Auxílio-moradia e o bolsa família

Em 2001, um grupo de jornalistas do Judiciário e do Ministério Público criou o Fórum Nacional de Comunicação & Justiça (FNCJ), na intenção de passar uma imagem de cidadania da Justiça no Brasil. E foi por meio deste Fórum que surgiu a TV Justiça, Rádio Justiça, Prêmio Nacional de Comunicação & Justiça, Congresso Brasileiro de Comunicação & Justiça, tudo contado no livro A Comunicação na Justiça Brasileira que escrevi na parceria da Edvânia Kátia, jornalista do Tribunal Regional do Trabalho do Maranhão. A nossa meta ao fundar o FNCJ foi a de abrir as portas da Justiça à sociedade e vender uma imagem positiva, de confiabilidade, de credibilidade e transparência daqueles que fiscalizam e decidem por meio da lei os rumos da nação. Aí, vejo uma imbecilidade sem tamanho, o tal de auxilio-moradia aos magistrados. Eu como trabalhador comum, contribuinte do impostos que é descontado em folha e não contentes, levam mais um tanto na hora da declaração; que paga impostos em tudo o que compra, fico assim, com cara de bobo e achando que aquele movimento dos jornalistas não sensibilizou a toga. Ficamos felizes no entanto, porque graças a ele, hoje se sabe em que ralo vai o nosso dinheiro. Antes não se sabia, agora se sabe porque as coisas acontecem abertamente. Vivemos outros tempos, sim, embora exilados dos nossos próprios direitos que só valem para quem tem o poder da caneta. Não foi em vão a nossa luta não, os jornalistas fizeram o seu dever, cumpriram com a sua função e juramento. Agora cabe aos senhores, Juízes, Desembargadores, decidirem sobre nossos direitos e não apenas sobre os seus e dos seus aliados. Quando o trabalhador pena o mês inteiro para pagar o seu aluguel, vem esta decisão absurda favorecendo quem ganha muito bem e ainda por cima, tira dos que não tem. Pensem nisso nas próximas decisões e olhem para o povo que merece a sua atenção, porque se não fosse o nosso trabalho vocês não estariam onde estão.

Ah, o que que isso tem a ver com o bolsa família?

Deu um estalo, não deu?.

Sim, o mesmo me aconteceu enquanto escrevia.

No fundo, também estou curioso para saber o que acham do auxilio-moradia aqueles que condenam o auxílio aos pobres.

 

Um strike nas propostas

O PT era um partido nanico no inicio dos anos 80. O Brasil ainda vivia a ditadura com o General Figueiredo no poder.

Os programas eleitorais eram feitos a facão, de qualquer jeito. Alguns se esmeravam em gravar e enviar as fitas de vídeo para exibição nas TVs.

As produções no interior eram uma lástima. Sem o mínimo de recursos, os candidatos compareciam nos estúdios das emissoras de televisão – no caso do Rio Grande do Sul, na Rede Brasil Sul (RBS) -, para expor seus planos de governo ao vivo, sem corte e com tempo contado.

Faziam uma fila na porta do estúdio e, no horário eleitoral gratuito, iam se posicionando diante de uma tapadeira (cenário de fundo), esperando a autorização do câmera, para disparar suas propostas.
Quando era um único candidato por partido ficava fácil para a produção. Até dois candidatos, tudo ia bem. Eles ficavam lado a lado e cada um falava o tempo disponível para a propaganda. O problema é quando passavam de dois.

Contam que, nos estúdios da TV Erechim, sete sindicalistas se apresentaram para o horário eleitoral do Partido dos Trabalhadores, que, por ainda ser um partido pequeno, não tinha dinheiro para uma produção melhorada e o negócio era apelar para o improviso de forma rápida e objetiva. O problema foi coordenar todos os candidatos para que eles entrassem no tempo cronometrado.

A solução encontrada pelo assistente de estúdio foi a mais simples e operacionalmente eficaz. Juntou os candidatos e explicou a estratégia:
– A gente abre com dois candidatos falando 20 segundos cada um. Aí a câmera vai subindo de vagar até enquadrar a bandeira do partido um pouco acima da cabeça de vocês e vocês trocam de cadeira rapidinho até que os sete possam falar.

Toda a explicação era acompanhada por gestos para justificar de que forma foi arquitetada a produção.

Para não dar furo, os candidatos decoraram seus textos momentos antes de começar o programa eleitoral.

Tudo pronto, bandeira no topo, cadeirinhas lado a lado e dois dos primeiros candidatos colocados no cenário.

O primeiro deu o seu recado, o segundo emendou direitinho, e momentos antes de acabar sua fala a câmera subiu até a bandeira para dar tempo à troca.

Foi aí que se ouviu um enorme um estrondo dentro do estúdio.

Quando a câmera voltou já não havia mais tapadeira, nem cadeiras, muito menos candidato. Na falta de sincronia e de combinação, os outros cinco entraram juntos e destruíram o cenário. Todos esparramados no estúdio feito pinos de boliche. Um strike de causar inveja.

Um Legítimo Oficial de Patente

O Paulo Monteiro, historiador e poeta de refinada ironia e craque em recolher causos, noutro dia me veio com esta do Major Mouro, um oficial da BM que se meteu na política, que lambuzou a sua reputação já na primeira campanha.

Descreve o personagem como “branco demais pra ser preto; preto demais pra ser branco”, valendo-se da máxima de um poeta de Santiago de Boqueirão. Conta que o Mouro exibia uma cabeleira tordilha, uma homenagem ao deputado Rui Ramos, imortalizado como o “mouro do Alegrete”, nos versos de Jayme Caetano Braun. Mouro fora designado por Leonel Brizola para segurança de Rui Ramos. Um dia, no entanto, a ousadia de se tornar político cobrou seu preço, como conta o Paulo nesta crônica.

O Major Latrina

A história do nosso herói começou em 1923, quando sentou praça na Brigada Militar. E dizia-se à boca pequena que se tornara célebre já no dia 5 de maio daquele ano ao decapitar o famoso degolador maragato Adão Latorre, único morto no Combate de Santa Maria Chico. Essa decapitação valeu-lhe as divisas de cabo, “por ato de bravura”.

Depois, andou perseguindo a Coluna Prestes, onde conquistou o posto de sargento. Pouco depois, seguiu na guarda pessoal de Getúlio Vargas, na Revolução de 30. Ao saber que um dos seus velhos camaradas morrera na Frente de Itararé foi até Vargas, pedindo que o mandassem para o local dos combates, em substituição ao amigo. Isto lhe valeu mais uma promoção por bravura. Mais tarde, em 32, andou sempre ao lado do famoso “Pé no Chão”, célebre pela matança de paulistas a facão.

Um dia resolveu ingressar na política. E começou concorrendo a vereador. Arrumou um cabo eleitoral, que era a sua sombra. Passou a andar pelos bolichos, discursando, cabeleira solta e gestos largos. E pagando cachaça para o “gambazedo”.

Uma bela noite, quando um jovem militante seu apresentava os oradores de um comício aconteceu o inaudito.

– E agora, um herói! Herói da Revolução de 23! Herói da Revolução de 30! Herói da Revolução de 32! O nosso companheiro, o Major….

Uma sonora gargalhada ocorreu nos fundos do comício, que na verdade era a parte da entrada. E alguém disse aos ouvidos do apresentador:

– Impossível! Impossível! O Major não vai poder falar!

O rapaz espirou fundo e continuou:

– Infelizmente não poderemos ouvir nosso candidato a vereador, sob nº ….., que por um motivo de força maior precisou se afastar do nosso comício.

Mais tarde a notícia espalhou-se. Após pagar cachaça e beber fraternalmente com seus eleitores, o Major Mouro, caíra na patente ou latrina existente aos fundos do salão onde se realizava o comício. Após retirar o grosso da “cheirosa matéria” em que acabara envolvido, com um belo banho de mangueira, o “herói” de tantas guerras pátrias, saíra vestindo uma roupa emprestada. Ao seu lado, dirigindo o Simca Chambord do candidato, o inseparável cabo eleitoral.

Morria ali o Major Mouro e nascia o Major Latrina.

O Cabo Eleitoral

O jovem Pedro Ruas estreava na política e recebeu uma ajuda e tanto do Glênio Peres, um veterano das urnas. Para impulsionar a campanha do amigo, a Lícia, esposa do Glênio, passou ao Pedro o endereço de um cabo eleitoral da pesada, mas esqueceu de alertá-lo sobre as características físicas do sujeito.

Era comum aos políticos procurarem ajuda nos terreiros e, como diria a amiga e jornalista Jurema Josefa, poucos eram ungidos. E foi no sentido de ungir sua carreia política que o Ruas buscou o apoio de um pai de santo.

Ao chegar no endereço marcado, foi recebido por um homem alto de pele morena e de óculos escuros que abriu a porta e mandou que entrasse. Pedro, solícito, já foi estendendo a mão para um cumprimento e não foi correspondido. Então se deu conta de que o homem era deficiente visual. Justo o que a Lícia esquecera de alertar.

– Vai um café?

Perguntou o homem

– Vou aceitar

Respondeu Pedro

– Vai se acomodando que eu volto logo.

Um tanto perturbado com a situação, Ruas se acomodou justamente numa poltrona que só tinha três pernas. Ao largar o corpo, desabou, agarrando-se à cortina que cobria a janela da sala. Não ficou nada no lugar, tudo veio ao chão. O dono que era cego tinha até então, uma casa bem organizada. A visita, no entanto, tratou de transformar o ambiente num piscar de olhos.

As más línguas, no entanto, dizem que o Pedro, chateado com o estrago saiu de fininho, pé por pé, ouvindo ao fundo a voz mandingueira do feiticeiro com um bule de café na mão quase entrando em desespero, chamando pelo Pedro que tinha tomado o caminho das Ruas.

Quando o leiteiro se atravessa na campanha

O acaso nas campanhas eleitorais, que colocam o candidato numa saia justa, é o diferencial para render boas histórias. Por mais simples que seja, ele cativa o (e)leitor, desde que acabe numa situação embaraçosa, cômica, fora do lugar.
Que o diga o vereador Marcelo Sgarbossa (PT). Antes de se lançar candidato à Câmara de Porto Alegre, concorreu, em 2010, a uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Nascido na cidade de Lagoa Vermelha, pras bandas do Norte gaúcho, veio estudar em Porto Alegre, se formou em Direito e por aqui ficou aquerenciado. Por ter um tipo físico diferenciado dos irmãos, sua estatura sempre foi motivo de brincadeira por parte dos amigos ou familiares. Por 30 anos ele ouviu a mesma ladainha: de que era filho do leiteiro, e sempre usou esta resposta quando lhe perguntavam porque era tão diferente dos demais. Nunca deu importância, mas também nunca se esqueceu da comparação.

Sgarbossa conta que durante o pleito, voltou a Lagoa Vermelha para se apresentar como candidato, fazendo caminhadas pela cidade no chamado “corpo a corpo”, apresentando suas propostas e distribuindo material de campanha.

Num final de tarde, a comitiva entrou num armazém que ficava no final de uma rua num bairro retirado da cidade, quase zona rural. Foi quando alguém lhe bateu no ombro e de braços abertos para acolher o candidato foi dizendo:

– Tu lembras de mim?

Para não ser indelicado, Marcelo contornou a conversa.

– O senhor não me é estranho…

– Claro que não meu caro, eu entregava leite na tua casa quando você era guri.

 

Derradeiras palavras de Júlio de Castilhos

O doutor Protásio Alves, médico que virou nome de Avenida em Porto Alegre, foi chamado às pressas para atender Júlio de Castilhos, que “deitava um fumo” e não estava nada bem. Apresentava fortes dores na garganta.

Jornalista e advogado, Júlio Prestes de Castilhos foi presidente da Província, o que seria hoje o cargo de governador do Estado. Na época, a sede do governo gaúcho ficava no Forte Apache, localizado na esquina da Praça da Matriz, na Rua Jerônimo Coelho. Recentemente, o prédio que estava em ruínas foi restaurado e transformado em Memorial do Ministério Público. Um pouco mais acima, na Rua Duque de Caxias, morava Júlio de Castilhos, na residência que mais tarde virou museu e leva o seu nome.

Foi nesta casa que o Dr. Protásio, médico, amigo e correligionário, tentou uma traqueostomia para conter um câncer na garganta do caudilho positivista. Antes de anestesiar o paciente com éter, numa mesa cirúrgica improvisada, falou:

– Presidente, preciso operá-lo, espero que não lhe falte coragem.

Júlio de Castilhos olhou para o amigo e quase sufocando ironizou a recomendação, pronunciando seu derradeiro discurso:

– Coragem eu tenho Doutor Protásio, o que me falta é ar.

Uma parada cardíaca deu fim ao sofrimento.

Fontes: Memorial do Ministério Público e Amrigs

A Professorinha e a Trova

Professora do curso primário, formada no magistério por meio do ensino à distância, cabelos bem tratados, unhas feitas no capricho e roupas insinuantes – atributos suficientes para atrair o voto dos eleitores. As eleitoras se encarregavam de detonar com a sua reputação. Perua era o único e mais leve termo publicável no diz-que-diz-que das tardes no salão de beleza da Dóris, o único da rua e do povoado, que ficava pelas bandas de Passo Fundo.

Encantada com o fato de se tornar uma edil na flor da idade e com possibilidade de fazer pelos munícipes o que nunca dantes os outros haviam feito, passou a pregar nas conversas de portão, no mercado, na saída da escola ou até mesmo no café da cidade, que reunia os viciados na jogatina, sempre nos finais de tarde, que a política era dinâmica e, assim como a terra, precisava ser revolvida para respirar e gerar novos frutos, referindo-se, em forma de metáfora, à velharia que ocupava o parlamento por tantos e tantos anos.

O plano acusou o golpe e as raposas passaram a se organizar para fazer frente à adversária, que agora já se tornava inimiga declarada.
Os nobres edis encontravam a professorinha e puxavam um papo prá lá de otimista. Elogiavam de cabo a rabo, claro que preferindo sempre a segunda opção, as propostas de vanguarda que a pedagoga ministrava como se ocupasse uma sala de aula. Ao virar as costas iniciavam um severo ataque político às ideias de jerico, de alguém que chegou ontem. Juntavam munição e disparavam às escondidas:

– O que ela pensa que é?

– Uma piranha, isso é que é

– Inimiga na trincheira

– Uma safada, exibida e metida a intelectual.

– Só podia ser filha do Lourival que não vale o pão que come.

Lourival para quem não sabe era um empresário de respeito que financiava campanhas. Pagava os panfletos e flâmulas com fotos e números dos candidatos, os mesmos candidatos que agora se entrincheiravam para uma revanche contra a filha do financiador.

Ao saber da armação, a professora ocupou o coreto da praça da cidade e chamou o povo para “dizer umas palavras”.

Depois de condenar veementemente o ataque das raposas contra uma inofensiva “pomba da paz”, que vem para fazer o bem e mudar os conceitos de se fazer política, acabando com os guetos na Câmara Municipal, apanhou um pedaço de jornal na bolsa e declamou, com todo o fervor e veemência, uma trova do poeta e historiador Paulo Monteiro, que, na época, era presidente da Academia Passo-Fundense de Letras, publicada no Jornal de Ronda.

A trova serviu como uma luva ao tenso momento eleitoral, principalmente a última estrofe:

Eu conheço muita gente
Diz a oradora loquaz
Que me alisa pela frente
E me senta o pau por trás.

E tenho dito!