Casaldáliga sai de casa

Conheci dom Pedro Casaldáliga nos remotos anos oitenta na Encruzilhada Natalino, quando se formava o primeiro acampamento de resistência à expulsão de agricultores das terras indígenas do norte do Rio Grande do Sul. A desacomodação de colonos deu origem ao Movimento Sem Terra (MST) no Brasil. Casaldáliga já era bispo de São Félix do Araguaia na parte sul do estado de Mato Grosso.

Veio de lá em defesa do padre Anildo Fritzen, à época, pároco da igreja matriz de Ronda Alta. O padre sofria com a ameaça de expulsão do país pelo regime militar do presidente João Figueiredo e se cercava do apoio de expressivos representantes da esquerda como forma de blindar sua permanência frente ao movimento.

Já se passaram mais de trinta anos e leio no site http://www.sul21.com.br que dom Casaldáliga continua perseguindo a sua missão de proteger parte frágil do processo envolvendo questões sociais onde é evidente a ameaça do mal contra o bem a qualquer preço, desta vez envolvendo a desocupação para a devolução da reserva do povo xavante Marãiwatsédé, ocupada por fazendeiros. O bispo – acoado por boa parte do tabuleiro – teve que sair de casa e escoltado para fora da cidade pela Polícia Federal por estar recebendo ameaças de morte.

Agora é dom Pedro que precisa de blindagem e nem sei por onde anda o padre Anildo, nem se continua na igreja, ou se ainda tem uma paróquia.

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

2 comentários em “Casaldáliga sai de casa”

  1. Importante pensarmos o resultado das desintrusões.
    Viví muito próximo desse processo histórico. Me mudei para Ajuricaba e depois para Ijuí – RS, no raio desses movimentos. Crescí no meio dessa história e conheço Padre Anildo e Dom Pedro, o Dom Pedro do Povo!
    Os tempos são outros.
    Mas para contemporizar contigo, Flavio Damiani, copio aquí um pouco mais da história de Ronda Alta, que recordarão vários desses ilustres personagens que construiram a história, certamente não nas condições ideais.
    O artigo que cito abaixo, escrito pelo Edson Campos, conta um pouco do resultado dessa tua homenagem ao Dom Pedro e ao Anildo. Conta a história da única administração do PT no Interior do RS, idos de 1992…
    Para quem se interessa sobre esse fio da meada que levantaste e que pela força da Rede vai atravessando a distancia e o tempo, e nos faz recordar de uma história que não podemos confessar não termos vivido.
    http://www.fpabramo.org.br/o-que-fazemos/editora/teoria-e-debate/edicoes-anteriores/cidades-mosaico-petista-longe-das-capitais-

    ‘Uma cidade chamada PT
    Além de Porto Alegre, Ronda Alta é a única cidade administrada pelo PT no Rio Grande do Sul. Numa região que aparece nos jornais há quarenta anos devido às disputas fundiárias, o município é um dos mais caros modelos do “modo petista de governar”. Distante 100 quilômetros de Passo Fundo, no norte gaúcho, a cidade figura nos discursos de muita gente, quando a “competência” do partido para administrar é posta em xeque.

    Berço do Movimento Sem-Tema, Ronda Alta virou vaca sagrada para o PT quando o prefeito Saul Barbosa anunciou o índice de mortalidade infantil do município de janeiro a junho de 92: zero.

    O mito vira pó quando o microfone vai à boca da oposição: “A administração do PT é péssima, uma das piores. Dá para dizer que o PT assassinou Ronda Alta. Até a sede da prefeitura, um dos prédios mais belos da região, anda descuidado. Gasta-se em publicidade o que nenhum outro prefeito jamais imaginou gastar, o PT é muito fraco e luta contra um projeto ambicioso de implantar um pólo industrial na cidade. O PT não tem competência para se manter no poder”. Jovem e arrogante, o empresário Rubens Graciolli, candidato do PDT à prefeitura, fala pelos cotovelos para definir o que é o PT na Prefeitura de Ronda Alta.

    Longe do céu e do inferno, a cidade tem 12 mil habitantes que vivem da agropecuária. A maior parte da população está no campo, embora exista também o comércio, responsável por grande parte da receita própria da prefeitura, cerca de 20% do que o município arrecada. O Fundo de Participação dos Municípios responde pelo resto da arrecadação, além dos 8% bancados pelo convênio com o Sistema Único de Saúde e outras receitas menores.

    A diferença em relação aos municípios vizinhos está na estrutura fundiária e organização popular. Comum empurrão dos assentamentos efetuados pelo estado e a divisão de terras da Igreja em 83, a zona rural de Ronda Alta chama a atenção pela ausência de grandes propriedades.

    Em todas as comunidades existem associações que organizam, em maior ou menor grau, a coletivização da produção e seu resultado. Ivo Barriquello, descendente de italianos, foi um dos pioneiros da ocupação da fazenda Macali,ocorrida em 79. Junto com outros colonos expulsos da área indígena de Nonoai,eles conseguiram fazer, na mama, um arremedo de reforma agrária. Recebeu um lote e alguns votos de boa sorte.

    Sem recursos e crédito, os colonos começaram a se organizar a partir da Igreja Católica e constituíram um dos primeiros núcleos do Movimento Sem-Terra no estado. Ivo conta que “de início, era tudo individual. Só em 89 a gente conseguiu comprar maquinário em conjunto e agora trabalhamos juntos e repartimos o que é produzido”. Perguntado se há problemas na divisão de tarefas e benefícios, Ivo afirma que não e cita um exemplo: “o número de matrizes de suínos dobrou depois da coletivização”.

    A melhoria mais evidente é o grau de mecanização do trabalho. O que antes era feito com tração animal e no braço, hoje é executado com ajuda de dois tratores, grade, semeadora e pulverizador. As quatro famílias que moram em Macali I contam com assessoria da prefeitura e da Emater – um órgão subordinado à Secretaria de Agricultura do Estado – para implantar um projeto de microbacias, controle biológico de pragas e aumento da produtividade. A área plantada é surpreendente; de 131 hectares, 120 estão cultivados.

    O problema não resolvido das pessoas assentadas é a renda: conseguir sobreviver da agricultura é muito duro. O acesso aos serviços públicos também é difícil, mesmo os prestados pela prefeitura, que Ivo considera “de casa”. As estradas são precárias e quando chove a coisa fica feia. “Quem não está organizado não agüenta ficar”, diz Ivo.

    Revolução e medo
    A história do Movimento Sem-Terra começou com o primeiro grande movimento de lavradores, ainda desorganizados, depois da experiência das Ligas Camponesas da década de 60. Sob a liderança da Igreja, cerca de setecentas famílias acamparam na Encruzilhada Natalino, na saída do município, em 81. O movimento durou três anos e é exemplo para a organização dos acampamentos que acontecem ainda hoje.

    Quando o acampamento começou a dar sinais de cansaço, em 83, a Igreja comprou uma fazenda para o Movimento Sem-Terra. Em seus 128 hectares foram assentadas dez famílias que teriam a incumbência de constituir um modelo social. Começava a experiência de Nova Ronda Alta.

    Permaneceram em Nova Ronda Alta oito das dez famílias iniciais. Apenas o terreno das casas é individual. O restante, da caminhonete que leva as crianças às escolas até as máquinas de costura industrial, é coletivo. Há cerca de oito anos suas normas de organização estão em vigor. São rígidas e, como nos acampamentos, incluem o comportamento moral.

    Todas as quartas-feiras a comunidade se reúne para conversar sobre problemas e encaminhar soluções. Sua representação política é muito forte – além da participação nos conselhos de saúde e movimento de mulheres da cidade, Nova Ronda Alta tem uma vereadora, Salete Campigoto.

    Eleita pelo PT, atualmente sem partido, Salete se diz desiludida com o parlamento, “os poderes, como estão constituídos, não permitem o avanço dos trabalhadores na luta pela conquista de seus direitos”. Embora tenha algumas críticas, ela classifica a administração como “próxima do ideal”. Salete acredita que apenas os movimentos sociais podem “fazer a revolução”. Mas não abdicou de seu mandato, e respectivo salário, na Câmara dos Vereadores.

    Além dos herdeiros da Encruzilhada Natalino e dos agricultores organizados, há um grande número de pequenos e médios produtores na zona rural. Eles são a outra Ronda Alta. Donos das granjas, geralmente, são famílias que vão crescendo e construindo suas casas ao redor da “casa do pai”. A organização do trabalho também é coletiva. Essas propriedades são mecanizadas e, dependendo das posses, têm um ou outro empregado.

    Quando se roda nas estradas vicinais, entre campos de trigo e cevada verdes em muda, brotando no rigoroso inverno gaúcho, não se distingue o que é granja, o que é assentamento.

    Mas essas duas cidades só começaram a comungar quando o PT ganhou a prefeitura, nas eleições de 88. No próximo pleito, o partido tem a candidatura de um granjeiro. Ivo Antônio Georgin, o “Padre”, divide com os irmãos e o pai alguns hectares na comunidade Conquistadora. Eles têm sete tratores, arrendam outras terras e possuem algum dinheiro. Ivo cresceu vendo o pai apoiando a ditadura, participando da Arena e hoje no PDS. “Ele tinha muito medo dos comunistas”, explica. Nas eleições de 89, Padre votou em Collor nos dois turnos. O que o levou ao PT, há cinco meses, foi a comparação entre a ação da prefeitura e a do governo federal. Ele conta que na safra passada foram colhidas 1.500 sacas de soja nas terras que a família arrenda, e dela sobraram duzentas. O resto foi para o banco. Quando seu pai Casimiro Georgin fez as contas, guardou o medo no saco: “acho que comunismo é isso que o governo e o banco fazem com a gente”.

    Dois lados
    Mesmo que o PT esteja mudando, no vocabulário local, a divisão política da cidade acontece em “lado de lá” e “lado de cá”. De um lado, estão o partido, a maioria das associações, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a administração. Do outro, a Cotrisal (Cooperativa Tritícola Sarandi Ltda), o Sindicato dos Produtores Rurais, a Associação Comercial, o Lions Clube, PDS, PDT e PTB.

    Esse divisor de águas foi traçado a partir de 85, quando Saul Barbosa foi eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Sua gestão foi marcada pela ajuda aos camponeses dos assentamentos, luta pela reforma agrária e a busca de tecnologias alternativas para a produção. Até hoje, se um agricultor quiser um empréstimo do Banco do Brasil, tem que vender sua produção e comprar implementos agrícolas da Cotrisal. Comprovadamente, ela rouba na hora de vender e na hora de comprar. E sustenta financeira e politicamente os “outros” partidos.

    Mas a menina dos olhos do Sindicato foi o trabalho na área da saúde. Para sair do isolamento e vencer a desconfiança dos associados que votaram contra a candidatura Saul, a diretoria começou a mudar a cara da cidade pela saúde. Na cultura popular, saúde significava hospital. O negócio era tão lucrativo que havia três hospitais particulares. Eles simplesmente compraram um dos hospitais, fizeram uma dívida fabulosa e atendiam qualquer cidadão que chegasse à sua porta. O resultado foi um misto de pânico, surpresa e felicidade.

    Quando o PT ganhou a prefeitura, o hospital foi passado para uma fundação que recebe verbas do governo federal, do Sindicato e principalmente do município. Investindo nos agentes sanitários, na cultura da medicina popular e na mudança de hábitos alimentares, a administração transformou a cidade em referência para toda a região em matéria de saúde.

    O bunker da oposição é a Câmara dos Vereadores. Dois representantes do PDT, incluindo o candidato do partido às eleições, Rubens Graciolli, um do PTB e um do PDS formam o time que não consegue apitar muito. A atuação do PT é arrojada: existe um rodízio entre eleitos e suplentes, que assumem por três meses a vaga. Por ter dificultado a atuação da bancada, o rodízio sofre uma pequena modificação na próxima legislatura: os titulares permanecem no cargo, mas dividirão os salários com suplentes, que se revezarão na assessoria. Um outro problema fica sem solução: alguns dos dezenove candidatos que pleiteiam a vereança podem, eleitos, se desligar do partido.

    Mas o que paralisa os outros partidos é a ausência de projetos para a cidade seus caciques se afogam em projetos pessoais. E o que tem feito o PT no Executivo pode ser resumido em uma frase de Saul Barbosa: “A prefeitura era uma instituição isolada do processo de desenvolvimento da cidade. Isso acabou. Ronda Alta não será mais a mesma”.

    *Edson Campos é editor do boletim Linha Direta.’

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