Discursos em Quatro Atos

Um estagiário de jornalismo me disse que o sonho dele era escrever discursos para políticos no Congresso Nacional.

Depois fiquei sabendo que os jornalistas que escrevem discursos para os deputados são os mais bem pagos entre os profissionais da área em Brasília.
É comum para os jornalistas que fazem assessoria política redigir textos que são lidos com toda a pompa em plenário como sendo palavras do parlamentar ditas na maior espontaneidade.

Primeiro Ato – Certa vez um vereador pediu para que o jornalista da bancada na Câmara escrevesse umdiscurso sucinto, mas que usasse umas palavras de efeito. Ele queria dizer, palavras bonitas, diferentes pra impressionar, desde que não fossem difíceis de decorar.

– Mas o senhor quer que eu escreva um discurso pro senhor decorar?

– Não, o discurso é pra você ler pra mim até eu guardar tudo na cabeça.

Mal sabia o jornalista que o político tinha sérios problemas com a leitura, não acolherava direito as palavras, não sabia ler encordoado, enfim, era semialfabetizado, mas tinha boa memória.

Segundo Ato – Contam que o ex-governador Alceu Collares em campanha pelo interior, disputando o Palácio Piratini, fez oito discursos num mesmo dia, de Erechim a Cruz Alta.

No final da viagem, o motorista reclamou que ele repetiu as mesmas coisas em todos os discursos, ao que Collares respondeu:

– O discurso é o mesmo, mas o publico é diferente.

Terceiro Ato – Outra folclórica teria ocorrido em Passo Fundo com o ex-prefeito Firmino Duro que era vice do Wolmar Salton e assumiu a prefeitura quando Salton teve um AVC e se afastou do cargo. No dia da posse, Firmino colocou no bolso o discurso pensando que ia deslanchar na prosa. De cara, começou a travar as ideias e não teve dúvida, tirou o papel do bolso e meio encabulado disse aos presentes.

– Vocês me dão licença, mas preciso ler o improviso.

Quarto Ato – Um dos casos mais folclóricos e cômicos de redatores de discursos ocorreu numa cidade no interior gaúcho com um prefeito que não fugia do texto, era “Ipsis litteris”.

O arrazoado trazia opções, deixava espaços para que o prefeito colocasse aí seus cacos, improvisos como por exemplo período do dia em que o discurso seria proferido, de dia ou de noite, elencava ações do prefeito e completava com alguns etecéteras para que ele completasse de cabeça suas obras e realizações. Assim sendo o prefeito pigarreou limpando a garganta e lascou:

– Senhoras e senhores, povo desta cidade (bom dia, boa tarde ou boa noite conforme a ocasião).

Lá no final, depois de fazer um balanço da sua gestão citou algumas obras importantes lendo inclusive os etc… etc.. sugeridos no texto arrancado risos e gargalhadas da plateia quando listou:

– A minha administração não se furtou em alavancar o progresso desta cidade, construindo pontes, açudes, abrindo ruas e estradas, incentivando a agricultura, a pecuária, a valorização da pequena propriedade como fonte de economia para o município, etetec… etetec… etetec… e tenho dito!

O Guaxo

O médico de família tem certa particularidade que o diferencia dos demais. Conhece não apenas os pacientes como as frutas do quintal e trata o gato e o cachorro da casa pelo nome. Pois um destes médicos, que hoje é vereador em Porto Alegre, tinha uma paciente que ao ser diagnosticada a gravidez disse que o parto seria feito pelo Dr. Thiago fosse onde ele estivesse.

O GuaxoCerta noite, ele de plantão no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, recebe uma ligação.
– Estourou a bolsa doutor.
– Contrações?
– Poucas.
– Consegues vir até o hospital?

Não deu meia hora e ela estava lá. O parto normal foi um sucesso.

O colega obstetra que assistiu ao parto, tinha o apelido de Guaxo por nunca ter sido alimentado com o leite materno. Contava para todos que, quando nasceu, já recebeu no berço uma mamadeira com leite de vaca e assim se acostumou. Brincava com o incidente e se apresentava como “Dr. Renan, criado guaxo”.

Semanas depois quando a paciente retornou para a consulta de revisão, trazia no colo a criança e na mão um bolo de chocolate.

– Este é pro senhor, doutor, eu mesma fiz como retribuição à sua atenção. Espero que goste.

Dr. Thiago chamou o Dr. Renan, que era seu vizinho de sala, e sem a mínima cerimônia, foi repartindo o bolo em fatias, ali, na hora.

No rosto da paciente a expressão de alegria e satisfação ao ver os dois se deliciando com aquele rebuçado, feito com amor e carinho, sentindo-se realizada ao ver os dois provando pedaço por pedaço analisando a cada mordida o sabor do tal bolo de nega maluca.
– Uma delícia, macio, cremoso e que aroma, dizia o Thiago.
– O cheiro e o sabor são o diferencial, nunca comi nada igual, completava o Renan.

Para agradar a paciente, pediram a receita daquela maravilha.

A resposta, no entanto, foi um tanto quanto inesperada.
– Vocês nunca poderão fazer um bolo igual a este, ele é único, foi feito especialmente pros dois.

E aí veio a revelação do ingrediente mais estranho usado na receita:
– Eu fiz o bolo com o leite que tirei do meu próprio peito.

Depois de um breve silêncio ela se retirou do consultório com um sorriso no rosto, crente da missão cumprida e de ter retribuído à altura a atenção recebida dos médicos.

Os dois se olharam, não acreditando no que tinham ouvido, sentindo agora um gostinho estranho lá no fundinho da boca.

Foi aí que o Dr. Thiago se aproximou do Dr. Renan e com um irônico sorriso foi dizendo:
– Tu não é mais guaxo!

 

As apostas de Flores da Cunha

O jornalista Carlos Bastos, que deve ter sido parceiro na carpeta, me contou outro dia, tomando licor com café nacasa da Nubia Silveira, que o Flores da Cunha, tinha azar no jogo, mas não dispensava um carteado e apostas no turfe.

Era viciado em pôquer e frequentador do Clube do Comércio na Rua da Praia, em Porto Alegre, quando era presidente eleito do Estado do Rio Grande do Sul, o que seria hoje o posto de governador.

Certa noite, como de costume, a falta de sorte rondava a mesa de jogos e nada de chover no jardim do Dr. Flores.

Foi quando ele inventou uma sequência de cartas nada a ver e baixou a trinca na mesa. Quando reclamaram que aquelas cartas nada tinham a ver com o jogo de pôquer, Flores da Cunha disse que ele se chamava Farroupilha, algo inventado na hora por ele. E explicou:

– É que uma carta não tem nada ver com a outra.

Como ele era a autoridade maior do Estado, sem falar da mesa, ninguém questionou a nova fórmula.

O jogo seguiu e lá pelo amanhecer do dia um dos jogadores conseguiu encordoar as mesmas cartas que o Flores juntara durante a noite e baixou a trinca na mesa anunciando mais um Farroupilha.

Flores da Cunha, no entanto, não largou as cartas dele e repreendeu o jogador dizendo:

– Só vale um Farroupilha por noite!

No turfe era a mesma coisa, apostava muito e perdia tudo, chegou a fim da vida, em 1959, sem muitas posses.

Numa entrevista às páginas amarelas da revista Veja, uma jornalista quis saber como é que ele sendo Senador, Interventor Federal, Presidente do Estado e homem de influência na política não tinha feito o seu pé de meia. Flores da Cunha não titubeou na justificativa:

– Foi apostando em cavalos lerdos e mulheres ligeiras.

 

O Brasil desmascarou a Fifa e a Fifa desmascarou o Brasil

O Neymar deve agradecer o colombiano Zúñiga por tirá-lo de campo na partida contra a Alemanha, com ele ou sem, o fiasco seria irreversível. A seleção nunca convenceu mesmo.

Não dá pra culpar o Freud pelo abalo psicológico dos jogadores se você tem um Fred no ataque, se no gol tem um Júlio Cesar que certa vez mandou o Lula cuidar do Brasil que ele cuidaria do jogo, se você tem uma comissão técnica e um plantel que passou o tempo inteiro decorando textos para comerciais de TV se esqueceram de estudar o futebol.

A grande mídia conseguiu fazer com que os homens e mulheres esclarecidos, de boa índole e vontade pegassem nojo da seleção, por martelar dia e noite na imaginação dos brasileiros um sonho que não existia. Assim como demonstrou uma total falta de patriotismo ao vender um Brasil diferente lá fora, tendo que engolir a seco e reconhecendo fazendo a minha culpa quando os visitantes vieram e constataram que nada do que foi dito aconteceu por aqui. Não ia ter copa e teve, as pessoas de bem calaram os pessimistas.

Tava indo tudo bem para uma final entre Brasil, Holanda ou Argentina, mas aí veio a Polícia Federal, sempre ela para estragar tudo, desmascarando a FIFA por conta da venda de uns ingressos prendendo uns cambistas de elite, e bota elite nisso, colocando eles nas páginas dos jornais como quadrilheiros.

Foi mexer no vespeiro que os senhores do futebol portando suas cartolas entraram em campo, quebrando o acordo de de levar o Brasil à final. A Fifa autorizou o exército alemão a acabar com a farsa, evitando assim uma reprise do maracanaço.

 

Na dúvida, saltei do táxi

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A velha senhora panfletava na esquina, abordando os pedestres que cruzavam a Alberto Bins com a Vigário. Cabelo grisalho enrolado e fixado na nuca no feitio de um coque. Pele bugra, olhos claros esverdeados e rugas, muitas rugas num rosto sem pintura. Os lábios lambuzados de carmim.

– Tá de bobeira, vai lá que tem drinque e mulher bonita!

Repetia alcançando um impresso, preferencialmente para homens, com a propaganda de um cabaré.

– Não é inferninho, também não é de família, mas é casa de bons modos.

Alertava majestosa, sem perder a pose, respondendo com um respeito, que lhe era peculiar, para dois senhores de chapéu e paletó que perguntavam o caminho do puteiro.

Peguei um táxi, rumo à zona sul cuja motorista atenta às explicações aos dois folgados, comentou que aquela velha senhora foi a rainha do cabaré, ganhou muito dinheiro, teve muitos amores e que chegou a acompanhar o nascimento do seu ultimo marido, do qual se separou depois que ele descobriu alguns casos de infidelidade e voltou para a casa da mãe.

– Hoje tai, na sarjeta!

Pensei com meus botões que se ela foi rainha, a mais desejada, hoje deve ocupar o lugar de outras ex-dançarinas que acabaram na vida desta maneira, fazendo o marketing das novas gerações. Uma espécie de decadência na própria empresa. Quantos homens deve ter explorado, quantas mulheres deve ter enganado, quanto giro na economia, quanto dinheiro circulou no bordel, quantas noites de danças e beberragens, quanta felicidade. Ainda ouvi a taxista murmurar:

– Ninguém é insubstituível.

Caramba, mas era bem o que estava pensando. Num relance mudei o foco das idéias e vi que as ruas reservam surpresas sim. Pois não é que eu estava sentado ao lado de um taxista que também é adivinha, espirita, mãe de santo ou coisa do gênero?

Na altura do Mercado Público, pedi pra motorista parar o táxi, paguei sem pegar o troco e saí em disparada me rendendo às forças ocultas. Pois não é que no rádio do táxi tocava a música Boneca de Pano, do Valente, na voz do Sacramento? … é muita coincidência.