Enquanto você dormia….

… muita coisa acontecia. A cidade dá às costas aos projetos que não dão lucro mas que dão certo. Um claro e transparente exemplo vem das ruas de Porto Alegre. Os excluídos que não dão dinheiro nem voto vivem na invisibilidade de quem administra orçamentos faraônicos, esgotando pelo ralo um dos mais belos exemplo do planeta, reconhecido internacionalmente. Seus integrantes não querem verba, só querem um lugar para as reuniões de pautas e para a confecção do jornal Boca de Rua, folhetim comum e que já se tornou parte integrante do cotidiano da Capital, mas que inexplicavelmente é motivo de desprezo dos senhores dos gabinetes, rotulados de gestores públicos. A má vontade com essa gente de rua é tanta que sequer foram reconhecidos como figuras que interferem na paisagem urbana. Pois estes revolucionários que travam uma batalha silenciosa nas ruas de Porto Alegre em nome do preconceito e da discriminação foram homenageados numa noite de gala nas terras altas da Escócia durante a comemoração dos 20 anos de INSP – internacional network street paper com sede em Glasgow, O Jornal Boca de Rua de Porto Alegre, participa desta Rede desde 2002 e o filme/ documentário mostrando como funciona a ONG ALICE – Agência Livre para a Informação, Comunicação e Educação, abriu a festa homenageando os jornais do mundo todo. Em 2006 na mesma Escócia, o primeiro ministro entregou ao Boca de Rua o premio de melhor jornal de rua do mundo, coisa que passou em branco em branco pelas autoridades. A Câmara Municipal, por iniciativa do vereador Dr. Thiago, fez uma sessão especial como reconhecimento ao prêmio. No mais, todos calaram como se nada tivesse ocorrido. Agora, o INSP, maior autoridade mundial em jornais de rua homenageia novamente o Boca como se mandasse um recado: Vocês não reconhecem, nós reconhecemos.Veja o video “Vozes de uma Gente Invisível” e tire suas conclusões: https://www.youtube.com/watch?v=5TtoMSiRn0w&app=desktop

 

 

… E a comitiva de Jânio visitou as tias

O ex-governador gaúcho Walter Peracchi Barcelos, coordenou, no Rio Grande do Sul, a campanha de Jânio Quadros à presidência da República no inicio da década de 60, e para evitar transtornos, enfrentando estradas barrentas, e dar conforto à comitiva, resolveu que o deslocamento pelo interior do Rio Grande do Sul seria feito de trem.

Assim, ao estilo dos filmes do Velho Oeste, juntaram-se os vagões e a locomotiva rebocou o comboio pelas estradas de ferro atravessando o pampa gaúcho. Jânio tinha um vagão só pra ele onde recebia os jornalistas e discutia estratégias com assessores e apoiadores.

E foi justamente numa das paradas na cidade de Carazinho para um pernoite que parte da comitiva, sem o Jânio, é claro, resolveu se divertir fazendo uma visitinha às tias, que moravam depois do trevo de saída da cidade em direção a Não-Me-Toque, em meio a uma plantação de eucaliptos.

As tias, diga-se de passagem, não costumavam receber sobrinhos menores de idade porque o comportamento das primas não era lá tão recomendado.

Depois de uma noite de dança e bebedeira, para ficarmos apenas na parte social da visita, foram retornando, de táxi, ao hotel.

Ocorre que uma das corridas não foi devidamente quitada. Os boêmios ficaram de pegar o dinheiro no quarto e descer para efetuar o pagamento. Foi um calote à lá Kirchner.

No dia seguinte, comitiva reunida e embarcada, pronta para seguir viagem, e a locomotiva não saiu do lugar.

Jânio quis saber o que estava ocorrendo e chamou o maquinista.
–  O senhor pode me explicar o motivo do atraso do comboio?
Perguntou Jânio

– O problema é um táxi atravessado nos trilhos, dr. Jânio, o motorista disse que não sai até  receber a corrida.
Respondeu o maquinista.

Alice no país dos invisíveis

É imperdível esta entrevista da Maria Margareth Lins Rossal ao site – Escrítica – mostrando o projeto Alice do Jornal Boca de Rua que já ganhou prêmios internacionais e pouca gente sabe, porque o assunto não interessa à mídia convencional. O link da entrevista é: http://www.escritica.com/#!destaque/c1ey8

De outro lado o projeto, criado há 14 anos e desenvolvido em Porto Alegre / Rio Grande do Sul / Brasil, encontra espaço e reconhecimento lá fora. Em Porto Alegre, nem uma sala ele tem para reunir os integrantes do Boca, pois também não há interesse do poder público em dar atenção aos excluidos. Assim, as reuniões de pauta ocorrem nos porques, praças, embaixo dos viadutos. Um trabalho silencioso, mas que repercute mundo a fora, como na homenagem que recebeu na última sexta-feira na cidade de Glasgow (Escócia) na cerimonia de encerramento do encontro muncial de Jornais de Rua. Na oportunidade foi apresentado o filme/documentário a ONG Alice – Agencia Livre para Informação. Comunicação e Educação do Jornal Boca de Rua. https://www.youtube.com/watch?v=5TtoMSiRn0w&app=desktop

Parabéns Rosina Duarte, Cristina Pozzobon, Luiz Abreu, Marga Rossal e ao Francisco Fogaça Damiani, vocês estão vencendo esta batalha, dando identidade e visibilidade aos invisíveis.

Sinistra noite no agreste

 

É na conversa de boteco, corrida de táxi ou no barbeiro que se descobre a intimidade no cotidiano da vida pública ou privada. Tem assunto pra tudo e com aquele aditivo de ironia, o que num instituto de beleza, com aquele monte de dondocas, chamariam de fofoca.

E foi num café na companhia do cientista político Benedito Tadeu César, dos jornalistas João Souza, Carlos Bastos e Núbia Silveira que vem à tona os fofocausos dos bastidores da política, como este sobre um suposto atentado no agreste.

Pois o Benedito Tadeu integrava a coordenação nacional da campanha da chapa Lula/Bisol à presidência em 1989. Numa das viagens ao Nordeste brasileiro, acompanhando o senador gaúcho e candidato à vice, José Paulo Bisol, o jatinho pousou na região de Caicó para um comício, já combinado que pernoitariam por lá.

Neste meio tempo, o Benedito recebe uma ligação do Gilberto Carvalho, atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, alertando sobre denúncias anônimas de possíveis atentados às aeronaves de campanha.

– Pede ao piloto para que não se afaste, que fique atento, reforçou Carvalho.

Benedito, decidiu que ninguém contaria nada ao Bisol que, após o comício, foi para o hotel. De resto, ninguém mais dormiu e todos ficaram rondando o avião.

Pela manhã, Bisol vendo todos com aquela cara de sono, sacudiu a cabeça e murmurou:

– Como conseguem amanhecer de festa nestes cafundós…

ILUSTRAÇÃO DAMIANI - 6 DE AGOSTO - TAISE KODAMA E DANIEL CRUZ

 

As Apostas de Flores da Cunha

O jornalista Carlos Bastos, que deve ter sido parceiro na carpeta, me contou outro dia, tomando licor com café na casa da Nubia Silveira, que o Flores da Cunha, tinha azar no jogo, mas não dispensava um carteado e apostas no turfe.

Era viciado em pôquer e frequentador do Clube do Comércio na Rua da Praia, em Porto Alegre, quando era presidente eleito do Estado do Rio Grande do Sul, o que seria hoje o posto de governador.

Certa noite, como de costume, a falta de sorte rondava a mesa de jogos e nada de chover no jardim do Dr. Flores.

Foi quando ele inventou uma sequência de cartas nada a ver e baixou a trinca na mesa. Quando reclamaram que aquelas cartas nada tinham a ver com o jogo de pôquer, Flores da Cunha disse que ele se chamava Farroupilha, algo inventado na hora por ele. E explicou:

– É que uma carta não tem nada ver com a outra.

Como ele era a autoridade maior do Estado, sem falar da mesa, ninguém questionou a nova fórmula.

O jogo seguiu e lá pelo amanhecer do dia um dos jogadores conseguiu encordoar as mesmas cartas que o Flores juntara durante a noite e baixou a trinca na mesa anunciando mais um Farroupilha.

Flores da Cunha, no entanto, não largou as cartas dele e repreendeu o jogador dizendo:

– Só vale um Farroupilha por noite!

No turfe era a mesma coisa, apostava muito e perdia tudo, chegou a fim da vida, em 1959, sem muitas posses.

Numa entrevista quase no fim dos seus dias, uma jornalista quis saber como é que ele sendo Senador, Interventor Federal, Presidente do Estado e homem de influência na política não tinha feito o seu pé de meia. Flores da Cunha lascou:

– Foi apostando em cavalos lerdos e mulheres ligeiras.

 

Esmagando o Voto

O Isaac Ainhorn, quando vereador de Porto Alegre, costumava fazer uma ronda pela cidade nos finais de semana para encontrar amigos, principalmente se fosse um amigo-eleitor. Parava, cumprimentava, perguntava como estava a família, como se sentia, oferecia ajuda, enfim, era um fiscal da cidade em ação.

Numa ensolarada manhã de domingo, trafegava com o seu assessor e motorista pelo bairro Bom Fim, ponto de encontro dos porto-alegrenses nos finais de semana, pois, pra quem não sabe, é no “Bonfa” que fica o Parque da Redenção, onde negros, brancos, índios, que vendem artesanato, pobres, coxinhas, alternativos, músicos, poetas e protestantes circulam livremente. Um espaço democrático para não ser chato.

Foi numa das ruas arborizadas do bairro com a maior concentração de judeus por centímetro cúbico que Isaac avistou um dos seus eleitores prestes a atravessar a rua e ordenou ao do volante para que desse uma seguradinha para que pudesse cumprimentá-lo.
Só que a freada não foi das mais simples e quase atropelou o eleitor, fazendo com que ele se jogasse contra um carro estacionado.
Isaac aos berros reprimiu o motorista:

– Cuidado pô, assim você esmaga o meu voto!