A rixa e a cura gay

O Vasconcelos sai de um restaurante no Bom Fim, depois de um almoço num ponto tradicional de comidas naturais.

Logo se depara com um tremendo bate-boca na rua entre duas senhoras que se xingavam respeitosamente, antecedendo o palavrão com um pronome de tratamento e celular nas mãos para chamar seus maridos.

– Você não viu que esta vaga era minha para estacionar, sua loca.

– Estacionei porque você passou direto por ela, sua babaca.

– Fui fazer a volta na esquina, não viu sua cega?

– Problema é teu sua anta

– Na próxima vou te quebrar a cara sua vadia

– Pois venha e quebra agora sua valentona, e chama o teu macho que eu quebro os dois sua quenga.

– Quenga se eu fosse você com essa roupinha de roubar marido, sua vagabunda.

Ela vestia uma saia justa, muito justa, com meias finas pretas enfiadas num par de botas até os joelhos. Uma jaquetinha de couro verde limão com um lenço multicolorido ao redor do pescoço e um óculo a lá Martinha.

– Você tá com inveja, vai fazer uma lipo sua baleia.

– Pois venha pro meio da rua pra sentir o peso desta baleia quebrando teus ossos, puta sem vergonha.

Foi aí que Vasconcelos tentou colocar ordem na discussão para manter o nível do desaforo, com a devida utilização dos pronomes de tratamento.

– Epa, epa!!!

Disse ele levantando os braços, tentando acalmar as duas.

– Vamos manter o nível da discussão: Você disse que ela é uma puta sem vergonha quando o certo seria – Sua puta sem vergonha.

A mais atiçada avançou contra ele e aos berros foi dizendo:

– Cai fora veado e não te mete aonde não é chamado. Vai te tratar com o Feliciano.

Por essa ele não esperava, ressentido com a inesperada reação, retirou-se envergonhado, ouvindo muitos risos e sussurros de cura gay do povo que já se acumulava na calçada e formava uma torcida masculina para apoiar a vadia, é claro. Até a lotérica da esquina ameaçou iniciar uma banca de apostas, mas desistiu quando os maridos das duas chegaram se cumprimentaram e lamentaram que elas estavam de novo em pé de guerra, só que desta vez em público.

Recolheram as esposas e se despediram, marcando um chopp para o final da tarde em Ipanema.

– Até mais seu culhão.

– Valeu pau no cu.

O dono da Bienal

 

Depois de andar pelos pavilhões do Cais do Porto e vendo as instalações da Bienal do Mercosul, Ferreirinha, um estivador de meia idade acostumado às grandes embarcações que chegam em Porto Alegre por meio da Lagoa dos Patos, não teve mais dúvida de que a casa dele, á venda na periferia de Porto Alegre, é uma instalação permanente, por conta das coincidências.

Na Bienal viu uma Kombi cujo coqueiro rompia o teto recortado.

Lembrou que em casa tem um carrinho de mão, sem roda, com uma enorme folhagem dentro.

Na Bienal ele viu um galho seco de árvore e não entendeu por que estava amarrada na viga do teto, com fones de ouvido dependurados nos galhos tocando músicas estranhas.

Em casa tem um abacateiro cheio de ninhos de sabiás fazendo festa ao alvorecer.

Na Bienal tem um muro branco pronto pra ser pichado.

Em casa o quarto da filha adolescente já é grafitado.

Na Bienal viu uma bola furada, esfolada no meio do nada com um facho de luz só para ela.

Em casa a bola do cachorro, toda mordiscada rola pelo pátio.

Viu um palco com instrumentos  musicais de madeira, feitos a facão e aplainados a canivete.

Em casa tem um violão, um pandeiro e um cavaco de cavilhas.

Na Bienal os caramujos estavam esparramados sobre a serragem.

Em casa as lesmas invadem os canteiros.

Viu mulheres peneirando farinha ao vento, cobrindo de branco as calçadas do cais, chamam de performance, mas ele achou aquilo um desperdício e uma afronta ao Fome Zero.

Em casa basta olhar para o teto e observar a verdadeira peneira que é o telhado em goteiras nos dias de chuva.

Uma coisa diferente que viu na Bienal e que não conseguiu associar a sua casa foi quando deu um encontrão na Esther Grossi*. Ficou a dúvida se aquele vulto que esbarrou nele ao cair da tarde se tratava de uma instalação ou de uma peça pregada por um desses artistas malucos, enfeitados de estátua..

A Bienal, no entanto, cumpriu o seu propósito e abriu as idéias do Ferreirinha..

Ao chegar em casa trocou a placa de: Vendo uma Casa por, Vendo uma Bienal.

*Ex-deputada Federal/RS

 

O pessimismo de Eleonora

 

O Linhares chega em casa do trabalho que acabou de arrumar numa construtora, depois de oito meses desempregado.

Voltara a um canteiro de obras para construção de viadutos, pontes e estradas que dariam uma nova cara à cidade e facilitaria a mobilidade urbana.

– É serviço prá um ano e meio, dois no máximo, comentou o Linhares que, finalmente, voltou a ser mestre de obras. Disse estufando o peito na presença da mulher e as crianças.

Eleonora começou a fazer planos de colocar um filho no inglês e o outro no reforço de matemática com uma professora particular. Também tinha os eletros da casa, tv tela plana e um beliche pras crianças que ocupavam uma bicama sem rodinhas. Chegou a ensaiar uma viagem à casa dos parentes na velha Caravan da família. Mas antes de qualquer coisa, os estudos.

– Meu sonho é que o Luiz André vá morar um dia no exterior, mas precisa frequentar um cursinho de inglês, comentava com o Luiz Otávio (o Linhares), que chegou cansado e mal conseguia esvaziar o prato de comida antes de se jogar na cama.

– O Júnior é que é o problema, ele não se dá bem nos estudos, sempre fica na matemática em dezembro e leva pau em todas as matérias durante o ano, desse jeito vai virar jogador de futebol. O bom é que ele pode morar no exterior sem falar bulhufas em inglês, também nem precisaria do português, já que jogador de futebol chuta o vocabulário, matraqueava Eleonora quando o Linhares já se recolhia.

Naquela noite ela entrou no quarto dos meninos e ficou olhando para os dois que dormiam como anjos recém caídos das nuvens, esparramados na bicama num sono profundo, desses de babar na fronha. Estava feliz e otimista, logo ela que desconfiava da própria sombra e de alguém tramando contra ela. Planejou ainda aposentar a velha lingerie de rendinhas carcumidas, comprar um modelito recente no Empório das Calcinhas e inaugurá-lo durante um jantar especial com o marido num fim de semana quando as crianças visitariam os avós. …

Um dia Linhares chegou calado, nem entrou em casa, sentou-se na varanda. Eleonora se aproxima para fazer-lhe um carinho, mas, cabisbaixo, os olhos mirando a ponta dos pés e as mãos cruzadas na entre os joelhos, eram sinais de mau pressentimento para ela. Naquele dia a construtora parou, suspenderam as obras do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento do Governo Federal – por falta de material de construção como cal, areia, cimento, ferro, enfim, tudo o que é básico. O excesso de obras provocou a escassez. – Mas deve ser por pouco tempo, ponderou o Linhares.

No mesmo instante, Eleonora retomou o pessimismo que sempre lhe era peculiar. Com as mãos segurando os cabelos, atônita, ela esbravejava repetia… – Meu Deus, que país de insegurança, até quando vai esta situação?

Com um maço de cigarros numa mão e um isqueiro na outra, voltou-se pro Linhares, que de olhos tristes só ouvia os lamentos da mulher como se fosse acabar o mundo. Ela sem dó nem piedade do pobre marido, arrematou:

– Levanta daí homem, faz alguma coisa,  aonde é que vamos parar?

Linhares parecia desanimado, levantou a cabeça, olhou firme para a mulher e num tom suave de voz respondeu calmamente:

– Que culpa eu tenho se a areia acabou? …e mandou Eleonora cachimbar formigas.

 

A vingança de Maria Joana

 

Os gritos de marijuana ecoavam pelos corredores na hora do recreio. Os colegas do segundo grau simplificavam o nome de Maria Joana. O final da galeria na direção dos banheiros era frequentada pelos marmanjos que exibiam as carteiras de hollyhood. As mulheres fumavam chanceler, nem tanto pela marca, mas talvez por seu apelo comercial, “o fino que satisfaz”. A fumaceira impregnava a cabeleira de marijuana, ou melhor, Maria Juana, que odiava cigarros de papel.

Ela era chegada no estilo do Bituca, um capeta magrela e franzino que também sofria bullyng, ao herdar a alcunha de “baseado” pela turma do corredor.

Metade dos anos setenta quando já se falava em abertura política no Brasil e o governo Geisel ainda mantinha uma política austera sem deixar margem a especulações sobre o destino de quem sumiu na obscuridade de uma ditadura que só deixou saudade aos que perderam pais, mães, filhos, filhas, irmãos, em operações de calar qualquer tipo de manifestação contra os atos de exceção. No fundo, matavam e escondiam cadáveres em covas clandestinas por aí. Não havia piedade e os bancos escolares eram frequentados por alunos infiltrados a serviço dos senhores da ditadura, estudantes da filosofia do medo.

– Vão pro inferno! Disse Maria Joana já planejando a vingança.

Queria mandar todos para o mesmo lugar sem direito a fiança e uma tremenda repercussão na sociedade conservadora. Foi aí que baseada no Bituca, reuniu a turma num só lugar, colocando um cigarrinho do capeta em cada mochila sem que eles notassem. Depois, chamou a polícia.