A moralista pós ocupação

Carlinha mal chegou em casa de mochila trazendo um cobertor enrolado debaixo do braço e dona Cândida iniciou o interrogatório.

– Como foram as coisas lá pela Câmara?

– Desocupamos mãe, não viu na TV?

– A TV não mostra o essencial, vocês proibiram os jornalistas.

– Nós não mãe, o bloco.

Cândida era liberal e deixou a filha ocupar o parlamento junto com uma galera que ela nem conhecia. A mãe dela, dona Eva, vó de Carlinha, tinha a coleção completa de bolachões do Jimmy Hendrix e Janis Joplin, que rodava no três em um ou na vitrola do pai, além de um quadro no corredor de entrada da casa que mostrava os peladões em Woodstok no final dos anos sessenta. Era o símbolo de rebeldia para a vó Evinha, remetia ao seu tempo de moça quando conheceu Astrogildo com quem teve Cândida, mas se separou logo em seguida porque Astrogildo montou uma banda e pegou a estrada para se dedicar a música e cumprir uma missão divina, depois de ter uma visão num encontro com o senhor, na área dos fundos de casa, enquanto tragava um baseado daqueles.

Gildinho como era carinhosamente chamado pela esposa, usou Deus para se despistar da família e partir com Martinha, amiga de infância de Evinha e madrinha da Candinha (Cândida).

Candinha, também tinha um quadro nu na sala, só que do Lennon e Yoko, que ilustrou a capa do disco dos Beatles em 68.

A mãe quis saber mais da filha sobre os dias de ocupação e o que se passou por lá.

– Tivemos altos papos, eu e minhas amigas além do Fê que nos deu uma aula de como se comportar e curtir ao máximo estas ocasiões.

– Humm! Fê… algum gatinho que vc encontrou por lá?

– Não mãe, ele é bem mais velho e muito legal, fechei com ele, é muito cabeça.

Carlinha já se preparava para um banho quando a mãe deu um grito da sala:

– Que horror, que vergonha!!!

– Quê mãe?

– Você viu esta foto que postaram no face desse monte de gente pelada na Câmara?

– Não vi, mas me falaram…

– Você não tava lá?

– Não, na hora sai para fumar unzinho…

– Unzinho? Você fumou unzinho?

– Sim, mãe, qual é o problema?

– O problema é que você é de família, deixa o teu pai ficar sabendo.

– Mãe, foi só agora, nem curti muito… acabou.

Carlinha dá uma olhada na foto e de cara identifica o Fê.

– Este é o Fê, mãe.

– Como é que você sabe se ele tá de rosto tapado?

– O pinto dele mãe, é inconfundível.

Carlinha correu pegar um copo d’água enquanto ligava para o SAMU.

Cândida sobreviveu ao seu primeiro infarto.

Na maca saindo para a ambulância, com o dedo em riste a mãe ameaçava a filha…

– Fica aí, você-nem-pensa-em-sair-de-casa. 

O contador de causos de Passo Fundo

O amigo, Paulo Monteiro, foi presidente da Academia Passo-Fundense de Letras e incontestável contador de histórias. Outro dia comentava com ele na rede social, um fato ocorrido nos fundos de casa, envolvendo um primata que habita as matas ainda livres da ocupação urbana. E não é que o o caso se transformou em causo ipsis litteris?. /  vai aí a reprodução….

O Bugio, os Cachorros e o Jornalista

Paulo Monteiro*

Falham todos os sábios e todas sabedorias. Apenas os poetas são infalíveis. Prova a musa popular gaúcha em quadrinhas como esta:
Todo mundo se admira
do bugio andar de espora.
O bugio já foi tenente
da Brigada Provisora.
A musa popular produziu muitos versos sobre esse nosso parente distante e até um ritmo tipicamente nosso: o Bugio.
Meu amigo Flavio Damiani é viva prova de que o poeta popular está certo.

Velho chico no abacateiro

Velho chico no abacateiro

Aos fundos de sua aprazível casa, em Porto Alegre, às margens do arroio Passo Fundo, ainda vive o inspirador desses versos. Ali desfruta sua longevidade isolado dos demais de sua espécie, como um velho lobo solitário ou um quati-mundéu. Apossou-se de uma larga faixa de mata ciliar, apreciando, em particular, um frondoso abacateiro e os sons de uma pequena cascata.
Calmo, pacato, como rezam as biografias dos valentes heróis das nossas revoluções à gaúcha. Aprecia, sobre-modo, abacates. Colhe-os e, serenamente meditando sobre os símios e assemelhados, sentado nos galhos vai saboreando os frutos, espalhando caroços e contribuindo para a formação de uma pasta originada pelos que não consegue segurar.
Nosso “tenente”, com certeza, deve sentir saudades das peleias de antigamente. Os heroicos atos de incêndios, estupros, estaqueamentos e degolas, praticados pelos seus heroicos provisórios reviveram nas últimas semanas.
Espiando pelas janelas viu e ouviu os entreveros nas ruas de Porto Alegre. Acostumado aos constantes protestos do Bota e do Black Jack resolveu agir.

Conto

Bota é um guaipeca preto, barulhento como todo o viara-latas. Black Jack é um border acarijozado, cabeça e lombo retintos e pernas carijós. Embora nascido na maior e mais rica cidade do país, não perdeu seus instintos caninos. E dá cobertura as arruaças promovidas pelo Bota. Este odeia o Bugio.

Basta Flávio soltá-lo no patio e começa as arruaças. Profere os mais violentos impropérios em sua linguagem canina, sempre acompanhado pelo indefectível border.

Dia desses o Chico (nome plebeu conferido ao nosso parente) não aguentou. Mordia um abacate, como quem destrava uma granada e póim! bem no meio dos cachorros. Estes, ágeis baderneiros, desviavam-se do artefato e continuavam os protestos.
Flávio Damiani que, como bom jornalista, acompanhava a confusão resolveu seguir a normalidade da vida. Enrolou um tapete que por ali jazia e resolveu batê-lo. Desviando-se da encrenca aproximou-se do tronco do abacateiro e pom! fincou o tapete contra a árvore.
Santo Deus!
O bugio deu um pulo. E desceu com galho e tudo prá cima dos cães.
Foi o tendéu.
Espalharam-se caninos e símio. O Bota, todo lambuçado e fedendo abacate podre refugiou-se dentro de casa, seguido pelo ilustre Black Jack. Flávio mal teve tempo de olhar e ver o Chico disparando em sua direção. Protegeu os olhos contra a árvore e mal teve tempo de sentir uma pata que lhe comprimia o coccix e outra sobre os ombros, seguindo o bravo “povisoro” de volta aos galhos.
O Chico sumiu. Viram-no há pouco mais para as nascentes do arroio Passo Fundo. Na casa de Flávio as coisas voltaram ao normal. Ao normal, em termos, pois o “tenente” abandonou o posto.
Moral da história, pois de toda a história que se preze precisamos retirar um ensinamento: Como governante daquele pequeno reino verde-amarelo, Flávio Damiani aprendeu por que os governantes preferem varrer o lixo para de baixo dos tapetes.

* Escritor, poeta, historiador de Passo Fundo