Crônica de Madri / Uma história real

O alvoroço causado pela medida do governo argentino ao expropriar a petroleira Repsol YPF não tinha hora melhor para acontecer. Cheguei a Madri no final da tarde da segunda-feira, 16/04, e tive certa dificuldade em saber o que se passava no reino da Espanha. As TVs transmitindo ao vivo declarações da rainha Sofia, confusas, até então. Mais tarde fui entender que se tratava de questões cotidianas envolvendo avô e neto da família real, que resolveram brincar com arma de fogo e como resultado um fraturou a anca e o outro deu um tiro no pé. Fato que não teria importância se os envolvidos não fossem o rei Juan Carlos da Espanha e o filho da filha do rei, Felipe, de 13 anos, 5 candidato na linha sucessória ao trono. Antes tem a mãe infante Elena e o tio, o principe Felipe de Astúrias.

Enquanto, longe dos problemas da Corte, a rainha Sofia estava na Grécia passando a Páscoa, dom Juan Carlos, para quebrar a rotina do castelo, resolveu caçar uns elefantes na África. Para a sorte dos elefantes, o rei escorregou e caiu, fraturando o traseiro contra um degrau da casa do amigo que o recebia. Já o neto ficou em casa, porque uma semana antes, quando treinava tiro ao alvo, para mais tarde seguir os caminhos do avô, esqueceu que o cano da arma deve estar sempre apontado para o inimigo, e atirou para baixo. A ida para a África foi um prato cheio para os opositores que acusaram o monarca de ter abandonado a Espanha num momento de crise econômica.

E não tardou muito para se dar início a uma série de ataques que poderiam sair do controle não fosse a intervenção de Cristina Fernandes, como é tratada aqui, ameaçando a soberania. De um hora para a outra, os ataques à realeza cessaram e o bombardeio passou a cruzar o oceano. Um programa de televisão do canal 3 ironizou Cristina dando seu peso, medidas e revelando os 14 milhões de euros da sua conta bancária bem como, por meio de animação gráfica, mostrou a transformação da presidente antes e depois da cirurgia plástica e da aplicação de botox para destacar o contorno dos lábios.

Já nas ruas, o povo anda mais preocupado é com a economia que não vai nada bem, sintoma que pode se observar no comércio, liquidando os estoques para fechar as portas. Satisfeito mesmo era um argentino abastecendo o carro num posto Repsol em Madri, na manhã seguinte ao anúncio da expropriação. Parecia orgulhoso, como se já estivesse colocando gasolina nacional no tanque de combustível.

Enquanto o rei enfrentava perigosas manadas de elefantes em terras distantes, o reino corria perigo e era atacado por uma mulher obstinada a desafiar reinados e ameaçar soberanias. Poderia ser o tema de um livro de história: o monarca volta ferido, recolhe-se em seu castelo à espera do reconhecimento dos súditos, que não estava sendo nada bom. No entanto, o grande desfecho foi ofuscado pelo providencial ataque da madame Kirchner. O rei e a rainha agradecem.

Confira o artigo publicado no jornal Correio do Povo de Porto Alegre/Brasil no link –  http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=117&Numero=203&Caderno=0&Editoria=108&Noticia=414492

Cartas de Coimbra / Contos do Rio Grande

“… o jornalismo fotográfico gaúcho perdeu um pouco da graça depois que o Ronaldo Reis aposentou sua máquina para grandes coberturas”.

O destino quis que no ano de 1999 último do século e do milênio eu fosse desembarcar de mala e cuia na última das maiores cidades do extremo sul do Brasil, ou a primeira se vista do lado oposto.

Rio Grande me recebeu de braços abertos e logo foi possivel sentir a hospitalidade daquele povo de forte influência lusitana, a começar pelos seus prédios antigos que guardam a história de uma cidade que em 29 anos se tornará tri-cenetenária, que tem uma igreja de quase 500 anos, o time de futebol mais antigo do Brasil e uma das mais extensas praias do mundo.

Também foi um ano e convivência com alguns dos mais terríveis fatos da história daquela cidade. Um navio que derramou ácido no canal e acesso ao porto e comprometeu a pesca na Lagoa dos Patos desempregando centenas de pescadores, afetando a economia e sobretudo colocando em alerta a população inteira sobre o perigo de uma bomba quimica chamada Bahamas, um navio de bandeira maltesa, cercado de mistérios, que deveria ter sido afundado fora da costa brasileira, foi sequestrado em alto mar quando se dirigia para a zona da morte e até hoje ninguém sabe do seu paradeiro.

Neste mesmo ano uma lama gosmenta de textura grudenta se desprendeu do mar e cobriu a principal área de banho da praia do Cassino. Desde os molhes da barra que é o canal de entrada e saída de navios para o porto e das vagonetas movidas à vela sopradas pelo vento num passeio mar adentro, até bem próximo do desembocadouro dos veranistas na praia, não sobrou um centimetro de areia que pudesse acomodar um único banhista.

A fúria do mar durante uma tempestade vomitou toneladas de barro acumulado na boca do canal, resultado do manejamento inadequado do solo às margens de rios e arroios que desembocam na Lagoa dos Patos. Todo o tipo de detrito, lixo e imundice produzida pelas mãos do homem foram se aculmulando na garganta da única ligação da lagoa com o mar. O mar não quis aceitar a sujeira e mandou tudo de volta sem dó nem piedade, como se dissesse: – Quem pariu Matheus que embale! Como os apóstolos na história bíblica, não aceitou o ônus deste dividendo e devolveu com juros e correção monetária.

Como se não bastasse depois do ácido e da lama a execução sumária de casais que faziam das dunas do Cassino, ponto de encontro nas calmas noites litoraneas dos mares do sul, colocou em alreta a cidade toda.
De onde vinha o serial killer que assombrava pais e mães de adolescentes surpreendidos com violência quando viviam momentos de ternura?. Depois de muitas mortes, de areias manchadas de sangue, o malfeitor foi descoberto. O assasino vinha das docas. Morava alí, e convivia no dia a dia da população, acompanhando os fatos pela mídia como se não fizesse parte da história.

Convivi com muitas pessoas nesta cidade portuária também conhecida pelo carinhoso apelido de Noiva do Mar, pessoas simples ou influentes que sentavam-se à mesa para beber nas tabernas. Os outros que me desculpem, mas teve um camarada que registrou em imagens todos os fatos narrados até aqui e muitos outros. Semana pós semana, o clic revelado pela máquina fotográfica do Ronaldo Reis era estampado na capa do jornal Zero Hora. Fotos cheias de litoral, baleias e toninhas mortas, colonias de lobos marinhos e pinguins migrando das terras geladas da Patagônia, aves migratórias do Banhado do Taim, Lagoa dos Patos e Mirim, o Porto de Rio Grande e suas embarcações gigantescas que nada mais eram doque visitantes que vinham de longe movimentar a economia, as docas, o canal da Barra com pescadores trazendo lanços de anchovas e tainhas que mal cabiam nos barcos, uma infinidade de fatos produzindo uma uma variedade de imagens que pareciam falar por sua objetividade, novidade, por despertar a curiosidade do leitor. E o fotógrafo estava lá, na hora certa e no lugar certo, no melhor angulo.

O Ronaldo era um desses caras prá ficar até altas horas jogando conversa fora enfileirando garrafas sobre a mesa.
Certa noite numa taberna chamada Caçarola na Luiz Lorea no centro de Rio Grande, cujo proprietário atendia pelo diminutivo de Luiz, Ronaldo e Eu ocupavamos a mesa número 1.
Quando já passava da meia noite, resolvemos dar uma olhada num galo que criavamos nos fundos do pário, tratado com os restos da comida que sobrava na cozinha. Era um São Gonçalo, de briga, lustroso e louco prá se lançar num rinhadeiro. Pelo o que soube o galo nunca foi desafiado ou desafiou algum outro penachudo. Restos de arroz, massa, feijão e algum que outro naco de carne e salada sem sal nem vinagre, faziam parte da dieta do dia do Gonçalão.

O Luizinho que providenciava os ultimos ajustes na cozinha, antes de fechar a taberna nem notou a direção que haviamos tomado. Quando retornou viu a taberna vazia. Como tudo era no pindura a gente entrava, comia e bebia e ia embora sem pagar a conta as vezes sem se despedir do dono, recolheu copos e garrafas, apagou as luzes, fechou a porta e foi embora pros lados da praia do Cassino onde morava.
A porta dos fundos no entanto ficou aberta e foi por ela que retornamos à mesa. Um breu total, não se enxergava um palmo. Os isqueiros imuminaram o salão até que se encontrasse a chave da luz.
Estávamos presos num bar com o freezer transbordando de garrafas de cervejas ao ponto. Como na época celular era artigo de luxo, precisamos esperar o Luizinho chegar em casa para ligar pelo telefone fixo no balcão e negociar o resgate.
– Ô meu, é o Ronaldo, que horas voce abre a taberna.
– Ué, o poque da pressa prá voltar.
– Voltar nada, a gente quer sair.
O jornalismo fotográfico gaúcho perdeu um pouco da graça depois que o Ronaldo Reis aposentou sua máquina para grandes coberturas. Por onde andas velho amigo!?… e o galo, que fim levou o galo?

Flávio Damiani / Desde Coimbra, Portugal