O trago de canha que separou o sacerdote do sacristão

 

O pequeno Serapião, hoje grandalhão, estudava num colégio de freiras onde as aulas de religião eram obrigatórias e valiam notas. Os alunos maus tinham além das aulas, o dever, como penitência, de servir as missas da semana e nos finais de semana. Recebiam um sermão das freiras e um catecismo, que deveria ser estudado e decorado.

A lição era tomada na aula seguinte. Foram tantas as advertências, que logo se aprendia a arte de ser um coroinha, o caminho da sacristia. Serapião estava quase se tornando um sacristão profissional, não fosse um pequeno deslize.

Num final de tarde de sábado, entre um castigo e outro, entre uma penitência, novenas e “trocentas avemarias” de arrependimento dos pecados, que não passavam de alguns desaforos durante brigas na pracinha ou desobediência em casa e na escola, ouviu a voz da freira, lá da sacristia:

– Não esqueça de repor o vinho do altar!

O vinho, que na eucaristia representa o sangue de cristo era colocado num recipiente de vidro, tipo galheteiro, que durante a celebração, é misturado à água e consumido pelo padre junto com a hóstia, esta representa o corpo de cristo: vinho – sangue, hóstia – corpo.

O reservatório ainda tinha um pouco menos da metade, mas, por via das dúvidas, já que teria uma missa no sábado a noite, e duas no domingo, resolveu reabastecê-lo. De posse daquele recipiente, foi à casa canônica (residência paroquial), e completou o vinho que faltava. Estava quase anoitecendo e a escuridão na cozinha, não permitiu identificar direito qual das garrafas continha o “Sangue de Cristo”. Abriu a geladeira, sem luz interna, e transferiu a quantidade necessária para completar o recipiente. Chegou a transbordar, deixando na casa paroquial um forte aroma familiar, mas não ao ponto duma criança de apenas 8 anos identificar aquele perfume. À noite, na hora da eucaristia, lá estava serapiãozinho, vestido de sacristão, com uma bata longa e vermelha, sobreposta por outra menor, branca, mais fina, cheia de rendas e bordados, batendo um sininho toda vez que o padre erguia o cálice. O gesto do sacerdote remetia o coroinha à imagem do capitão Bellini da seleção brasileira de futebol, levantando a taça na copa do mundo de 1958 na Suécia.

Ao puxar à boca para golpear o vinho, o monsenhor fez uma cara de feia, não bebeu do cálice bento e com uma voz irritada perguntou:

– A minha empregada está na igreja?

Ninguém entendeu o motivo e as freiras ficaram agitadas tentando compreender o que estava se passando. O agito se estendeu à sacristia enquanto o monsenhor virou-se para o único sacristão e ordenou para que encontrasse a empregada,  sentenciando: – Com a máxima urgência! .

Ocorreu uma pausa na missa, fato nunca antes presenciado na história da Igreja.

Já na sacristia uma das freiras entrou apavorada denunciando que alguém tinha misturado cachaça ao vinho do padre, no caso, o monsenhor.

Prevendo que aquela seria uma noite de perturbações, cobranças e castigos, de uma só vez “piãozinho”, como era carinhosamente chamado até então, arrancou as vestimentas, dependurou no armário e foi para casa, ainda confuso e sem saber direito o que o esperava. A noite foi agitada para ele, embora reinava uma certa calma no povoado. Nem soube se a missa chegou ao amém final.

Pela manhã, da varanda da casa, ele viu uma das freira atravessando o campinho do colégio em direção a sua casa. A mãe do menino-sacristão, não era muito ligada à igreja e também não era muito chegada às freiras, mas, numa comunidade conservadora, sempre se esperava pelo pior, ainda mais para quem tinha antecedentes. Num piscar de olhos rolou pra baixo da cama, na tentativa de se esconder, a uma distância que pudesse acompanhar a prosa da mãe e da freira, e claro, esperar a sentença.

Por um viés da porta, só via os pés da freira sobre o assoalho de madeira. Ela relatou o ocorrido na noite anterior como se o lugarejo não soubesse de nada. As tias e a vizinhança já tinham se encarregado de espalhar a noticia ainda naquela noite, contada com exageros, chegando a ter alguns requintes de crueldade.

Blá, blá, blá daqui; blá, blá, blá de lá e a mãe do pequeno sacristão interrompeu a conversa com uma pergunta que parecia um tanto quanto inocente, mas o suficiente para matar a curiosidade e deixar a freia com a pulga atrás da orelha:

– O que é que fazia uma garrafa de cachaça na geladeira do monsenhor?

Silêncio… e a prosa acabou por aí.

Por pregação histórica, o sacerdote deveria se alimentar apenas do “Sangue de Cristo”, e a presença da pinga poderia representar um pecado venial, um deslize sacerdotal.

A freira desconversou, gaguejou, circulou na sala e sem conseguir responder direito aquela pergunta traiçoeira e fulminante, tratou de ir embora sem mesmo despedir-se direito, alegando que o conselho da escola trataria do caso. Só não ficou claro se era o caso do sacristão ou da presença da água ardente na casa canônica.

Serapiãozinho, todo encagaçado continuou escondido, tremendo de medo e tentando controlar a respiração, e claro imaginando a sentença que seria aplicada.  – Talvez uma sova de laço com o cinto do pai que, por ser devoto, não perdoaria tal afronta ao sacerdote – pensou, ou quem sabe ficar uma semana sem ir ao campinho ou à praça para jogar bola e brincar com os amigos. Não haveria campeonato de arremesso de bosta contra o vento nem mesmo de cuspe à distância, duas modalidades em que ele era craque. Ao passar pela varanda, a mãe colocou a cabeça para dentro da janela do quarto e disse com um tom de voz suave que mais parecida de uma pessoa aliviada:

– Sai debaixo desta cama, e vem me ajudar na horta!

 

Os pessimistas e os injustiçados

 

Eu vi e ouvi senhores, a torcida inteira vaiar o Paulão, o Fabrício e o Rafael Moura, e as manifestações vinham acompanhadas de xingamentos, abafando a escalação que era anunciada pelo sistema de som do Gigante da Beira-Rio. Que torcedor impaciente.

Também pudera, o Rafael Moura sempre atrás da zaga, nunca em condições de receber um lançamento. O Fabrício além de indisciplinado anda falhando no apoio e o Paulão é uma peneira na zaga.

Eles podem ser injustiçados, mas o caminho entre o amor e o ódio é encurtado na direção da linha do gol. Basta um simples toque refinado na bola para que a paz seja selada.

Vejamos como estas coisas acontecem. O Moura marcou no gre-nal, o Paulão atropelou o Goiás, e de bicicleta. O Moura, no sábado (22/11), contra o Atlético Mineiro no Beira-Rio, escorou uma bola açucarada do Jorge Henrique e o Fabrício aos 48 da etapa final mandou um cruzado de esquerda matando o galo e devolvendo o G-4 ao internacional.

Estes meninos vem calando a boca dos pessimistas, tão fazendo o torcedor engolir a vaia e a baba e dando um pé na bunda dos incrédulos, na minha, inclusive.

 

O perna-de-pau

 

Certa manhã no campinho de futebol entre uma cerca de tela e algumas bergamoteiras, na parte dos fundos do colégio das freiras nos reunimos para definir as escalações das equipes de futebol durante uma aula de educação física. O pereirinha, que era franzino e desajeitado para andar na muleta que o seu pai fabricou na marcenaria em que trabalhava, sempre ficava à margem do gramado observando tudo, louco para que a bola fosse chutada para a lateral onde ele se esmerava para buscá-la. Naquela manhã, pereirinha inflou os pulmões. Cansado de ser o marrecão, e de ser tratado no diminutivo, resolveu dar um peitaço.

Entrou e fez gol, até com a ponta da muleta, para o delírio dos companheiros de equipe e o espanto dos adversários. Passes curtos, rápidas arrancadas pelo meio e pelas pontas, com o pé esquerdo (defeituoso desde que nasceu), enganchado no apoio de madeira que separava as duas canas da muleta, armou e desarmou jogadas. Um serelepe dentro das quatro linhas.

Depois daquele dia, seu nome perdeu o “inha”, passou a ser visto de outra maneira, digamos, recebeu um especial carinho daqueles que duvidavam da sua capacidade. Ele nunca mais saiu do time, atuou até de goleiro nas peladas de revezamento.

Isso faz muito tempo, lá pelo início dos anos sessenta quando recém o Brasil começava a dar seus primeiros passos num processo lento que no futuro se tornaria em política oficial de Educação Especial. Naquela manhã, antes mesmo do programa governamental ser criado, nós praticamos uma boa ação ao permitirmos que o Pereira entrasse em campo para brilhar dentro das quatro linhas.

Ah! Sim, o chamado peitaço, foi pelo fato dele ter enfrentado o professor e a turma inteira e pedir sem medo, receio ou timidez:

– Me inclui no time!