Androvaldo e Quaresma – O suborno na sala dos espelhos

 

– Eu não tô a fim de pegar o pato sozinho, dizia o Androvaldo no salão dos espelhos, quase vazio.

Ele estava por todos os lados e falava consigo mesmo. Os espelhos da direita mostravam um Androvaldo tenso xingando a mãe do padre. Os da esquerda um Androvaldo sincero e disposto a ir até o fim com aquele desafio em que se meteu. Às costas estava Aquiles, um garçom de terno preto, camisa clara e gravata borboleta vermelha, trazia uma bandeja na mão esquerda sem copo ou comanda, abraçado ao Quaresma, um pato branco de bico amarelo-laranja, um marreco de Pequim, mas para os apostadores era um pato, um prato cheio para a platéia que se alvoroçava atrás dos espelhos.

O clube dos vidraceiros tinha como casa de apostas o salão dos espelhos, um octógono em forma de arena de onde era possível acompanhar competições como a mais nova modalidade: Largar o pato no picadeiro, sair em perseguição calçando meias de lã sobre a plataforma de tabuão coberta de cera. A pequena vantagem do pato é que ele voa, mas Androvaldo, bailarino da escolinha de artes cênicas, queria manter-se em pé, deslizando na pista como encenava o Lago dos Cisnes, na direção do pato.

Dada a largada o garçom lançou o Quaresma feito boliche mirando o meio do salão. Androvaldo partiu acrobaticamente usando um pé, depois o outro como se deslizasse sobre numa pista de gelo. A regra era não encostar sequer um fio de cabelo nos espelhos. Quaresma bateu asas e foi para um lado. Depois de passar lotado, fazer uma pirueta e um sit-spin perfeito, Androvaldo quase encostou o traseiro num dos espelhos. Voltou à carga, mas desta vez fazendo um zig-zag para confundir Quaresma que tentou voar em direção aos demais patos, nada mais do que sua imagem multiplicada nos espelhos.

Quaresma procurava os cantos o que dificultava o campo de ação de Androvaldo que a esta altura já maquinava uma saída maquiavélica para garantir o dinheiro das apostas do clube dos vidraceiros. Realimentando a idéia inicial de que não pegaria o pato sozinho, resolveu que usaria um laranja para consumar o fato. Afinal em toda a falcatrua sempre tem um laranja. Notou que e não seria difícil encontrar um, já que o garçom que ali estava vivia de gorjetas e por certo não recusaria uma propina, mesmo que viesse em forma de suborno.

Era um show de sincronia na pista até que o pato passou a demonstrar sinais de cansaço. Era a hora de agir, mas o pato era esperto e usou Aquiles como escudo, posicionando-se junto aos seus calcanhares. Afinal, Aquiles era seu dono e o criara desde que, talvez por descuido, foi chocado por uma galinha. Não guardava rancores por ter sido abandonado pelos pais ainda na casca do ovo.

Armou-se a grande oportunidade e sem perda de tempo, Androvaldo partiu na direção do pato e do garçom, num footwork perfeito, aplicando uma rasteira nos calcanhares de Aquiles que em milésimos de segundos desabou sem dó nem piedade sobre o coitado do Quaresma que mal pode fazer quá!!!

Era o fim de uma luta onde o pobre do pato, amassado e excluído, levara um golpe traiçoeiro e, como sempre, fora das regras do jogo.  Aquiles pegou o pato para Androvaldo que ficou com o dinheiro das apostas. O coitado do Quaresma pagou o pato.

Enquanto ainda cambaleava na pista juntando suas penas, o apostador contribuinte protestava o dinheiro pago para assistir à roubalheira. Perto dali Androvaldo colocava uma “ajudinha” no bolso do garçom e outra na mão do juiz… sim, havia um juiz para aplicar as regras.

 

 

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