Na Encruzilhada: Qual Será o Destino da Venda do Natalino?

 

Em dezembro, perto do natal, cruzei a caminho de Santa Catarina pela venda do Natalino, na encruzilhada que entrou para história como o palco de resistência e o berço do MST no Brasil.

Trinta anos depois, tudo está diferente. A estrada Passo Fundo – Ronda Alta, passando pelo Pontão, foi asfaltada e as margens da rodovia que abrigaram em noites frias e de calor centenas de colonos, já não tem mais os barrancos que sustentavam os barracos de lona. As fazendas Macali e Brilhante, cobiçadas pelos Sem Terra, continuam intactas, protegidas por uma pequena porteira de arame. Dos dois lados da estrada estendem-se extensas lavouras monocultivadas. Campos verdes e céu azul.

Apenas uma imagem não mudou, a da venda do seu Natalino, um prédio que testemunhou a luta pela reforma agrária de um movimento de agricultores cansados, calejados pelos cabos de enxada e arado, feridos no corpo e na alma, expulsos das reservas indígenas e pelo represamento de suas terras que deram lugar às imensas barragens hidrelétricas.

Uma bodega no meio do nada, mas caso fosse preciso, funcionava 24 horas.

Fornecia o suficiente do pouco que os colonos podiam comprar, ou o que nós, os jornalistas, podíamos escolher no cardápio único que oferecia: arroz com galinha, bolacha com sardinha, Q-suco e guaraná.

Todos foram embora e a venda ficou lá, pode ter perdido a clientela, mas ficou a pose. Continua igual.

Parei o carro numa sombra e fui ver de perto o que restou do velho casarão. Porta da frente fechada, a dos fundos arrombada, prenunciando demolição. Parei de observar aquela cena, quando vi que do outro lado da via tinha uma borracharia e fui logo saber quem estava acabando com aquele patrimônio.

O borracheiro disse que não sabia direito, mas achava que o dono de uma sementeira ali perto estava arrumando a casa.

– Ela está sendo tombada? Perguntei com uma certa ênfase.

– Não, reformada, respondeu surpreso o borracheiro.

– Não falei no sentido de destruir a casa, argumentei.

– Andam falando que ela vai virar um museu.

– Ufa!!! Assim espero.

Pela estrada fui recordando o primeiro contato com o acampamento e a meia dúzia de barracos de lona preta que encontrei naquele inicio dos anos 80. O destino quis que eu fosse o primeiro jornalista a escrever o inicio desta longa história que me considero parte. Fiquei imaginando que um dia quando voltar, talvez encontre o meu retrato na parede.

 

A prova de redação da UFRGS

Num belo dia resolvi, depois de ficar mais de trinta anos afastado dos bancos escolares, que iria reingressar numa universidade por meio e um concurso vestibular, para acompanhar a minha filha, ficar ao lado dela na hora das provas.

Corri o dedo na lista dos cursos oferecidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e, de repente, parecia que um outro dedo saia do papel e encaixava no meu com aquele sinalzinho de minhoca do indicador dizendo – vem.

Conferi o nome do curso, e debaixo dos dedos encaixados lá estava – Sociologia, ou, Ciências Sociais, qualquer um serve.

Nos dias das provas lá estava eu com lápis, borracha e caneta preta, conforme o regulamento. Me colocaram num colégio da zona norte, eu moro na zona sul. Foram quatro dias de maratona, um triatlo de provas, trânsito e ritalina… e havia uma redação no caminho.

Para descontrair, o tema sugerido pela UFRGS pedia uma dissertação sobre os limites do humor. O problema foi que eu não me ative aos limites das regras e como discorrê-la numa folha de papel. Lasquei um texto de cabo a rabo sem deixar travessão nem linha de sobra. Ficou um misto psicografado com a presença de garranchos, letras maiúsculas, minúsculas e emendadas. Tentei apagar uma palavra errada e só parei de esfregar a borracha quando avistei a tábua da mesa no buraco da folha. Senti uma enorme falta da máquina de escrever.

Por certo quem pegar a redação terá uma enorme dificuldade de saber se aquilo é um texto ou um caderno de caligrafia do jardim da infância.

Publico aqui o texto na integra e legível, pode ser que o professor ainda não tenha zerado a minha a redação e resolva me dar uma chance… nunca se sabe. Vai que ele esteja de bom humor neste dia.

HUMOR SEM GRAÇA

A banalização do humor é triste. Cada vez mais se ri menos de piadas prontas, enlatadas e sem o mínimo de criatividade ou respeito com o semelhante, sendo ele negro, pobre, gay ou prostituta. A piada de hoje é preconceituosa, racista. No país da piada pronta o humor perdeu a graça, está em crise. Nos programas do riso, ri-se do esforço de atores sem identificação com a causa tentando tirar o máximo de si para arrancar uma gargalhada cada vez mais distante. Verdadeiras marionetes do desaforo e da agressão gratuita em nome da alegria.

O timing não é dominado por todos, tem que ter classe. Nem mesmo as piadas do cotidiano político, prato cheio para os humoristas de outrora, despertam a atenção do público. Nem a facilidade de se criar, produzir e exibir por meio de avançados equipamentos eletrônicos consegue animar a piada que ganha em tecnologia e perde em picardia. As mentes dos criadores não estão mais articuladas para o verdadeiro sentido do humor que mistura sacada e inteligência. A produção em massa perde qualidade. Os grandes mestres do humor deram adeus e levaram consigo suas formulas, e os que ainda resistem não tem com quem deixar o legado. Enquanto isso a comédia, para o bem do povo não saiu do teatro.

É preciso recriar o humor para que volte às ruas, aos bares, ao convívio social. De cima para baixo não está dando certo. A favela ri e chora, mas a multidão no piscinão, na beira do rio ou da praia, ou no fundo do quintal num fim de semana se diverte muito mais.  É preciso ter habilidade para produzir o riso e muito desta destreza vem de berço. É o braço da comédia que balança a alma do povo.

 

Comédias Fúnebres – O Terceiro Chamado

– Zulmira!

Chama uma voz suave…. era o Haroldo que descansava no sofá da sala logo depois do almoço, zarpeando canais esportivos.

Zulmira, no entanto, estava ocupada limpando o forno – autolimpante – com detergente e uma escova de dentes para remover a gordura impregnada nos frisos da porta do fogão a gás, deixada pelo assado de um pernil de porco com uma respeitável manta de toicinho.

Ela não entendia porque o forno era autolimpante se depois de qualquer assado precisava se debruçar de quatro para deixar o fogão à altura da propaganda.

O assado por sua vez ficou uma delícia. Marinado de véspera com alecrim, raspas de gengibre, cheiro verde e vinho tinto de colônia virou o banquete dos Deuses do dia seguinte.

Haroldo lambeu os lábios, bebeu um gole de vinho, e por ganância, recolheu com um naco de pão a última camada de molho do fundo do prato e devorou lentamente para saborear aquele banquete até a última gota.

A graxa tinha a espessura de um dedo indicador, deitado, e se transformara em banha no fundo da forma.

Zulmira queria aproveitar enquanto o forno estava morno para remover a gordura, ouvindo, no rádio, os últimos babados dos famosos – produtos da decadência cultural de uma sociedade hipócrita – pensava ela, mas da qual fazia parte, admitia.

– Zulmira!

Era o Haroldo chamando outra vez com voz alterada e visivelmente afoito, e ela continuava ocupada com o barraco que a mulher fruta provocou na feira. Além do mais, o ruído da escova impossibilitava a invasão de qualquer outro tipo de som.

– É a última vez que asso carne de qualquer tipo neste forno, protestava Zulmira tentando acabar logo com a limpeza, pois além do Haroldo tinha a louça da pia, o chão da cozinha e um tanque de roupas para enfrentar a tarde.

– Zul… mira, agrhftgtq!!!

Com voz trêmula, balbuciou Haroldo sem que Zulmira notasse.

Terminado o trabalho, levantou-se, lavou as mãos na torneira, secou-as no avental para finalmente atender o patrão.

         O primeiro chamado foi para pedir um chá de boldo.

        O segundo para chamar o SAMU

       No terceiro chamado, Haroldo já era.   

 

O cartão de visita dos maus serviços

 

Está escrito na plaquinha que dirigir ofensas ou desacatar um servidor público dá cadeia, mas em nenhum lugar da mesma plaquinha fala dos direitos do cidadão.

Dona Maroca estava na fila com a ficha na mão e pronta para ser chamada. Seria a próxima, e viu com espanto que dos cinco atendentes três fecharam suas gavetas, recolheram suas tralhas e tomaram o caminho da porta de saída. Dos dois que sobraram um levantou-se, foi buscar um cafezinho, ficou de papo com um colega num canto da sala e quando retornou pegou o telefone e ligou para cumprimentar o amigo pela vitória do Corinthians.

Só restava um, e foi nele que Maroquinha afinou o olho e concentrou toda a atenção. Afinal, a repartição tinha 20 guichês de atendimento e só sobrara uma única alma para liquidar a demanda. Ele atendia pacientemente uma pessoa, ria e parecia que trocava uma receita de bolo.

Maroca finalmente foi chamada.

Sentou-se com dificuldade por conta de um problema na coluna, abriu a pasta com toda a documentação exigida na visita anterior.

– A certidão de nascimento só tem validade por 90 dias e ela está vencida, a senhora vai ao cartório, retira um novo e traz aqui, sentenciou o atendente com ar de soberba.

Como se fosse fácil para aquela pobre velhinha que nascera em mil novecentos e Niemayer, bem longe dali pros lados do Itaqui, uns 700 quilômetros da capital… e os cartórios não são on line.

– Mas da outra vez a outra pessoa que me atendeu não falou que a certidão precisava de validade, mesmo porque eu nunca nasci de novo, argumentou a senhora.

– Eu não tenho culpa se não lhe deram a informação correta e regras são regras.

– Soberbas são soberbas e a falta de consideração mora no teu coração, emendou Maroquinha evitando adjetivar com alguns provérbios a atitude sob a ameaça da plaquinha.

A falta de sensibilidade do mau servidor está no sangue que se revela um excelente tranca rua, se debruça sobre a bíblia da burocracia para complicar a vida do contribuinte.

Outra característica é o olhar de desprezo como se fosse o dono do pedaço e chega ao orgasmo quando viu que prestou um mau serviço. Um cão raivoso a procura de uma vítima geralmente indefesa como no caso da velhinha.

A falta de gestão deveria ser caso de policia onde comandantes e comandados deveriam escrever dez mil vezes em folhas de papel: O contribuinte é um ser humano e a ele devo o meu emprego. Passar depois por uma reciclagem e finalmente por uma triagem. Aí pode ser que não sobre nenhum.

O cartão de visita do mau servidor e do serviço público é a plaquinha:

Ao primeiro sinal – Já pro xecape

 

A Marilda é uma amiga esotérica e espiritualista da ilha da magia, não poderia existir melhor lugar para ela. Fã da Doutrina, é incansável na ajuda ao próximo. Um dia tentei acompanhá-la, mas desisti antes do anoitecer porque tinha um compromisso dos diabos, bater uma carpeta no bar do Guedes que fica ao lado da Delegacia de Defraudações, e como jogo é jogo, não se pode ajudar o próximo, o adversário no caso, sob pena de entregar a “mesa”.

Outro dia me enviou uma mensagem transcedental, embora tenha vindo por e-mail, alertando para a chegada da “Era da Regeneração do Seres Humanos”, algo assim como separação do joio do trigo. “Os corpos que não refinarem suas energias não conseguirão ficar encarnados dentro desta dimensão, pois a outra imediatamente será instalada”.

O que me abalou é que ela me avisou muito em cima da hora, e tudo já era para o próximo ano.

Veio com uma história de que o sistema solar gira em torno de Alcione. Sou fã da Marrom, mas ao ponto da Via Lactea rodar abóboda e se render ao samba me pareceu um exagero.

Claro que Alcione é a estrela central da constelação de Plêiades e que o sol leva 26 mil anos para completar sua órbita ao seu redor. Seria bullyng pensar na tese de que se tratava mesmo da marrom e sua robustez.

O que mais me preocupou nisso tudo foi o tom de ameaça da mensagem, de que o tal Cinturão de Fóton que decompôs e dividiu o elétron, também anda pelas cercanias. Deduzi que esta criatura nenhum pouco sociável deve ser fotografo de jaqueta e cinturão carregados de filmes, baterias e outros trecos de apetrecho, que numa saraivada de flashes fez do elétron um picadinho.

O desespero bateu quando constatei que o brutamonte é o responsável pelos miasmas, não sei bem o que é, mas imagino que sejam doenças alérgicas que afetam os castelhanos, “Mi Asmas”

Não me considero supersticioso, mas bateu o pavor, e o primeiro sinal:

– Já pro Xecape!

Não é por nada, mas queria entrar o ano novo em folha, afastando logo esse mal da sambista e dos fotógrafos.

No dia seguinte, bem cedo, lá estava eu no Hospital Nossa Senhora da Divina Providência com um punhado de solicitações de exames, raio-x e ultra-sons.

Antes que os “Mensageiros do Amanhecer” se aproximassem com suas trombetas arrebanhando almas, madruguei em jejum num banco de sangue.

Cheguei a levar um livro de bolso do Galeano, pois em caso de uma demora ou desconforto, poderia ser ríspido com os enfermeiros, abrir o livro, recitar uma frase e por a culpa no autor.

A primeira ameaça de declaração de guerra ocorreu quando a atendente mandou entrar num armário, tirar a roupa e colocar um avental. O projetista deve ter sido um duende indignado com a raça humana. Custava aumentar mais 1 centímetro para cada lado e deixar o recinto mais folgado? Prá quê um cabide num armário de 30 centímetros quadrados?

O avental era tamanho P, ou encolheu na última lavagem. Desisti de pedir um numero maior quando ouvi a atendente reclamar prá outra no corredor relatando que um senhor do compartimento ao lado, protestou aos berros dizendo que não cabia naquele guardanapo e queria um numero maior. E em tom de ironia e sarcasmo uma disse prá outra:

– Diz prá ele que não temos lona de circo disponível… risos, muitos risos, gargalhadas.

Na situação de desvantagem em que me encontrava, comecei a perder a batalha. Encarei os inimigos mesmo assim abrindo a porta e aparecendo no corredor apresentando as armas de defesa, um tênis com meia, cueca samba-canção e aquele paninho imoral, mal cobrindo o umbigo. E seja lá o que a sorte me reservar.

A mesa de raio-x, bem que poderia ter um colchonete, e o minúsculo travesseiro mais parecia uma almofadinha de agulheiro.

– Não respira, não mexe…fruuu-friiii… respira!!!

Protestei quando senti um desconforto lateral no osso da coxa ao ficar de lado.

– Pernas encolhidas e com os braços para cima em forma de reza, ordenou a operadora da máquina de raio-x.

Fiquei ridículo parecendo um louva-a-deus prestes a ser triturado pelo terrível Cinturão de Fóton, que passeava de um lado para o outro no alto da mesa, dirigindo um raio de luz na minha direção, procurando o melhor ângulo para esmigalhar minha coluna. Já não me restava mais nenhuma dúvida de que teria o mesmo fim do elétron.

– Não respira, não mexe…. fruuuu-friiii…. respira!!!

“As conexões interdimensionais são feitas através de ressonância para sobrevivermos na radiação fotônica, temos que nos afinar a um novo campo vibratório” dizia o e-mail transcendental da Mirilda.

O meu próximo destino foi a sala de ultra-sonografia, onde meu par de rins seria pela primeira vez detalhadamente analisado.

Para descontrair, a auxiliar elogiou minha sábia providência:

– Veio prevenido com uma bermudinha por baixo heim!

Acho que foi mais um sinal, um aviso prá da próxima vez comprar um numero menor da samba-canção.

– Vai fazer exame de quê?

– Será que já vai dar prá ver o sexo da criança? …risos, muitos risos, gargalhadas… mas, só da minha parte, pois quando olhei pro lado ela havia sumido. Pergunta ridícula, ela não leu na ficha? Foi uma especie de vingança a provocação anterior quando chamou a samba-canção de bermuda.

O médico entrou na sala, e o gel que expirou da anca até a costela me fez voltar à infância quando o sorvete descongelava e escorria perna abaixo.

Saí praticamente do avesso, nem esperei a atendente retornar conforme orientação do doutor. Nunca pensei que voltar pro armário seria meu principal desejo.

Quando me dispensaram saí arrancando em terceira…

Na hora de pagar o estacionamento senti que andei me preocupando e ficando impressionado sem motivo, pois o peço cobrado, foi um teste cardíaco, ao qual sobrevivi desta vez, não sei na próxima.

Indignado, vi a capela do hospital aberta, entrei, encarei a santa, e pedi à Divina, providência.

 

O indignado doutor das ruas

A meteórica trajetória do vereador Thiago Duarte (Dr. Thiago) na Câmara Municipal de Porto Alegre é mais um exemplo que une trabalho, confiança e dedicação às classes menos privilegiadas. Um médico de periferia de uma das regiões mais remotas (sul e extremo sul de Porto Alegre) sai da suplência para a presidência da – casa do povo – em apenas dois anos. Na eleição de 2008 fez pouco mais de seis mil votos e esperou dois anos por uma vaga de titular. Na última eleição dobrou a votação, foram quase doze mil votos de confiança para colocá-lo no topo da carreira política. Atender num pequeno posto de saúde no bairro Lami gastando sola nas ruas dando bom dia boa tarde e boa noite e interceder pelos que vivem em comunidades distantes do centro da capital, excluídas do processo de gestão politica, é exercer o verdadeiro sentido de um mandato. Tal qual o artista, o político tem que ir aonde o paciente está. Os dois não sobrevivem isolados. A idolatria vem ao natural no disco ou no voto. Acima do catecismo partidário do corporativismo político e dos interesses individuais está a pessoa que elege um representante e dele espera ações para o bem coletivo.

É preciso conviver com a tendência global pela indignação onde os movimentos partidários sindicais ou associativos que se denominam representantes das classes estão sob ameaça. Os Indignados já deram uma amostra, em 2012, resistindo a ação policial que tentou impedir a entrada de mais de mil simpatizantes do 15M nas Portas do Sol de Madri. Por aqui não tem sido diferente.