Carnes, ou simplesmente, Frigorifico Castilhense, que  abrigou a exposição que reunia criadores e interessados na comercialização do produto e de olho no mercado.

Lá, por esses dias, conta ele, apareceu o Paulo Ruschel, artista plástico que também era compositor e violonista. Ficou impressionado com uma cena: homens a cavalo vestindo capas pretas empurrando o gado rumo ao matadouro. “Era frio e como proteção, vestiam as pesadas capas de lã que cobriam o corpo”, descreve. A capa cobre o cavaleiro e se estende até a anca do cavalo.

– O corredor de acesso à cooperativa é amplo e de encher o peito – observa Paixão, que nesta época, apresentava o programa Grande Rodeio Coringa que ia ao ar pelas ondas da Rádio Farroupilha de Porto Alegre.

Conta que dias depois da exposição em Júlio de Castilhos, o Ruschel “apareceu na minha casa, na Rua Sarmento Leite, 101”, ficava próximo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com um violão, lá estava para mostrar a composição, que levava o nome de “Charqueadas” e não “Homens de Preto”, como depois ficou conhecida, por conta do refrão.

A música foi apresentada, pela primeira vez, no Grande Rodeio Coringa em 1º de Maio de 1955 e nasceu fazendo sucesso. O estilo logo encantou o público, pela tal dimensão diferenciada da letra, da música e da interpretação do grupo Os Gaudérios que tinha como integrantes o Neneco, o Carlos Medina, o Marques Filho e o poeta e letrista Glauco Saraiva.

A escolha dos Gaudérios para interpretar a música foi uma opção do Paixão.

– Era preciso colocar mais de duas vozes para dar uma identidade a letra – lembra.

Reconhece que foi a partir daí que as músicas solo e em dupla começaram a receber mais um ingrediente. A multivocalidade foi consagrada mais tarde pelo Conjunto Farroupilha que carimbou o passaporte dos “Homens de Preto” pelo mundo, levado pelas asas da Varig. Que o digam os cabarés de Paris.

Elis Regina também gravou.

“O gênio do fascismo saiu da garrafa e agora não conseguem colocá-lo de volta”

É lúcida esta definição do governador do Maranhão, Flávio Dino, fazendo ponderações da classe política e social brasileira no momento em que se vive uma turbulência indefinida sobre os rumos da Nação. Se chegou onde se chegou por conta de uma total falta de coerência ao discurso e obediência à cartilha política redigida pelas bases. Se ela fosse respeitada não chegaríamos a tanto. Tenho certeza que a grande maioria entende que quando se ocupa uma nova casa, uma nova proposta e um novo modelo devem ser implantados. Troca-se móveis, pintura, espelhos, até a casa do cachorro muda de lugar. Os antigos ocupantes devem levar toda mobília e um bruxo ser chamado para eliminar todos os males e seus fantasmas.

Se isso não for feito, o espírito continuará assombrando e agindo na calada da noite, com os antigos moradores, em pele de cordeiro, dando as cartas, como velhas raposas que conhecem bem o território e cada divisão das paredes, do pátio, bem como os caminhos das tubulações obscuras por onde evade a cacaca de quem se alimenta à mesa da rapinagem e faz o mau uso da coisa pública.

O certo é que os antigos donos nunca deixaram a casa, continuaram dando as cartas na jogatina das madrugadas, com o aval dos novos proprietários que, atraídos pela funcionalidade do novo lar, esqueceram-se da lição de casa e passaram a compartilhar das mesmas regras, do mesmo jogo.

Um dia uma criança curiosa sobre no sótão e encontra uma garrafa estranha, tenta limpá-la esfregando o pó com as mãos e dela surge uma nuvem de fumaça trazendo dentro dela um gênio, genioso, que sai aprontando por aí. O problema vai ser colocá-lo de volta, se a casa do gênio não for encontrada. O menino pode ter quebrado a garrafa.