Dona Firmina e a EJA

Dona Firmina aparenta uns cinquenta e poucos, mora na Zona Sul de Porto Alegre e espera um ônibus da linha Belém Novo. Frequenta aulas da EJA*, tudo para se ver livre do marido que trabalha durante o dia e a noite aparece em casa para reclamar da vida, feito um oprimido.

– Eu faço EJA, mais pra me encontrar com as amigas que também querem sair de casa, todas como eu, marido que incomoda e fica torturando a gente. Chega a ser repugnante!

– Hummmm!!!

– É meio bagunçadinha a coisa; quando o professor não aparece a gente fala da vida alheia (risos)

– A senhora trabalha?

– Em casa, sempre fui do lar. Meu filho e minha filha já tão se casando, eles quase nem aparecem, mas aquele traste vem todas as noites torrando a minha paciência.

– Aí a escola foi a salvação…

– Não, a igreja é a salvação, a escola é prá passar o meu tempo, me ocupar.

– A senhora… como é mesmo o seu nome?

– Firmina.

– A senhora, dona Firmina, não vai à escola para estudar?

– Claro que vou, mas para fazer amigos também. A gente se reúne nos fins de semana prá estudar nos livros e fazer os trabalhos. Quase tudo o que eles falam eu já tinha visto nos cadernos dos meus filhos, e eu mesma estudei até a quinta série. Gosto quando falam de desenhos, quadros, pinturas, contam como o mundo era antes da gente ter nascido.

– História?

– Isso, mostram desenhos, o que os índios faziam… gosto ainda das “disserções” que o professor passa no quadro e manda a gente escrever em casa.

– Dissertações?

– Acho que é isso, tenho um caderno e conto nele as minhas histórias. Parece um diário.

– Entendi, e o seu marido nunca pegou o seu diário?

– Se ele pegar tou frita… (risos)

– E por que o seu marido anda sempre de mau humor?

– Acho que ele tá cansado de tudo, as vezes penso que até de mim. Não sei, mas acho que ele tem uma saudade matadeira de onde veio. Veio muito moço pra cidade. Lá fora ele sempre disse que era feliz. Deveria ter suas namoradinhas, os amigos pra sacanagem. Aqui se casou comigo, tivemos os filhos e ele não pode mais voltar.

Encosta o ônibus prá Belém Novo e dona Firmina embarca com a amiga que recém conhecera na parada e que já se tornara a sua confidente. Foi embora sem me dar a oportunidade de perguntar onde ela estuda, se tem planos futuros, se a EJA é uma porta que se abre para a sua vida, se ela não assiste novela e, o mais curioso, se ela me emprestaria seu diário para eu dar uma olhadinha.

Também não consegui agradecer a mulher que estava com ela, que fez todas as perguntas, que a questionou o tempo todo e que deve ter descoberto muito mais histórias da dona Firmina durante a viagem de ônibus.

Acho que vocês concluíram que escrevo este relato sem ao menos ter feito uma única pergunta à personagem. Fui simplesmente um mero coadjuvante, bisbilhotando a vida alheia de alguém que para se livrar do marido, voltou aos bancos escolares. Moral da história:

– Caso não haja solução, procure a EJA.

 

*EJAÉ a modalidade de ensino, fundamental e médio, da rede escolar pública brasileira, também adotada por algumas redes particulares, que recebe os jovens e adultos que não completaram, por qualquer motivo, os anos da educação básica em idade apropriada.