Na dúvida, saltei do táxi

A velha senhora panfletava na esquina, abordando os pedestres que cruzavam a Alberto Bins com a Vigário. Cabelo grisalho enrolado e fixado na nuca no feitio de um coque. Pele bugra, olhos claros esverdeados e rugas, muitas rugas num rosto sem pintura. Os lábios lambuzados de carmim.

– Tá de bobeira, vai lá que tem drinque e mulher bonita!

Repetia alcançando um impresso, preferencialmente para homens, com a propaganda de um cabaré.

– Não é inferninho, também não é de família, mas é casa de bons modos.

Alertava majestosa, sem perder a pose, respondendo com um respeito, que lhe era peculiar, para dois senhores de chapéu e paletó que perguntavam o caminho do puteiro.

Peguei um táxi, rumo à zona sul cuja motorista atenta às explicações aos dois folgados, comentou que aquela velha senhora foi a rainha do cabaré, ganhou muito dinheiro, teve muitos amores e que chegou a acompanhar o nascimento do seu ultimo marido, do qual se separou depois que ele descobriu alguns casos de infidelidade e voltou para a casa da mãe.

– Hoje tai, na sarjeta!

Pensei com meus botões que se ela foi rainha, a mais desejada, hoje deve ocupar o lugar de outras ex-dançarinas que acabaram na vida desta maneira, fazendo o marketing das novas gerações. Uma espécie de decadência na própria empresa. Quantos homens deve ter explorado, quantas mulheres deve ter enganado, quanto giro na economia, quanto dinheiro circulou no bordel, quantas noites de danças e beberragens, quanta felicidade. Ainda ouvi a taxista murmurar:

– Ninguém é insubstituível.

Caramba, mas era bem o que estava pensando. Num relance mudei o foco das idéias e vi que as ruas reservam surpresas sim. Pois não é que eu estava sentado ao lado de um taxista que também é adivinha, espirita, mãe de santo ou coisa do gênero?

Na altura do Mercado Público, pedi pra motorista parar o táxi, paguei sem pegar o troco e saí em disparada me rendendo às forças ocultas. Pois não é que no rádio do táxi tocava a música Boneca de Pano, do Valente, na voz do Sacramento? … é muita coincidência.

 

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

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