A acomodação dos parvos

Um dia eu comprei um fusca, bem judiadinho, mas era um fusca e realizei o sonho da família que era o de ter um. Mandei concertar o básico, deixei tudo nos trinques, mas aí um guarda não achando nenhum defeito na mecânica e muito menos na papelada resolveu fazer um pente fino e notou que o extintor de incêndio estava vencido. Inflou o peito e lascou um rosário de leis que me condenavam por andar sem um extintor. Consegui convencê-lo que estava recém retirando o carro da oficina e que o item em questão andava em falta no mercado, mas que eu providenciaria assim que chegasse no fornecedor “perto de casa”. Levei uma advertência e corri para o fornecedor pedindo para que ele defecasse um extintor caso não tivesse a pronta entrega. Me forneceu um usado como empréstimo. Semana seguinte lá fui buscar o novo a um preço módico de cento e quarenta reais. O carro em dia fui dormir aliviado naquela noite, mas já na manhã seguinte acordei com a notícia de que o item que me tirou o sono fora abolido, sim, o extintor não era mais necessário. Tentei voltar no tempo, pelo menos 24 horas para evitar ser passado para trás. Mas o tempo não volta e eu fiquei com cara de bobo.

Lembrei do tempo em que inventaram um kit de primeiros socorros, obrigatório nos carros, quem não tinha a polícia multava sem dó nem piedade para satisfazer a ganância do poder. O kit precisava ter gaze, esparadrapo, uma tesourinha, mercúrio e mais meia dúzia e tarecos que pouco adiantaria em caso de acidente e tenho cá minhas dúvidas se salvariam uma vida.

Fiquei imaginando o quanto somos engrupidos, iludidos, enganados e a nossa falta de capacidade de indignar. Pagamos o que não devemos, votamos em quem não conhecemos, ingerimos alimentos sem saber como são fabricados, ingerimos leite sem saber o que tem dentro, e mesmo sabendo, continuamos a beber. Não sabemos onde são gastos os recursos dos impostos e repetimos o que os outros dizem porque não sabemos separar o bem do mal. Condenamos o sonegador, mas somos capazes de pagar menos ao fornecedor e receber uma mercadoria sem nota fiscal. Condenamos a distribuição de renda e saímos às ruas para defender os que concentram o capital. Somos marionetes, palhaços do circo, bobos da corte, achamos graça, que somos felizes. Noutro dia vendo uma correria na rua um homem do alto da sua ironia deduziu que os moleques, na incapacidade de roubar um beijo, levam a bolsa da madame.

Entregamos as nossas armas e fomos orientados a não reagir. Nossas armas que deveriam estar seguras são as mesmas que estão nas mãos dos bandidos que nos assaltam, roubam e executam.

“Por favor, não reajam, entreguem tudo e avisem a polícia”.

A sensação de que não temos proteção de quem deveria dar segurança torna-se uma certeza quando a autoridade maior de um estado manda a população prender os bandidos para ajudar a polícia. É o fim de um ciclo, é a certeza de que o discurso não corresponde a prática. Os senhores da segurança pública do Rio Grande do Sul não querem ajuda do povo, eles querem é proteção.

Só restam duas alternativas: ficar em casa, ou sair sem saber se vai voltar. Até o dia que a tolerância acaba.

 

Onde está a notícia?

É cada vez mais difícil ligar a TV, o rádio ou comprar o jornal na banca da esquina. Estão acabando com o prazer de andar bem informado. A informação é repetida, é a mesma, é monótona e chega a dar nos nervos. A novidade para a maioria dos meios de comunicação está nas coisas menos importantes para seu público consumidor. Gostaria de saber qual é o impacto causado na população o fato do Brasil ser rebaixado por uma agência que mede de acordo com a medida que lhe convém? Isso muda drasticamente o cotidiano de quem trabalha, estuda, pega o ônibus ou vai comprar um pão na padaria?

O povo não entende deste assunto porque nunca foi preparado para entender, e quem se acha bom entendedor aciona a sua metralhadora giratória procurando atingir o coração do poder. Sabem perfeitamente que entre a mira e o alvo tem uma série de obstáculos, mas assim mesmo disparam. Fazem a mira e erram o alvo. São opiniões kamikazes dos criadores de falácias que tentam engrupir o povo.

O que repercute nas ruas, nos cafés, na padaria, no ônibus e nas conversas por aí, é o lado engraçado da informação, de que o ex-presidente Lula comemorou quando a agência Standard & Poor’s avaliou positivamente o Brasil anos atrás e agora quando a mesma agência rebaixa o grau de investimento brasileiro o próprio Lula, mesmo se contradizendo, não se dando por vencido, faz piada e ironiza os resultados.

O brasileiro é bem-humorado, um piadista por natureza e não perde a mania de fazer piada da “desgraça alheia”, está no sangue, vem do berço. A notícia aqui para ser bem consumida precisa ter ironia, o tempero favorito de quem vive do samba, carnaval e detesta cinzas. A mídia ainda não entendeu isso e continua preparando o prato que bem entende, desconhecendo o gosto do cliente.

A falência das manchetes

Um dos primeiros exemplos que tive sobre a importância da notícia e da boa manchete foi a de que se o cachorro mordesse a lingüiça, isso não era notícia. A notícia seria se a lingüiça mordesse o cachorro. Hoje o que se vê é um retrocesso à toda a doutrina do bom jornalismo. Noutro dia deu no rádio que um homem foi baleado na altura do viaduto. Fiquei imaginando que parte do corpo seria esta. Já que o repórter não explica, o ouvinte que se esforce para desembrulhar a notícia.

É difícil assimilar que a equipe está se “deslocando para o local”, frase recorrente dos repórteres. Pode estar correta porém, a cacofonia agride qualquer ouvido. Enquanto ficamos pensando como ocorre este deslocamento e a paulada na rima, não prestamos a devida atenção no resto da informação.

Não é uso comum e nem ocorre em todas as redações, mas parece que virou moda estampar no alto da página, na escalada do noticiário de TV em alto e bom tom, afirmar que políticos, ou donos de empreiteiras, ou  presidentes de bancos e outros delinqüentes de terno e gravata, negam envolvimento na operação Lava Jato. A manchete diz o óbvio, não traz novidade, afinal, negar é um direito do infrator. A chamada não tem o mínimo de criatividade, perde a credibilidade e acaba irritando o ouvinte, leitor, ou telespectador. Seria noticia se o denunciado confirmasse a acusação.

Faz-se urgente uma reciclagem para lembrar aos mancheteiros aquela história do cachorro e da lingüiça.