Pérolas no lotação

 

Mabel, uma loira de trinta e poucos anos, sentou-se ao lado do Eugênio no lotação. Os dois nunca se viram. Mas as coisas mudaram quando ela fez um movimento brusco e sacou o celular.

O pobre Geninho, como era chamado, levou um baita susto, e chegou a pensar que a mulher anunciaria um assalto e começando por ele que carregava uma sacola com café moído na hora na banca do Mercado Público e meia dúzia de cacetinhos recém saídos do forno da padaria Copacabana. – Vamos que ela não estivesse resistindo ao cheiro do café e do pão novo – imaginou.

Eugênio quase espichou o braço para entregar a sacola sem qualquer resistência, já que a pulsação ultrapassava todos os limites possíveis da normalidade. Só retomou os sentidos que já estavam quase adormecidos, para não dizer desmaiados, quando se convenceu de que não se tratava de nenhuma tentativa leviana de usurpação do seu pão de cada dia.

Respirou aliviado quando ouviu que a voz, da mulher ao lado, em tom alterado começou debulhar um rosário de lamentações.

– Jé! É Mabel, tudo bem guri?

Depois de um:

– Olha só!

…tranquilizador, os dois respiraram fundo.

– A Nanda me falou que viu o Derico passeando de cuia na mão com uma loira hoooorrorosa, no domingo em Ipanema.

O Jé deve ter feito um pedido de confirmação do outro lado.

– Claro, a Nanda não iria mentir prá mim, e tem mais, a mãe dele me ligou perguntando se o “riquinho” (alcunha), estava comigo pois não tinha dormido em casa.

Neste momento ela tentou cruzar as pernas, mas o espaço entre os bancos do lotação é tão apertado que desistiu.

– Liguei para ele que me atendeu com uma voz de sono e perguntei onde estava.

Jé deve ter dito do outro lado “mas você é uma atrevida, foi conferir de cima…”

– Claro, queria ter a confirmação ora, ainda mais que ele reclamou que tava com um febrão ao meu lado e eu nem tchuns pra ele, isso já faz um mês… ficou uma arara.

Jé deve ter perguntado o que ele respondeu para ela.

– Ele me disse que ligaria em seguida e não deu 20 minutos,  já estava na casa da mãe dele e me ligou pra dizer que recém tinha acordado sem saber que a véia tinha me ligado. Deve ter largado a baranga em alguma esquina e correu para baixo da asinha da mamis. Nem quis papo com ele.

Neste momento o Jé foi taxativo e perguntou como ela sabia que se tratava de uma baranga o suposto novo caso do Caco.

– Alguém de leg branco e bota preta??? Vem me dizer que não é baranga…  É o ó!!! ele assinou o atestado de bagaceira.

Jé concordou, pois o que veio a seguir, geninho quase não resistiu a tentação de se esborrachar na gargalhada, mas ficou só no ensaio.

– Quero mais que ele se dane, não vou ficar esperando por ele deitada na bandeja com uma maçã na boca feito porco de ano novo!

Essa foi demais, os passageiros que esperavam por um desfecho antes de saltarem no próximo ponto, quase explodiram em gargalhadas. Eugênio apertou o saco do pão e do café entre as pernas tentando se segurar.

– Ele ainda tinha me encomendado um sabonete da natura…

Jé desistiu da tentativa de reconciliação quando ela revelou suas intenções de substituir o sabonete.

– Vou mandar é um tijolo de seis furos no meio dos cornos dele!…. emendou indignada.

Em seguida ela pediu ao motorista parar o lotação saltou na primeira esquina.

Nos dias que se seguiram Geninho andou bisbilhotando as páginas policiais dos jornais da repartição e sites sensacionalistas para se certificar se o Derico recebera a encomenda.

Não parava de lembrar da “posição na bandeja”… não dá prá esquecer, repetia o geninho sacudindo a cabeça.

 

O Uísque dos Lordes

 

Depois de 13 anos fora, morando em Israel, agora na Inglaterra, o jornalista Marcos Losekann retorna ao Brasil para assumir a Globo de Brasília. Losekann é gaúcho da cidade de Independência e iniciou sua carreira de sucesso em Cruz Alta, na RBSTV.

Quem sai do Japão vai para Londres é Roberto Kovalick. Os dois foram repórteres da rádio Gaucha. A diferença é que Losekann não passou pela RBSTV Porto Alegre antes de ir para a Globo.

Da ultima vez em Londres, encontrei na adega do Marcos um trecho inédito de As Mil e Uma Noites, que por um motivo qualquer Xerazade deixou de compilar… segue a fábula, alertando que….

…O GÊNIO NÃO CUMPRIU O ACORDO

Recém havíamos libertado o gênio e tudo era motivo para comemorações. Afinal, na companhia da minha filha Victoria eu havia atravessado o atlântico para visitar amigos em Londres, o Marcos e a Ana Lélia, que com a Heleninha e a Mariana formam o mundo da Losekania na Inglaterra.

A garrafa sobre a mesa fora manuseada a quatro mãos verificando a procedência. De repente a tampa se abre e a genialidade escocesa sai em forma de malte para o delírio geral, de dois, mas foi geral, porque a casa comemorou.

Combinamos previamente que naquela noite o gênio não seria totalmente libertado, afinal de contas se ele tem mais de 500 anos de histórias, perambulando desde os monastérios, frequentando pubs e castelos, com destaque para a mesa dos lordes, de nada alteraria sua rotina se ficasse mais uns dias na companhia da gente.

Para completar a felicidade, Ana Lélia e Victoria providenciaram um espaguete que veio à mesa em pratos separados, um ao fungue e molho de queijo de ovelha das montanhas portuguesas da serra da estrela. Outro de ervas finas com lombo de cerdos do norte da Espanha, jantar dos deuses, agora com vinho Frances. De guarnição, um ratatouille com óleo de oliva levemente apurado ao forno.

Passava da meia noite quando o Jornal Nacional, por conta do fuso horário, entrou no ar. Marcos, o gênio e eu eram os únicos habitantes da cozinha vendo o Willian a Patrícia e as notícias de ontem. A conversa se estendeu entre copos e garrafas. Não Lembro de ter visto o Jornal da Globo as cinco da manhã muito menos o Jô no dia seguinte nem mesmo de ter subido quatro lances de escadas até os meus aposentos no sõtão da casa inglêsa com janelas que abrem para o telhado.

Quando levantei vi num canto da cozinha, em cima do balcão, junto ao lixo reciclável, a garrafa do uísque dos lordes. Vi que na madrugada, se aproveitando de algum descuido da nossa parte o gênio fora totalmente libertado, mergulhando em cristais de gelo antes de tomar seu rumo…. no carro a caminho de Camden Town, comentamos a respeito da fuga involuntária, concluindo que não haviamos cumprido com o combinado. Mais tarde num pub do bairro boêmio reencontramos o gênio, dentro de um copo e na dose certa.

 

O Pastel da Rodoviária

 

Ninguém pode negar que Passo Fundo é uma cidade progressista e hospitaleira como afirmava Teixeirinha que se apresentava como “filho desta terra”.

Nela vivi minha adolescência conturbada pelo regime, longas noites de caserna e renegado pelas moçoilas a procura de partidos com destacada posição social. A falta de dinheiro nunca me abalou, o que me deixava triste era a falta de ambição das meninas da época, limitadas a leitura de receitas de bolo, fotonovelas e cadernos de orações.

Recentemente estacionei meu carro numa rua do centro e fui jantar na casa de parentes. Quando retornei havia uma multa colada no vidro, e o guardador de carros me alertava que só podia deixar até às dez horas da noite, por conta de uma lei municipal que proibia algazarra nas ruas centrais depois deste horário. Já passava das onze. Só havia uma pequena placa, no meio da quadra, entre tantas outras alertando sobre a proibição.

Voltei para Passo Fundo duas semanas depois, e para mostrar a minha indignação, resolvi fazer um protesto silencioso: Fui de ônibus.

Para comprar uma passagem de volta tomei um coletivo urbano até a rodoviária e entrei pela porta da frente como é na capital. A última parada fica umas duas ou três quadras da estação, nada confortável para quem desce com malas em dia de chuva.

Na volta, corri para pegar um ônibus e me grudei na porta da frente. Por pouco a cirurgia de desvio de septo que venho adiando faz anos não ocorreu aí mesmo. A porta não abriu e ouvi uma voz que vinha do alto dizer que a entrada era por trás.

– Mas na vinda entrei pela porta da frente, questionei o cobrador.

– Depende da empresa, respondeu me alcançando o troco.

Não entendi mais nada.

– Como é que os passageiros se acertam? pensei cá com meu zíper.

… na estação rodoviária nada mudou, parece que a única coisa que evoluiu por lá foi o preço das passagens. Em compensação, preservaram o pastel – uma delícia!