Carteiradas & Carteiraços

Para quem acha que o carteiraço é coisa de militar, político ou policial (pedantes), é bom se acostumar com outros tipos que vingam por aí. O carteiraço de supostos paramédicos em acidentes de trânsito pode ser uma novidade.

Na tarde mormacenta de ar parado na rua principal que dá acesso a praia da Pinheira em Palhoça, Santa Catarina um carro e uma moto se envolveram num acidente. A caroneira caiu cerca de dois metros da calçada por onde eu passava. Ela gritava de dor, desespero ou susto. A alça do capacete apertava a sua garganta. Levei a mão para afrouxar o engate e dar passagem para o ar quando ouvi uma voz feminina com um tom superior ordenando para que não mexesse com a vítima.

– Eu fui enfermeira, e digo que não é pra mexer com ela.

Logo uma outra voz feminina retrucou:

– Eu sou estudante de medicina e ela tá sufocando.

Sem dar ouvido para as duas, continuei tentando livrá-la do sufoco.

Aí chega uma terceira e diz prá estudante de medicina com um tom de voz que mais parecia um deboche:

– Eu sou estudante de enfermagem querida, acho que entendo alguma coisa, ela não pode ser removida antes da chegada do SAMU.

A discussão se acirrava entre uma veterana técnica de enfermagem com um cigarro numa mão e uma latinha na outra e outras duas futuras profissionais, projetos de médica e enfermeira.

Consegui abrir a alça do capacete, ela respirou fundo e parecia ter se recuperado do susto. Perguntei se conseguia mexer com as pernas e os braços. Ela não só respondeu que sim como tentou se levantar, movimento que fui obrigado a reprimir para evitar o pior.

– Melhor você ficar quieta aí no chão, antes que esta rua se transforme em palco de guerra.

Ela concordou, voltou a posição horizontal e parecia se conformar com a cena das mulheres tentando provar quem era quem no pedaço.

Segui em direção à praia enquanto o motoqueiro que pouco ou nada sofreu e o motorista, anunciavam que o SAMU já estava a caminho.

 

O Grêmio e o Guri de Uruguaiana

Em dezembro de 83, faltava um mês para nascer o meu filho Francisco, me toquei rumo a Uruguaiana para transmitir ao vivo, pela TV Gaúcha, a final da 13ª Califórnia da Canção Nativa. Era o auge do festival e no auge também estava o Grêmio Futebol Portoalegrense disputando a copa Toyota em Tóquio no Japão contra o Hamburgo da Alemanha.

Saindo de Cruz Alta sem passar por Alegrete, mas cruzando por São Luiz Gonzaga, São Borja e Itaqui, senti que alguém me seguia ao cair da tarde. Para quem conheceu o caminho naquele tempo sabe que não havia uma única alma na estrada entre São Borja e Itaqui, a não ser bandos de garças nas lavouras de arroz e rebanhos de gado nas pastagens, desenhando uma paisagem que sumia no horizonte. O campo parecia cravado no céu.

Pois no lusco fusco entre o por do sol e a chegada da lua um carro com luz alta grudava na retaguarda. Entre uma cidade e a outra são quase cem quilômetros em linha reta, suando frio. Era acelerar que o carro de trás acompanhava, era reduzir que ele não ultrapassava, era quase parar que ele também parava. Sozinho e com equipamento de TV no porta malas achei que passaria pelo primeiro grande assalto da minha vida, um sequestro talvez com direito a resgate no outro lado do rio Uruguai em terras argentinas. Mas como em todo o filme de ação e aventura tem um final feliz, pro mocinho é claro, percebi lá adiante o cenário da minha salvação. Um posto de abastecimento de combustíveis apareceu na estrada, o que me fez lembrar Drummond. Havia um posto no meio do caminho.

Numa reduzida e tanto, invadi o pátio e quase entrei motorizado no restaurante. Com as calças numa situação duvidosa, uma mistura de suor com algum tipo de odor indesejado, mas já refeito do susto, abri a porta do Gol-1000 e qual é a minha surpresa ao ver que ao lado estava o carro dos suspeitos. Um casal de idosos com um sorriso sereno, quase cativantes, olhando para  mim. A senhora com ar de agradecida e já se desculpando falou:

– Perdão moço, mas não queríamos viajar sozinhos nesta estrada deserta.

– Mas voces me deram um baita de um cagaço!

– Se puder correr menos daqui pra frente a gente agradece.

A esta altura eu é que estava agradecendo a companhia.

– Tudo bem, mas luz baixa daqui pra frente, combinado?…

…. na cidade de lona montada no parque agropastoril de Uruguaiana começava a ser traduzida mais uma página da Califórnia. Nas noites do festival, uma em especial, tinha hora para terminar. De sábado para domingo as apresentações da fase eliminatória encerraram a meia noite porque o jogo do Grêmio no Japão seria transmitido pela televisão.

E foi nesta noite que Cesar Passarinho, cantor nativista acostumado a ganhar festivais, subiu ao palco para defender uma canção de poesia romântica, falando do amor de um guri pelo pai e da vergonha de dizer que gostava da filha do seu Bento.

E não foi só vitória do Grêmio que agitou o acampamento. Apostei algumas cervejas de que a musica “Guri” seria a vencedora na final de domingo a noite. Os jornalistas Giácomo Mancini, Marcos Martinelli e Valéria Del Cueto perderam a aposta e tiveram que correr até o bolicho da cidade de lona para abastecer a mesa do vencedor.

Enquanto se armava um temporal na noite de domingo, a música Guri nascia no palco da Califórnia, vencendo o festival para o meu delírio, da plateia e mais uma vez dos gremistas é claro.

Ao mesmo tempo um incidente provava que todo o bêbado é sortudo. Parte de uma arquibancada desabou, provocando um barulhão e por pouco não cai em cima de um gaudério de alpargatas e bombachas brancas que fazia xixi no tronco de uma árvore. O bêbado chegou a levar um tombo com o deslocamento do ar, mas logo se levantou. Alheio a tudo, saiu se equilibrando e foi procurar um abrigo antes que a chuva chegasse. Ele estava impressionado com a trovoada que ouviu.