O pescador artesanal e a burocracia oficial

 

No litoral de Santa Catarina descubro que o Ministério Público, certamente provocado pela Vigilância Sanitária quer, em 2016, proibir a venda de pescados para os bares e restaurantes, o que normalmente é feito na beira da praia, acabar com o livre comércio assim que os barcos retornarem do mar com a feira do dia.

Os pescadores que madrugam para buscar o peixe de cada dia, faça chuva, frio ou ventania, não podem mais barganhar os preços com os clientes e entregar linguado, anchova, tainha, corvina, viola, pescadinha, arraias, calamares, polvos, ostras, mariscos e camarões que abastecem o comércio. O medo dos pescadores no entanto é que a onda pegue também os moradores e turistas que levam para suas casas, na quantidade exata, em sacolinhas plásticas com a marca estampada do mercadinho da vila.

Sem entrar no mérito da ação da promotoria fico aqui pensando que a história e a tradição passada de geração para geração se vê em apuros com uma simples proibição que qualquer leigo sabe a que vem. Afinal é mais fácil arrancar tributos que quem tem apenas a força do braço para trabalhar.

Comprar peixe fresco na areia da praia é um costume que vem de barcos desde que se conhece o remo. Tema de musicas, livros, poemas onde o “vender o peixe” tornou-se um adágio, um ditado popular tão próximo, que não pode ser arrancado assim como se destrincha a um pescado. Os negros escravos, os índios, os portugueses que colonizaram esta costa rica e bela do país criaram seus filhos, formaram suas vilas e cidades rasgando ondas com a quilha das canoas para garantir o sustento do povo e desenvolver da economia do lugar.

Obrigar o pescador a virar negociante com papel de alvará, obrigações com o erário público que não lhe dá o mínimo de dignidade nem a tábua para limpar peixe e cobra tributos, fazer com que todo o lanço seja submetido à inspeção sanitária e exercer um controle ao qual o pescador não está acostumado é acabar com uma liberdade histórica dos costumes e da cultura de pesca e de renda na beira da praia.

Se tal ação é indispensável, que forme então esta mentalidade nas novas gerações e deixe que estes que estão aí continuem a vida que sempre tiveram vendendo seu peixe como sempre,m garantindo uma farta variedade de frutos do mar, de venda picada, no varejo, espantando as varejeiras, para garantir nossas paellas, sequências, moquecas, peixadas fritas e ensopadas e a misturadas com tudo um pouco nas caldeiradas. Por enquanto as normas vão valer para os pescadores da Costa Leste na ilha de Florianópolis, mas vai que se espalhem litoral afora.

Antes que isso ocorra estamos aqui, solidários, defendendo o nosso entreposto pelo fim das manobras, e para que o peixe que cair na rede só enfrente as marolas para chegar mais rápido à nossa mesa.

Enfim,

Oremos pelas boas intenções

Pelo incentivo à pesca artesanal

E pelo fim das sanções

Que só favorecem o atravessador parasitário

Que faz de hospedeiro o homem do mar

Amém!

 

O massacre das chuteiras

É o palco de tudo, é o tapete do futebol, é onde todos sonham pisar. Sim, a começar assim; pisado, cuspido, escarrado…

A sensível e indefesa grama é arrancada pelas travas das chuteiras de homens insensíveis ao que ela representa para eles. Ela amacia seus tombos, protege a bunda, as canelas, os joelhos, braços e cotovelos, ela é uma protetora natural que não faz parte do fardamento.

O gramado amacia o passo, define a velocidade da bola rasteira e traça os limites do campo. É xingado como se fossem culpados quando o campo acaba e a bola sai para a lateral.

No intervalo é espetado por ganchos de ferro golpeados por mãos rudes e carniceiras que rasgam sulcos preenchendo a ferida com punhados de terra ou areia. Depois recebe violentos impactos produzidos pelos pés do carrasco que também é dono das mãos que abriram chagas sem dar o mínimo de atenção para a dor que deve sentir a pobre e inocente grama esmeralda. E na hora do pênalti o gramado é arrancado pelas garras do batedor, ou afundado pelos pés e calcanhares do adversário.

Antes da partida é aparado, molhado e nas noites sem jogos vira a casa da luz vermelha. O gramado não tem sossego, mal recupera a suas folhas fraturadas pelas chuteiras dos craques, dos nem tão craques e dos que judiam da bola, e logo é submetido aos novos desafios do futebol que coloca em campo o perverso movimento que amassa, rasga, desfolha e desarruma a vasta cabeleira da bela e sofredora esmeralda.

Só tu para suportar este massacre, preservando o espetáculo que é a arte de jogar bola, que ironicamente fica mais belo às custas do teu sofrimento. Como tantos, me rendo aos gramados que nada tema ver com o lado obscuro da cartolagem. Alheio a tudo, o tapete verde cumpre a sua missão de oferecer conforto e segurança à molecada que, em reconhecimento, deita e rola malandragem.

 

A profecia do Velho Ateu

Eduardo Gudin disse um dia que fez a melodia da música Velho Ateu caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro e que certa vez quando dormia na casa da mãe dele, sonhou que uma multidão, na baixada fluminense, cantava a melodia que ele tinha feito colocando uma letra que dizia:

“Se eu fosse Deus a vida bem que melhorava

Se eu fosse Deus daria aos que não tem nada”.

O Velho Ateu é um dos sambas mais conhecidos e reproduzidos da Música Popular Brasileira e foi feito em 1978, numa época em que o Brasil vivia um regime de exceção, comandado pelos militares que num golpe, chegaram ao poder 14 anos antes. Um período obscuro, onde as minorias não tinham o direito de se manifestar publicamente, movimentos e sindicatos eram controlados, e a comunicação tratava de fazer seu autocontrole pelo bem das elites e pela não inclusão dos excluídos. Falar em distribuição de renda, igualdade e democracia eram pecados capitais. As pessoas viravam as costas, fugiam das ruas e se trancavam em casa quando a caravana de manifestantes passava. É o que aparece noutro trecho da música:

“E toda janela fechava

Pros versos que aquele poeta cantava

Talvez por medo das palavras

De um velho de mãos desarmadas”

Quase duas décadas depois o sonho de Gudin começou a se tornar realidade. Méritos a Itamar, FHC e Luiz Inácio, que em seus governos começaram a construir uma saída, cada um ao seu jeito, mas que culminou em políticas públicas com distribuição de renda e tirando o Brasil da linha da pobreza sem disparar um único tiro. Hoje o país não passa fome, mas a ganância dos poderosos tenta derrubar um modelo democrático que se consolida.

Disse Gudin que se tivesse o direito de escolher apenas uma das músicas feitas por ele, Velho Ateu seria a escolhida. E se lhe fosse dado o direito de uma única escolha na vida, e tivesse que optar entre retroceder para o bem das minorias ou a inclusão social por um mundo plural, com qual você ficava? Enquanto você decide eu vou cantando: “A vida bem que melhorava….”.

 

Carta aberta aos gremistas

Lamentamos profundamente fato ocorrido na tarde deste domingo (5/7) no Estádio Beira Rio. Não fomos responsáveis pelo episódio lamentável de tirar liderança do Grêmio no brasileirão. O culpado mesmo é um traíra que já foi do tricolor e que se infiltrou no inter, com a anuência da desastrada direção colorada. O tal de Ânderson veste pele de cordeiro e não passa de um Judas que só o Piffero e seus apóstolos insistem em aceitá-lo à mesa. Quando a nós, estamos testando nossos gladiadores para enfrentar Tigres do México. Ganhamos do Atlético, o jogo que deveríamos ter ganho, o da Libertadores. O jogo de hoje foi só mais um teste para definir peças fundamentais da máquina colorada. Uma destas engrenagens acabou comprometendo o sonho do “imortais” que subiu, fizer uma gracinha e afundou tal qual golfinho nas profundezas de um oceano que permite que algumas espécies nadem, nadem e morram na praia. Mil desculpas se somos destruidores de sonhos, mas é que somos acostumados a viver a realidade.

O significado da “maçã pra profe”

Um dia Isaac Newton estava debaixo de um pé de maçã quando levou uma pancada na cabeça. Uma fruta caíra da macieira e há quem diga que o impacto tenha alinhado seus miolos dando a ele a possibilidade de formular a lei da gravitação. É aquela tal lei que diz que tem um imã no meio da terra e que este imã atrai os corpos. Mas nada tem a ver com a atração entre homens e mulheres ou de gênero, esta é uma outra atração. Enfim, todos os corpos do universo que possuem massa atraem outros corpos, o que se conclui que é por isso que as pizzarias sempre estão lotadas.

Mesmo com toda esta explicação em que o próprio Newton afirmou muitas vezes de que a inspiração para formular sua teoria da gravitação foi a observação da queda de uma maçã de uma árvore, tem aqueles que tentam mudar a história, afirmando que a maçã é um mito e que ele não chegou à sua teoria de maneira repentina. Sim, até aí eu concordo que deve ter levado algum tempo para ele se recuperar do impacto, na têmpora, causado pela fruta e descobrir que a maçã não caiu por acaso e sim para contribuir com a ciência e apagar da história o seu papel de vilã como responsável pela expulsão de Adão e Eva do paraíso ou de entalar na garganta da Branca de Neve, quase fazendo com que o Dunga pronunciasse umas palavras antes da chegada do príncipe.

Desde então a maçã começou a ser relacionada ao saber, ao conhecimento, e sempre que um aluno andava mal das pernas na escola, em que as notas no boletim mais pareciam uma manifestação do PT, lá aparecia ele com uma maçã na tentativa de limpar a barra, contar com uma ajudinha, demonstração de carinho e afeto ou puxa-saquismo puro. Reza a lenda que a teoria da maçã até hoje é utilizada por empreiteiras.

Claro que tudo não passa de teorias, que não se deve acreditar em bruxas embora a maçã que ela entregou à Branca de Neve quase provocou sua morte, que Adão e Eva preferiram ouvir os conselhos de uma serpente e não as instruções divinas e comeram a maçã do pecado, ou que Newton estava realmente cochilando debaixo de uma árvore depois de ter ingerido uma garrafa de sidra e, portanto, nem sabe direito se o que caiu em sua cabeça foi mesmo uma maçã ou o casco da garrafa que ele havia deixado na forquilha.

Em todos os casos, não dê bola às conversas e teorias banais, afinal nem se sabe ao certo o que aconteceu com o Newton, muito menos o significado da maça para a professora. Portanto, não se omita em fazer feliz quem te ensinou a ler e escrever. Nunca deixe de cumprir com suas obrigações como aluno. Leve uma maçã para a profe, mesmo que seja a última vez que você vai vê-la numa sala de aula.

Para a amiga/professora da Ufrgs Susana Rangel