Um “Arquiteto” que é a cara de São Paulo

Perguntei, na portaria do hotel o endereço de um barbeiro ou de um cabeleireiro próximo. Depois de alguns minutos a recepcionista me aparece com um mapa de São Paulo impresso dizendo que em quatro minutos de caminhada eu chegaria no salão indicado. Me perdi na primeira esquina, andei uns vinte minutos procurando um salão alternativo no caminho.

Ao atravessar a Ipiranga com a São Luiz completamente extraviado, perguntei ao porteiro do edifício Terraço Itália (Circolo Italiano), ponto turístico e de referência no centro da capital paulista.

– Tem barbeiro aí dentro ou perto daqui?

– O Zeca, mas acho que não chegou ainda.

Passava das nove e meia da manhã.

– Pega a esquerda no final do balcão e depois a direita, andar de cima.

Quem conhece o prédio sabe que ele é redondo e portanto não tem canto  ou final do corredor. Depois de ficar praticamente tonto rodando pelas galerias, a atendente da única loja aberta sentiu pena e perguntou o que eu procurava.

Ainda dando volta sobre meu próprio eixo, perguntei pelo Zeca, o barbeiro.

– Conheço não.

– Mas o guardinha falou que era a primeira a esquerda, depois a direita e sobe.

– Então tem que pegar o elevador.

– Se eu soubesse como encontrá-lo…

Apontando para uma entrada, indicou.

– O elevador fica atrás da porta.

O primeiro andar era um corredor escuro, sim, e redondo, parecia desabitado, mas com uma pequena escadaria que dava acesso a alguma coisa parecida com um museu. Um amplo e sinistro salão e suas antiguidades. Uma loba alimentando os gêmeos Remo e Rômulo, fotos e lascas do que sobrou do Fórum Romano, alguns gladiadores fantasmagóricos do Coliseu e não lembro direito por causa da baixa qualidade da luz, mas acho que vi alguma referência ao Vaticano. Tinha um barulho de água, o que me fez deduzir que se tratava de uma réplica da Fontana di Trevi. Fui ver o que imaginei ser a única obra de arte em movimento e me deparei com a faxineira de torneira torneira aberta enchendo um balde. Foi gentil como todo o operário de zeladoria, e me indicou o caminho do Zeca.

– Segue reto até o final do salão, pega uma das duas escadas e no final você vai encontrar o salão, mas não sei se o Zeca chegou.

Fiquei na duvida quanto pegar uma das escadas, brinquei de “minha mãe mandou e escolher esta daqui, mas como eu sou teimoso eu escolho esta daqui”. Pouco resolveu porque as duas se encontravam lá embaixo.

O salão é um cubículo e lá estava o José Carlos Beile, varrendo com o secador os cabelos do dia anterior.

– Tem horário livre?

– Quem mandou você aqui?

– Vim a rumo.

– Aqui só vem quem me conhece.

– Pois eu sou a exceção.

– Qual o teu nome?

– Interpol.

– Vou cortar o teu cabelo.

Vi as paredes forradas de fotos, recortes de jornais e revistas com reportagens do Zeca cortando cabelo de famosos, entre eles o Berlusconi, Jô Soares, o Zacharias dos Trapalhões, Carlos Alberto Nóbrega e uma série de jornalistas, músicos, escritores…

– Me chamam de Arquiteto Capilar, foi o Joelmir Beting quem me deu este nome. Apontando para uma foto em que os dois aparecem numa reportagem de jornal.

E continuou o questionário:

– O que você faz?

– Sou jornalista

– É a minha especialidade, fazer a cabeça de jornalistas.

– Nota-se, aqui as paredes falam…

– E com este sotaque não resta duvida que se trata de um gaúcho.

– Mas nem cheguei a pronunciar o “mas bah” ou “bem capaz”

– São raros os gaúchos aqui

– Te falei que sou a exceção?

Depois de muita conversa e a história do salão registrada, o cabelo estava aparado sem o uso da tesoura. O corte é feito com uma navalha. No final conferi se as orelhas estavam no lugar.

Aí o Zeca falou:

– Temos que registrar este momento.

– Teu celular bate foto?

– Ih!!! É pai de santo…

– O meu nem cartão de memória, mas a minha cabeça ainda funciona e devo lembrar como sair daqui. 

De volta fiz o caminho inverso pensando no trajeto complicado para encontrar um barbeiro. Aí no meio de uma quadra deparei com o salão que estava no mapa. Realmente era muito fácil de encontrar se tivesse dobrado à direita ao sair da porta do hotel e pego a esquerda na primeira esquina e não o contrário.

Entrei numa cafeteria, corri os olhos sobre a lista e lá estava um café que resumia aquela manhã.

– Me vê um Sem Rumo.

Para conhecer o Zeca Arquiteto: http://www.youtube.com/watch?v=f_L43e1nhu0

http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2013/07/1309450-ha-30-anos-no-edificio-italia-arquiteto-capilar-teve-como-clientes-zacarias-e-pedro-de-lara.shtml

 

 

A Coca está consumindo a nossa erva

 

Pedi ao bolicheiro que me desse um motivo para cobrar tão caro pela erva mate, explicando que no ano passado pagava R$ 3,50 o quilo e agora beira os R$ 15 reais.

– A culpa é da Coca-Cola!

– Que que a coca tem a ver com o mate?

– Inflacionou o preço da erva.

– Tão fazendo coca de mate?

– Quase isso, chá de mate da coca.

– Esta erva é de coca?

– Não, a coca faz chá de erva.

– Mas faz chá de erva para vender como de coca?

– Não, faz de erva prá vender pro Japão.

– Os japoneses tão tomando chá de erva da coca?

– Procure no Google… a coca vai falir a gauchada.

Sim, tá lá no Google, a Coca-Cola agora produz chá de erva mate, vende em garrafinhas na terra do sol nascente e são os mateadores brasileiros que sentem no bolso. Já estava se plantando menos, agora a peonada sofre uma forte concorrência internacional, porque a multinacional se abastece nos nossos ervais.

Lembro de um tio nos confins de Colorado que nunca se preocupou com o capitalismo:

– Desde que não mexa com meu mate!

O tio se sumiu e o mate subiu influenciado pelo tal do capitalismo. Lembrando que por muito menos o tomate quase quebrou o Brasil.

Não podemos deixar barato, temos que iniciar uma campanha convencendo que mate não combina com sushi. Se precisar vamos pegar nas armas. Assim como brigamos para defender o charque, agora vamos pelear pela erva mate. Caso contrário não restará o cheio, nem prá nós, nem pro bolicheiro.

 

No divã do Genuíno

 

O doutor Genuíno é um analista quase sem paciência, um abreviador capaz de dispensar o receituário.

Certo dia recebeu no consultório o Rebouças, relatando um problema que o atormentava desde o dia em que a tia Terezinha pediu para ele adotar um guaipéca malhado, preto e branco, uma espécie de paulistinha, cruza de salsicha com jaguarinha. Portanto, sem raça definida.

Impossível no trato, ele revirava lixeiras, fazia buracos no tapete, devorava calçados, mijava na quina dos móveis e nas pernas da mesa ou das visitas que frequentavam seu amplo apartamento num edifício antigo no centro da capital.

Rebouças se contorceu num longo gemido.

Dr. Genuíno quis saber o motivo.

– O divã doutor, dói do espinhaço até a nuca.

– Troca, senta numa cadeira.

– Não doutor, prefiro o divã, sempre sonhei em deitar num e passar a limpo a minha vida.

– E o cão, conta mais dele…

– Teimoso, só batendo com jornal pra ele se acalmar.

– Você bate nele, com jornal?

– Sim, mas tem que ser os de grande circulação, jornal de bairro, informativo, propaganda de pizzaria ou do BIG não resolvem.

– Porque será?

– Sei lá, até os cães tem suas preferências, desconfio que, por ser um diário de grande circulação, seja mais pesado e aí impõe respeito.

Dr. Genuíno respirou fundo e se revirou na cadeira com ar de quem diz: “Ai meu Deus”.

Rebouças também deu mais uma volta no divã, para melhorar a posição.

– Tem certeza que não quer uma cadeira?

– Já disse doutor, sonhei com este dia.

– Então prossiga.

– Sabe doutor, o peteleco…

– Peteleco?

– Sim, o cachorro.

– Ah!

– Ele avança no cara do gás, da água e complica com a vassoura da Eulália, a faxineira.

– Porque você não tranca na dispensa então?

– Ele devorou a soleira da porta da dispensa, ele é um monstro.

– Num dos quartos…

– Meu apartamento só tem a porta de entrada.

– E uma coleira?

– Bem capaz, não se deixa colocar, fica furioso, por isso não sai à rua para passear.

– E o encantador de cães da TV?

– Já liguei, é muito caro.

– Sei lá, um adestrador quem sabe…

– Ninguém quer pegar cachorro para adestrar no centro.

– Aconselho devolvê-lo à sua tia, com um pedido de desculpas.

– Nunca quis incomodá-la, nunca contei para ela pois não queria demonstrar a minha fraqueza.

– Fraqueza?

– Sim, ela vive dizendo que eu sou uma negação e me deu o cachorro na esperança que eu provasse que ela estava errada.

– Esperta ela, testando você com o Diabo-da-Tasmânia.

– Mas tentarei devolvê-lo, espero que a tia Terezinha me entenda.

– Deverá entender, o cachorro é dela, ou pelo menos partiu dela.

– Volto na semana que vem para te contar.

Dr. Genuíno para se livrar do caso e do paciente aconselhou:

– Não precisa, aproveita e já fuja dos problemas.

– Mas o meu problema é só o cachorro.

– E o divã?

– O divã?

– Passe bem!