Um país de revoltas e de reviravoltas

Certamente os pais dos pais dos nossos avós foram para as ruas em 1878 para protestar contra a cobrança de 20 réis, nas passagens dos bondes do Rio de janeiro. A revolta do vintém provocou conflitos entre a população e as forças armadas, mas a pressão popular venceu e as companhias de bonde anularam o reajuste.

Os pais dos nossos avós por certo ouviram falar nos primeiros anos do século passado das manifestações por melhores condições sanitárias que provocavam intensas epidemias, foi a chamada Revolta da Vacina.

Nossos avós devem ter levado nossos pais ainda pequenos para ouvir os discursos getulistas das reformas implantadas por Vargas nos anos 30 e 40.

No inicio dos anos de chumbo, foi a vez dos nossos pais se recolherem em suas casas ou se mandarem mundo a fora com a roupa do corpo para escapar da perseguição dos militares que haviam dado um golpe de estado em 1964. Quem não fugiu a tempo desapareceu para sempre. O presidente João Goulart, eleito pelo voto, morreu no exílio.

Em 1979, em plena ditadura, três aumentos nas passagens em apenas um ano, fez com que os estudantes do Maranhão fossem para as ruas pedir o meio passe estudantil e a lei da meia passagem foi sancionada.

Em 1984 foi a vez de nós irmos às ruas pedir eleições diretas, abolidas com o Golpe Militar de 64. Milhares de pessoas tomaram as ruas de todo o Brasil através de manifestações ordeiras e pacificas pedindo Diretas Já. O período da ditadura militar acabou, mas o voto direto só veio cinco anos depois com a eleição de um presidente que viria ser derrubado depois novamente pela força das ruas.

Em 1992, já levando nossos filhos no colo ou carregando pela mão pedindo o impeachment do presidente Fernando Collor de Melo. Com tinta amarela e verde no rosto, o movimento dos cara-pintadas derrubou Collor envolvido em denúncias de corrupção.

Em 2004 os nossos filhos já dominavam as ruas contra o aumento de 15,6% da tarifa do precário transporte público da cidade de Florianópolis. Por ordem do governo os manifestantes foram duramente repreendidos pela polícia.

No ano passado em Porto Alegre em várias capitais brasileiras, milhares de manifestantes saíram às ruas para protestar contra o aumento de R$ 20 centavos no preço das passagens dos ônibus.

Estamos vivendo um novo impasse e nos recolhendo cada vez, cativos de um modelo que priva a liberdade dos bons e protege grupos que patrocinam ações de violência, em alguns casos comandados de dentro das penitenciárias.

Você não tem mais certeza se acredita no que diz a mídia e já perdeu a esperança de crer no que recebe pelas redes sociais. A mídia por não virar a página, repetindo sempre as mesmas informações à exaustão, promovendo uma lixiviação mental. “A mídia deixou de ser didática para ser midiática”, dizia um maluquinho numa rua do centro da cidade numa destas tardes quentes de verão. O calor pode ter afetado seus miolos e ele começou a pensar.

No meio de tudo o consumidor não tem para quem apelar, exigindo um controle de qualidade. Só lhe resta desligar o controle, o botão do rádio ou ir à banca desaforar o jornaleiro. Os poderes estão na esteira, que leva ladeira abaixo e não sabem por onde começar. Mas ao povo ainda resta o poder do voto.

É preciso criar hoje os mecanismos de proteção dos nossos netos para que possam sair às ruas como cidadãos, donos de suas idéias e sem a tentação de vender a alma ao diabo. As ruas já oferecem a revolta e esperam pela reviravolta.