O feiticeiro de Londres escamoteava libras

 

Numa pequena rua de Londres, estreita e de pouco movimento, fica um dos tantos pubs da cidade Real. As poucas almas nas calçadas são de fumantes que apagam o cigarro na parede, em pequenas fendas de um aparelho esquisito que não passa de um cinzeiro.

A neblina, ainda tímida para um início de noite na porta do The Sheephaven Baynão te dá certeza se é o fog londrino que se aproxima, ou o excesso de fumaça do cigarro dos fregueses que só podem fumar do lado de fora.

O Pub é do Pat Logue, um irlandês que largou o trabalho de garçom e resolveu montar o seu próprio negócio no bairro de Camden onde ali, algumas quadras de distância, não faz muito, Amy Winehouse resolveu dar um basta nos seus breves 27 anos de uma vida conturbada, drogada e de sucesso.

Do outro lado da porta, atrás do balcão o Pat, se multiplica para encher tulipas e canecos com a mesma agilidade com que cobra a conta. Coincidência ou não, assina o mesmo nome do seu conterrâneo St Patrick, canonizado e santificado como o padroeiro da cerveja.

Cada copo empinado é possível identificar um time de futebol no teto, forrado com flamulas, bandeiras, mantas e camisetas de clubes de futebol pelo mundo. Embora eu estivesse corrido os olhos atentamente como se procura uma agulha no palheiro, não encontrei a do Internacional, menos ainda a do rival. Na próxima levo uma do inter na bagagem, e que o Pat reserve uma fresta de bom tamanho porque vai ser a número 1.

No teto, bandeiras, flamulas, mantas e camisetas

Logo é possível descobrir o porque da exposição sobre nossas cabeças. O seleto público nas mesas, estranhamente fica virado para as paredes. É que os telões em cada um dos quadrantes exibem os canais de esportes com transmissões ao vivo, de futebol, surfe ou turfe. Tive a impressão de ter visto uma partida de xadrez, mas o canal foi trocado antes que alguém comesse a rainha.

Os torcedores com olhos atentos às competições na parede, perdiam a oportunidade de assistir o que se passava no balcão do Pat/Pub. O nascimento de um ilusionista que pela primeira vez tentava cativar o público com três moedas, um copo e uma destreza de John Wayne em território Comanche.

As libras rodopiavam no copo de cabeça para baixo que girava de maneira sincronizada até sumirem duas, das três moedas. A que sobrava era exibida entre o polegar e o indicador ao público intrigado, mas ávido por novas atrações.

É claro que o truque sempre tem seus deslizes e eu precisei ao menos umas dez vezes juntar por entre as mesas e cadeiras as moedas que haviam sumido do balcão e devolvê-las ao mágico, pois os gritos e aplausos eram sinal de que “o show tem que continuar”.

Eu e o amigo cesinha, editor da Rede Globo em Londres, tínhamos a tarefa de fazer um ar de impressionados com aquele show de encanto, fascinação, escamoteio, para atrair a atenção do público, enquanto o Losekann, distraia a platéia, agora partindo ao meio uma moeda, com os dentes.

Um mambembe marroquino com cara de dromedário mal dormido, aproximou-se disposto a levar o numero prá Casablanca. Ele havia exagerado nas doses, tinha um bafo de camelo por conta de um aparelho ortodôntico anti-higiênico, Estava prá lá de Marraqueche.

O jeito foi suspender o show com apenas dois números, mesmo porque não havia outro na cartola. A revistinha “The Magic” tinha ficado em casa, e sem ela não poderíamos avançar nos truques. Além disso, avizinhava-se a possibilidade de uma turnê e ficaria indelicado recusar o convite. Afinal, tínhamos saído naquela noite para invadir pubs e não para ganhar o mundo. O momento de fama foi abortado ali mesmo no bacão daquele pub da Baia dos Carneiros, para o bem dos feiticeiros. 

 

O galinheiro acomoda as raposas

 

Maggi, Renan, Feliciano… a tríplice aliança de quem não tem nada a ver de positivo, é claro, na defesa das causas em que se meteram.

Renan Calheiros dispensa comentários e apresentações, um seguidor do poder, um santo sem canonização, andou envolvido nuns casos de peculato, falsidade ideológica, uso de notas fiscais frias para justificar seu patrimônio, enfim, crimes sem grande importância na “câmara alta”, formada pelos nobres políticos que criam e desrespeitam suas próprias leis. Embora denunciado pela Procuradoria-Geral da República por suas falcatruas, assumiu o Senado Federal aplicando, de cara, um golpe moralizador, partindo em pedaços os gastos com cargos dos servidores da casa. Afinal, tal atitude vai economizar R$ 262 milhões por ano que certamente serão depositados num caixa exclusivo, com outro nome, sim, porque caixa dois já tá prá lá de manjado.

Marco Feliciano é o legitimo deputado dos deuses, pastor, eleva graças ao senhor dos céus, em troca de um certo percentual do salário dos fiéis depositantes. Dizem por aí que ele andou fazendo caixinha com dinheiro do lanche das crianças, da aposentadoria dos bons velhinhos que buscam salvação no templo dos milagres e dos ocupados trabalhadores que compram o perdão dos seus pecados fornecendo as senhas dos seus cartões de crédito. Ah, também andou fazendo umas gracinhas com negros, gays, gente de vida fácil e de comportamento mundano. Tais atitudes lhe renderam a eleição na Câmara dos Deputados, à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na defesa dos fracos e oprimidos.

Blairo Maggi, rei da soja com nome de caldo de galinha, vai cuidar das árvores, dos rios e dos animais silvestres. Assume a Comissão do Meio Ambiente da Câmara em forma de arrependimento dos seus pecados e da família toda, pela derrubada de algumas espécies nativas que viraram cinzas, para cobrir de soja enormes searas em terras distantes pras bandas do Mato Grosso.

Este é o perigo na divisão de cagos entre os partidos para formar a base de sustentação da presidencia na Câmara ou no Senado. No leilão, as maiores bancadas abocanham as grandes fatias, geralmente cobiçadas por quem tem um apetite voraz para engolir leis e devorar iniciativas que dão certo, mas que atrapalham a ceia.

A pergunta que fica: Não teríamos nenhum ativista, defensor dos direitos humanos ou ficha limpa para assumir tais funções no Congresso Nacional? Conclui-se que está faltando mão de obra especializada na politica.

Desculpem, mas o melhor remédio para combater o sincretismo do poder na busca da conciliação perfeita, é o deboche.

De nada adianta protestar nas redes sociais e votar nas raposas, elegendo cada vez mais graxains..

 

Com sobra é mais caro

Para evitar o desperdício tem restaurante que, digamos, sobretaxa o refugo do esganadinho que se serviu demais e não conseguiu esvaziar o prato. Assim como este de Vacaria, nos campos de cima da serra ao norte gaúcho. O relato é verídico, a dona  personagem é que é maquiada.

Tínhamos pressa em almoçar e terminar o trabalho da manhã, disponibilizando textos e fotos na Agência de Notícias.

Fomos informados de que os restaurantes funcionavam só até ás duas horas da tarde, e, que o melhor lugar para se comer era no shopping. Lá nos deparamos com uma fila de uns trinta esfomeados aguardando a vez de atacar o buffet.

Impaciente, vi através da janela que do outro lado da rua tinha um restaurante quase vazio, com suas mesas cobertas de toalhas salmon e cortinas bege, bem, arrumadinho.

Não pensei duas vezes.

– Vamos dar uma de esperto, enquanto eles se acotovelam aqui almoçaremos lá, na santa paz.

Em menos de cinco minutos estávamos sentados à mesa com pratos fatos de comida, tipo caseira.

Chamou atenção um aviso embaixo do plástico que cobria a toalha com estranhos dizeres:

“Almoço R$ 6, com sobra no prato R$ 8”.

Quando uma senhora gordinha de camiseta regata apesar do frio sob um avental onde estava escrito: “Porteira do Rio Grande”, chegou para saber o que iríamos beber.

Quis saber o que significava o recado e ela,encurvada, bateu com a mão espalmada em cima da mesa e respondeu:

– Aqui funciona assim, se esvaziar o prato paga seis, se sobrar comida paga oito.

– Duas águas com gás!

Iniciei a refeição por uma mandioquinha frita dura e fria, que me provocou um pequeno deslocamento da mandíbula.

Parti para a carne de panela, que não consegui identificar direito se era pescoço, nervo ou músculo. Só fui entender porque as pessoas deixavam sobras quando parti para o feijão com arroz. O azedume me fez derramar uma pequena lágrima no canto do olho.

O meu amigo comentou:

– Vamos marchar com oito, ela aceita cartão?

– Tenho cinco no bolso e tu?

– Dez.

Quando ela trouxe as duas águas perguntei sobre o cartão.

– Nem cheque.

– Quanto é a água?

– Um e cinquenta, cada.

Ela se afastou olhando para trás com o rabo do olho. Foi aí que notei que ela tinha um bigodinho, ralo, mas tinha.

Fizemos as contas: Seis cada refeição dá doze mais três das águas dá quinze. É o que temos. Se não comermos tudo, vai faltar um real, sem água.

Pensei rápido e tive uma brilhante ideia:

– Você fica aqui que eu dou um pulo no banco pegar dinheiro.

– Tá louco, disse o amigo, do jeito que ela tá desconfiada se você sair sem pagar ela te acerta na curva, com uma espingarda de cano torto.

– E aí, vamos pedir um microprocessador?

… enquanto triturávamos aquela mistura de brita com basalto, notei que a vaca-ria.