A corrupção do esporte tem seu monarca

Tá escrito no livro do Eduardo Galeano, “Futebol ao Sol e à Sombra”, que em 1974, ao assumir a presidência da FIFA, Jean Marie Faustin de Godefroid Havelange, anunciou: “Vim vender um produto chamado futebol”. Desde então, João Havelange exerce o poder absoluto sobre o futebol mundial. Foi durante o período em que esteve na frente da entidade que Havelange se associou a grandes empresas patrocinadoras e o futebol passou a ser um atrativo para as grandes marcas. Do seu palácio em Zurique, o todo poderoso Jean Mari, governa mais países que as Nações Unidas, tornando-se quase que mais poderoso que o Papa, pelos menos viajava mais do que o sumo pontífice e recebeu mais condecorações que qualquer herói de guerra.

Para ganhar força e prestígio, duplicou o numero de países participantes na copa do mundo e multiplicou o nebuloso balanço da FIFA. Os países da África, Oriente Médio e Ásia, que entraram como novos protagonistas, deram a ele uma ampla base de apoio político. Já o aporte financeiro veio por multinacionais como a Adidas e a Coca-Cola, estas conhecidas se teve outras, não apareceram na contabilidade. A nostalgia do futebol que movia milhões de torcedores foi adulterada por jogos de interesses e o verdadeiro espetáculo tornou-se um negócio de milhões em dinheiro, movido pela paixão do torcedor pelo esporte que consumiam roupas, tênis, refrigerantes, cervejas, alimentos, engordando as contas dos anunciantes e seus sócios vendendo a imagem de que estariam contribuindo para o espetáculo, e o pior, as grandes redes de comunicações avançando nesta fatia como hienas carniceiras nos gramados de uma savana chamada arena onde os combates entre os jogadores comandam a audiência. Havelange também tinha seus capangas, como o seu próprio genro Ricardo Teixeira deixou o Brasil e foi morar em Miami, depois de encurralado por uma investigação que revelou o seu envolvimento num escândalo internacional de corrupção. Aliás, Teixeira fugiu para não ser preso no Brasil, agora volta para não ser preso lá fora. Afinal, a cúpula da FIFA presa pelo FBI em Zurique, foi levada para os Estados Unidos, no quintal do Teixeira.  Por certo montará um Quartel General e ficará entrincheirado com o Marco Polo Del Nero formando uma força de resistência, amparado pela Justiça Brasileira, contra os americanos.

Havelange, hoje com 99 anos, permaneceu quase um quarto de século na presidência da FIFA e é duto acreditar de que ele nunca tenha saído de lá, e mais, tenha revelado seguidores em sua administração de negociatas milionárias de procedência duvidosa. Quem duvida que os pupilos presos pelo FBI como o José Maria Marin – vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, ; Eduardo Li – Presidente da Federação da Costa Rica; Eugênio Figueiredo – Presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol); Jeffrey Webb – Vice presidente da FIFA e da Confederação de Futebol da América do Norte, (Concacaf); Júlio Rocha – Presidente da Confederação Nicaraguense de Futebol; Rafael Esquível – Presidente da Federação Venezuelana de Futebol e   Costa Takkas que foi secretário-geral da Associação de Futebol (do paraíso fiscal) das Ilhas Cayman, não sejam alguns dos seguidores da doutrina implantada no mundo esportivo pelo todo poderoso, que reina absoluto e que do alto do seu trono levanta o cetro de ouro e ouve dos seus seguidores em forma de coro: Ave Lange!

 

A desconstrução da mídia

As grandes empresas jornalísticas parecem não se dar conta ou dão pouca importância às tendências e rumos da mídia. Continuam achando que o mundo gira em torno do seu próprio eixo e não admitem, embora sintam na pele, que estão perdendo campo e terreno para o jornalismo digital. Demitem, se desfazem de suas grandes estrelas, apertam aqui e ali, mas não querem ou encontram uma saída. As verbas públicas também vêm diminuindo e parece que a mídia tradicional não sabe sobreviver sem elas. O dinheiro certo em caixa no final do mês não está sendo suficiente e precisam buscar fora a diferença o que nunca foi fácil pra ninguém. Estão sentindo na carne o abandono do dinheiro fácil.

A Newsletter Farol que trata das tendências do jornalismo mundial, publica uma pesquisa baseada no relatório anual sobre o estado do jornalismo nos Estados Unidos feito pelo Instituto Pew Center, escancara a derrota da mídia tradicional para os tempos modernos, ao revelar que nos sites de notícias, a audiência oriunda de mobile segue crescendo, “quem acessa pelo desktop tem um tempo de permanência maior” observa a fonte. Outra constatação é a consolidação da web social, com o Facebook como porta de entrada de notícias para mais de 50% dos entrevistados. Aliado a isso, a importância das TVs locais vem registrando um crescimento de 3% de audiência nos telejornais noturnos e 2% nos matutinos, em detrimento à audiência das TVs a cabo que vem despencando em média de 8% nos principais canais. Outra tendência que aparece na pesquisa é o renascimento dos podcasts, constatando que só os programas da NPR (rádio pública americana), tiveram aumento de 41% nos downloads em um ano. O faturamento da mídia impressa segue caindo: 4% enquanto o faturamento das mídias digitais subiu, em média, 18%, sendo que 37% do total vêm do mobile (eram 25% ano passado).

Institutos de pesquisa do planeta debruçam um olhar detalhado em algumas áreas criticas que remetem a uma tendência mundial, que é o que nos interessa. A circulação dos jornais impressos, o Brasil não foge está fora desta  estatística, caiu 3%, perdendo em publicidade e faturamento. Não se tem um número especifico, cravado, mas se calcula que nos últimos dez anos esta queda tenha sido de 60 a 70 por cento, conseqüentemente, o número caiu pela metade. As redações se desfazem do seu patrimônio que é a experiência, a competência e a qualidade dos seus profissionais e perdem seu principal produto que é a credibilidade.

A instantaneidade da informação de hoje está no rádio, que me parece a mais ágil e atualizada das mídias tradicionais. A TV peca por explorar ao vivo a bandidagem e a violência. Programas de sensacionalismo com um âncora gritando, blasfemando, xingando a produção, psiconeurótico, desequilibrado e histérico diante das câmeras, já não chamam mais tanto a atenção e fazem com que os telespectadores migrem para outras plataformas. As redes sociais mostram de maneira bem mais civilizada cenas fortes em tempo real. Já os jornais e revistas trazem informações dormidas e não sabem trabalhar a noticia de maneira atraente. Quem sempre leu jornal não deixa de comprar um pela manhã, mas quer o aprofundamento da informação de maneira imparcial, divorciada do conservadorismo. O leitor não se deixa mais levar pela opinião do editorial, do formador de opinião que, na falta do que dizer acaba irritando o leitor que não se submete mais às idéias conservadoras de uma mídia que considera desatualizada com o seu tempo. O velho e bom Cartum, a inteligente e bem humorada Crônica sumiram para sempre e o leitor sente falta destes dois aliados que fizeram a história da mídia impressa no Brasil. Eram  liberdades de expressões democráticas que tornava bem mais agradáveis as manhãs dos estudantes, dos trabalhadores, das donas de casa, dos idosos nas praças e calçadas ou dos vagabundos que se identificavam com a malandragem traçada ou romanceada nas páginas dos jornais.

Esta anunciada morte lenta traz uma mensagem ao mundo contemporâneo. A necessária desconstrução da mídia tradicional que não sabe conviver com as novas plataformas. Pelo contrário, está se entregando a elas de forma promiscua, sem demonstrar reação. Esta profana cumplicidade no entanto, só transfere de mãos, passa para outros donos de outras grandes potências do mundo virtual como Maicros e Appels, que controlam o mundo em suas plataformas digitais. Vendem uma liberdade total para que os povos e as pessoas se comuniquem entre si, construam seus próprios sites, blogs, páginas nas redes sociais e se sintam em liberdade para usar e abusar dos temas e palavras. Por trás de tudo existe uma cortina invisível de onde eles controlam tudo e podem “tirar do ar”, de uma hora para outra, toda e qualquer manifestação que não agrade o patrão, sem que o seu autor saiba a origem ou de quem partiu a ordem. Claro que não estamos aqui condenando uma intervenção, denuncia e remoção de sites que promovam a violência, redes de exploração de menores, entre outras. O foco aqui é a liberdade de expressão.

Para escapar desta liberdade vigiada surgem alternativas que estão ao alcance e todos. O Softwer Livre é uma delas. Espécie de antídoto capaz de combater o monopólio virtual e permitir intervenções e adaptações de forma espontânea, sem que seja preciso pedir permissão ao seu proprietário para modificá-lo. É um guarda-chuvas para os excluídos. Assim, cada cidadão pode manusear suas ferramentas embutindo nelas suas idéias e compartilhar os assuntos que acham pertinentes ao mundo de hoje. A portabilidade a serviço de quem está cansado de receber as noticias de forma unilateral, escolhidas e trabalhadas por quem entende que aqueles são os assuntos que servem para a formação moral e intelectual de uma sociedade. Homens e mulheres livres para buscar, escolher, optar e repassar aquilo que realmente interessa, sem mediação obrigando a mídia a afundar nas suas escolhas, e mergulhar no seu próprio processo de desconstrução.

 

 

A menina que se tornou patricinha durante a terapia

O pai chega com o filho para uma sessão no analista. Do carro ao lado, desce uma mulher acompanhada da filha de uns dez anos, talvez um pouco mais. O filho enfrenta problemas na escola, mata aula, não faz os temas, acha que o mundo conspira contra ele, tem complexo de acne e anda ouvindo, cantando e agora começou a produzir letras de Funk.

A menina está radiante, pula em suas sandálias meia canela, com dois rabinhos no cabelo que saltitam feito crina de baio. Sim, ela tem cabelos avermelhados.

O menino de cabeça baixa e o pai, pegam o elevador, a menina e a mãe somem no corredor.

No divã, pai e filho travam uma discussão profunda sobre a qualidade da educação. O filho conclui que ela não evoluiu ao ponto de oferecer à altura os ensinamentos necessários à sua pré-adolescência.

O erro ocorreu ainda no período renascentista por conta de uma convulsão social que não acolheu, na medida, a doutrina escolar, deixando à mercê da santa Igreja, sentenciava o pai ateu e descrente de qualquer mudança. Mesmo porque ele havia tentado muitas sem sucesso, abandonando a faculdade, antes de completar o primeiro ano do curso de Filosofia. Já não tinha dado certo na sociologia, na psicologia, nem na pedagogia.

A discussão evoluiu de tal maneira que não pouparam críticas à Piaget e suas afirmações sobre o conhecimento cognitivo, e o Paulo Freire, que entrou de lambuja com a sua Pedagogia do Oprimido.

Os pensadores são teóricos e não põem a mão na massa, portanto não sabem nada sobre nossos filhos, esbravejou o pai sob o olhar do filho, admirado pelo conhecimento que dantes nunca havia demonstrado em casa. Sobrou ainda para Köhler que treinou macacos para condicioná-los a alcançar comida. Ficaram observando o comportamento dos chimpanzés subirem em caixas para alcançar bananas, enquanto os alunos não são primatas, denunciava o pai, sem qualquer possibilidade de defesa.

Quando o analista tentou avisar que a sessão havia acabado ouviu um sonoro “te cala”, ao melhor estilo do Rei Juan Carlos da Espanha ao amigo de Fidel e inimigo dos Ianques, Hugo Chaves. O certo é que o assunto ainda não tinha terminado de maneira que a sessão não podia ser encerrada aí, no calor do debate.

A verdade é que pai e filho tinham suas razões, e suas razões, eram compartilhadas apenas entre os dois. O pai defendendo o filho e culpando a escola pela deficiência educacional do menino. O menino pegando a onda para não estudar.

O analista, já consternado com a missão de mero ouvinte viu naquela cena toda a carga de omissão do pai sendo transferida para a Escola e concluiu que hoje o mundo está novamente em ebulição. Toda a globalização, o egoísmo e os conflitos virtuais da ética, remetem os povos de volta à inquisição.

Ao esboçarem uma análise fria e calculista sobre o ensino nas escolas públicas no Brasil culpando os professores que não sabem lidar com as crianças em sala de aula, o analista, de saco cheio, interrompeu a linha de pensamento dos dois e colocou-os pra fora da sala sem cobrar a conta.

Ao descerem do elevador viram a mãe e a filha saírem do mais badalado salão de beleza da cidade, localizado no fundo do corredor no andar térreo do edifício.

As duas estavam de cabelo armado, unhas feitas e caminhando com todo o cuidado para não estragar o penteado. Ela continuava sendo o que sempre fora, a socialite preferida dos colunistas. No entanto, a filha tinha virado patricinha. O menino continuava um mimado, só que melhor assumido.

Ps. Agradeço a colega de Ufrgs Andréia Navarro pela dica final do enredo.  

 

O Taurino e as bolas do Adroaldo

Encontro o cartunista Santiago num Pub na Cidade Baixa. O Batuque de Cordas dava o tom e a atriz Deborah Finocchiaro declamava Quintana. Estávamos todos lá para prestar uma homenagem ao cartunista Juska, que não apareceu. Uma daquelas noites onde a poesia, a música e o humor se encontram para o Sarau da Alice – ONG do jornal Boca de Rua, Direito à Memória e à Verdade, ao Nunca Mais e tantos outros.

Lá pelas tantas o criador do Macanudo Taurino Fagunde, lasca uma das suas.

– Sabe aquela da minissaia?

– Não, manda…

Como se obedecesse o traço da cartunagem, roteirou uma anedota curta e grossa:

– Mãe, vou sair e não sei a que horas eu volto.

– Mas a tua saía ta muito curta?

– Mãe, não se mete na minha vida, sou de maior, me visto como eu quero, sem essa de estragar a minha noite ta?

– Mas…

– Não tem mais nem menos, não quero ouvir e pronto.

– Mas a é que a tua saia tá curta demais

– E qual é o problema mãe?

– São as tuas bolas Adroaldo, elas ficam aparecendo.

Genial