Faz uns cem anos, como se fosse hoje, o Rui dizia:

 

“De tanto ver triunfar nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar das virtudes, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

“A falta de Justiça, a fonte de todo o nosso descrédito”.

(Rui Barbosa em 1914)

 

 

Denuncismo & Censura nos meios de comunicação de Passo Fundo

 

DIAS CINZENTOS, ANOS DE CHUMBO

Tem livro que se lê num piscar de olhos. Outros de orelha a orelha (lê uma orelha, depois a outra e descarta o resto). Há os que a gente se perde na história confusa e os que a gente não para de ler. Este último se encaixa perfeitamente na obra Denuncismo & Censura nos Meios de Comunicação de Passo Fundo entre os anos de 1964 a 1978, do jornalista José Ernani de Almeida. Não dá para interromper a leitura sob pena de perder o sono. Isso me aconteceu recentemente lendo o livro do Paolo Giordano, um jovem Físico italiano que aportou na Feira do Livro deste ano na Praça da Alfândega e que se tornou celebridade na literatura escrevendo, mesmo sem convicção, um best-seller intitulado – A Solidão dos Números Primos – gente e algarismos numa trama que dá gosto.

Uma leitura isenta na obra do José Ernani, mestre em história, é no mínimo uma obrigação às novas gerações que ignoram o período negro de perseguição dos militares aos civis declaradamente contrários ao regime ditatorial que se instalou no Brasil por meio de um golpe em 1964 que depôs o presidente João Goulart. Dos fatos eu não participei, por se passarem durante a minha infância e pré-adolescência, mas senti o cheiro da pólvora.

Morando no interior, acompanhava as notícias, quando a estática que provocava descargas nas ondas do rádio permitia que se ouvisse o Repórter Esso. É claro que as informações nunca eram transparentes, mas, ouvindo os comentários dos freqüentadores da casa dos avós, durante o “filó”, era possível imaginar a caserna cometendo todos os tipos de atrocidades com direito a autenticidade, carimbo e reconhecimento de firma.

De baioneta calada, na calada da noite, calavam com atos e despachos a liberdade de expressão, a mídia e a voz rouca das ruas pedindo por liberdade e fim das execuções na obscuridade dos porões.

Dentre as curiosidades no livro, tem uma totalmente bizarra ou extravagante, que resume a gana dos militares na caça aos comunistas. A história de um adolescente analfabeto que aos 17 anos ganhou um lenço vermelho numa rifa durante uma festa religiosa no interior. Orgulhoso do premio colocou o lenço no pescoço. Foi preso como subversivo e levado para longe de casa sem que alguém lhe explicasse o motivo. – Fico imaginando como era vestir a camisa do Inter naquela época.

Quanto ao comportamento das rádios e jornais de Passo Fundo durante o período da ditadura é claro que eu vou ficar calado sob pena de ser fuzilado pelos leitores que odeiam saber o final da história*.

Onze horas e trinta e três minutos de uma manhã de domingo. Sob a sombra de uma paineira no Parque da Redenção termino de ler o livro Denuncismo & Censura de frente para o brique na rua José Bonifácio, mirando do outro lado o imponente Colégio Militar que passa por reformas, físicas é claro…  (Flávio Damiani)

*Editora méritos – www.meritos.com.br(Denuncismo & Censura nos meios de comunicação de Passo Fundo– José Ernani de Almeida).

 

 

Uma Trave Chamada Kempes

Mário Kempes, empresta o nome ao estádio de Córdoba onde Argentina e Brasil se enfrentaram em 14 de setembro de 2011, na reedição da Copa Roca. Kempes foi um atacante cordobês da seleção da Argentina do final dos anos 70, um terror das zagas, temido pelos goleiros, reverenciado pelos apreciadores do bom futebol. Tinha uma inexplicável afinidade com a meta.

Uma trave tem sete metros e alguma coisa de um poste ao outro, dois metros e alguma coisinha do gramado ao travessão, e claro, um goleiro para evitar que a bola caia na rede esticada para o lado de fora da linha de fundo.

Na frente uma linha de zaga chamada de defesa, mais um grupo de jogadores espalhados no meio campo chamados de meias, armadores, desarmadores, volantes e alguns lá na frente conhecidos como atacantes. Antigamente tinha ponteiros e centroavante, hoje se sabe que centroavante sobreviveu ao desmanche do futebol, já os ponteiros se perderam no relógio do tempo.

Quando o Ronaldo Nazário deixou os campos houve uma espécie de viuvez na posição do avante. Procuraram nas escolinhas, mas nenhuma preparava um substituto a altura. Olheiros de peneira em punho saíram à procura desta espécie em extinção.

Esqueceram a várzea, e foi justamente de lá que surgiu uma espécie de salvador da “pátria de chuteiras”, um santo protetor chamado Damião. Com todo o respeito ao santo Expedito, mas o guerreiro em questão apresenta suas armas trombando, atropelando zagas, recriando velhas formas de lambretas e bicicletas, dando graça e ousadia ao monótono futebol jogado nos gramados, do país do futebol.

E não é que o genial menino folgado que não tem nada de santo, vai me provocar justamente os Argentinos, aplicando um sombrero no Papa, acelerou a lambreta, invadiu a área e deu uma casca com o lado do pé mostrando à bola o caminho mais curto para se chegar ao gol, como se ordenasse: – Toma, vai!!!.

http://www.ole.com.ar/seleccion/Damiao-suerte_3_554374576.html

Goleiro batido, a seleção Argentina dependendo de um milagre, chamou todos os santos que providenciaram imediatamente uma trave. Caprichosamente  a bola beijou o poste e saiu desaforando o velho Kempes, que não estava em campo, mas enviou representante.