Testemunha Ocular

 

Um vereador de poucas palavras, que raramente utilizava a tribuna para manifestações em defesa da cidade, um pequeno município no interior gaúcho. Era daqueles que falava pouco porque não articulava bem as palavras, tinha certa dificuldade para se expressar, coisa de vergonha de si mesmo. O seu lema era “falar pouco e trabalhar muito”, e se declarava um fiel representante do povo na Casa do Povo. Um servo a serviço da paróquia que, assim como o padre, visitava as famílias, principalmente as do interior do município, arregimentando votos.

Às vésperas das eleições, ele correu os olhos sobre seus pedidos de providência junto ao Executivo e viu que pouco ou quase nada havia sido feito para ele.

O prefeito priorizou os vereadores que falam muito e fazem pouco, deixando de lado o que fala pouco e muito faz, deduziu o nobre vereador.

Indignado, se inscreveu para falar na sessão daquela noite. Subiu à tribuna e iniciou o oratório.

– Senhor presidente e demais vereadores desta Casa, povo que me assiste das galerias.

Na verdade a galeria era composta de 12 cadeiras, ocupadas por assessores e servidores que zapeavam mensagens ao celular.

– Venho aqui hoje para apresentar meu protesto contra o que chamo de perseguição de quem tem o poder de decidir, de mandar, tem a chave da cidade e só abre as portas para os que ele tem interesse.

Até aí a metáfora foi perfeita, digna de atingir o comandante do paço municipal, que ficava do outro lado da rua.

– Eles querem o rabo de quem não deixa rabo, o prefeito quer me… quer me… fff… enfim, vocês sabem muito bem o que, ainda mais agora, às vésperas do pleito. Não atendeu um único pedido encaminhado por mim durante estes quatro anos.

Deu uma parada, olhou para o plenário, para o presidente da sessão e se redimiu.

– Minto excelência, atendeu um único pedido meu que eu ia me esquecendo, ele mandou colocar uma vaga para idosos aqui na frente à Câmara, vaga esta usada pelo pai dele quando vem tomar mate na praça e deixa sua perua estacionada. Foi por interesse, bradou.

Cada vez mais indignado, seguiu o discurso enumerando três situações típicas de descaso do gestor público com a população rural.

– A estrada do fundão que todos conhecem e sabem que é lá que ficam os maiores criadores de porcos desta cidade.

Bebeu um gole de água e continuou, desta vez exibindo exemplos de dificuldade.

– Pois nenhum caminhão entra para buscar os animais para levá-los ao frigorífico porque o leito da estrada mais parece uma paisagem lunar, só tem buracos. Quem anda a pé tem que pular, correndo o risco de cair dentro de uma cratera e desaparecer para sempre.

E com ênfase, bradou:

– Nem veado passa lá!

Ouve-se um burburinho entre risos cochichos com a definição feita pelo orador que seguiu seu rosário de queixas e reclamações…

A ladainha, desta vez, apelava para a religiosidade do povo que andava reclamando e achando um absurdo o tamanho dos Capitéis (Oratórios erguidos na beira das estradas, local de fé e devoção para os católicos).

– Não sei onde o prefeito quis economizar. Os capitéis são tão pequenos que não abrigam do sol, da chuva, do frio…

E bradou com muita ênfase:

– Não abriga sequer uma anta de joelhos!

Ouvem-se mais risos e cochichos o que deixa sestroso o vereador, que resolve continuar sem tomar conhecimento das piadinhas e das ironias feitas pelos colegas.

– A ponte do Arroio das Pacas é impossível atravessar, não tem proteção e as tábuas são irregulares, mais parece um Mata Burro. (Para quem não sabe, trata-se de um pontilhão de tábuas separadas para que os animais não ultrapassem determinado limite do campo).

E novamente bradou, desta vez com exagerada ênfase:

– Não passa um burro por lá.

Agora não se ouve apenas os risos, e sim gargalhadas, o que deixa o vereador indignado.

– Vocês acham graça, pensam que é mentira ou brincadeira, pois lhes asseguro. Não passa veado, nem anta, nem burro. Eu, o meu pai e o padre tentamos andar na estrada, buscar abrigo no capitel, passar o pontilhão e não conseguimos, é missão impossível.

Riso geral; o vereador teve um acesso de fúria e saiu espinafrando todos que encontrava pela frente, esvaziando o plenário e a sessão foi encerrada por falta de quórum.