Lava jato para lavar a lama

As grandes cidades, tem seus profetas e viadutos. Porto Alegre não deixa de ter os seus. Profeta é professor que professa, disso todos sabem, o que não é comum, até agora, é um professor intimamente ligado aos acontecimentos do cotidiano com a visão das ruas.

Hoje temos o profeta online, que faz do passeio público o seu espaço e transforma as esquinas em salas de aula com capacidade para interpretar a situação da política, do comportamento social e ambiental do planeta.

Pois o profeta que veio da periferia para se instalar no coração da cidade, não usa meio termo para se comunicar. Faz do Jornal Boca de Rua a sua voz e contesta o sistema econômico mundial, porque vê no capitalismo uma forma de oprimir os povos, escravizar nações pobres para favorecer as grandes potências. E isso também é feito por meio da escolarização.

Assim, o professor e profeta que interpreta o mundo como alguém que frequenta espaços não escolares, vira poeta e sai rimando versos. Do alto do viaduto resume com perfeição duas situações do conturbado momento nacional:

“Pois deveriam fazer mais

Usar a Lava Jato

Para remover esta lama

Que vem de Minas Gerais”

 

 

Poema das hortaliças

A couve com seu coque tem um sonho: ser famosa, desfilar na passarela de canteiros e chegar na Broadway. Como no Rio Grande do Sul chove sem parar, não conseguia manter a cabeleira no lugar. Resolveu se transferir para Minas Gerais e foi morar em Mariana mas teve um baita azar. Fugiu da chuva – caiu na lama.

POEMA DAS HORTALIÇAS

Q-Q houve dona couve?
Perguntou a cebola
Na horta da dona Ana

Aqui tem muita chuva
Granizo, vento, ciclone
Jamais serei uma dama

Vou-me embora de Santana
Com destino a Mariana
Já comprei minha passagem
E parto em busca da fama

Q-Q houve dona couve?
Perguntou outra cebola
Na horta da outra dona
Logo abaixo da barragem

Cometi uma bobagem
Fui usar da malandragem
Cheguei faz uma semana
E já estou coberta de lama

 

Do Rio Doce ao Bataclan

Bastou um fato do outro lado do Atlântico para que o pobre e agonizante jornalismo esquecesse o seu principal desastre nacional e direcionasse o foco para os acontecimentos em Paris. Era o que faltava para que a grande mídia procurasse desviar a atenção de uma nação inteira, deixasse de investigar as causas locais e passasse a investigar as causas de uma ação premeditada de fundamentalistas fanáticos que, em nome da paz, fazem guerra contra quem, também em nome da paz, brinca de jogar bombas no território alheio.

Os atentados em Paris na última sexta-feira, vitimando centenas de pessoas na casa de shows Bataclan e em cinco outros locais, deixando feridos, abafaram por completo os noticiários das grades redes (não critico aqui diretamente os profissionais), mas os patrões, que já vinham demonstrando certo desconforto para falar da agonia de dois estados brasileiros e por conseqüência de um desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma barragem de lama tóxica que engoliu casas, pessoas e contaminou as águas do Rio Doce, um dos maiores do mundo, afetando o ecossistema de maneira incalculável. As informações tentavam culpar um suposto abalo sísmico pelo desastre e se resumiam ao tipo de providência que estava sendo tomadas, deixando em segundo plano a extensão do problema.  Os verdadeiros responsáveis procuravam amenizar a situação divulgando ações paliativas como as chamadas medidas emergenciais, comum e  necessárias em qualquer cataclisma, assim como: Vamos providenciar água e desatolar os mortos prá dizer que estamos fazendo a nossa parte.

Paris caiu do céu, justo no chafurdado momento brasileiro. O foco passou a ser a investigação dos responsáveis pelos atentados em Paris e a ameaça aos americanos, mesmo que o Estado Islâmico já tenha assumido a culpa. Aqui já se conhece os culpados, mas eles jamais assumirão a culpa. Nos dois casos, quem paga o preço pela ganância, pela intolerância, pela irracionalidade e a total falta de compromisso com o outro é aquele que está em casa e de uma hora para outra, sem aviso prévio, é encoberto pela lama ou está num show Heavy Metal e é atingido por uma rajada de balas oriundas do comércio internacional de armas. Morrem sem saber o motivo.

 

 

 

 

Texto de uma menina de 13 anos para alertar gente grande

Graziela Alves tem 13 anos, mora na cidade de Taubaté, São Paulo, e não tem o mínimo preconceito de falar sobre ela e sobre o que pensa quando o assunto é diversidade. Suas palavras superam a imbecilidade de homens e mulheres, ideologias políticas, moralistas, conservadoras e de religiosidade, dos que se achar no direito de ensinar bons costumes quando não sabem o que acontece do lado de fora da porta da sua casa, as vezes nem dentro. Enfim, orgulha-me uma juventude que pensa, fala, expõe seus pensamentos, que diz o que pensa, sem recato. Isso representa continuidade, uma nova geração preocupada com os conceitos, com o currículo da vida. Graziela merece ser lida por todos adolescentes porque é um exemplo de simplicidade, de texto direto e sem rodeios. Um exemplo de que da inocência das palavras se pode transformar um mundo cercado de violência, preconceito, homofobia, de intolerância à diversidade, tudo provocado pelo homem que não sabe conviver com suas próprias criações. Publico na íntegra o texto da pequena Grazi – PARA ALERTAR GENTE GRANDE:

“Meus professores nunca falam sobre questões que eu acho que deveriam ser mencionadas nas aulas. Raramente tem um comentário sobre como a sociedade sempre foi machista, sobre partes da história que a gente estuda (como quando excluíram as mulheres da constituição, na França), ou sobre a intolerância com judeus durante o holocausto.

Talvez seja por isso que tantas pessoas na minha sala pensem do jeito que pensam. Já me acostumei a ouvir sobre como Deus criou o homem e a mulher para ficarem juntos; ou que a mulher não deve usar certas roupas em público e agir de certo jeito para não provocar os homens. Eu, apesar de ser bem nova, me orgulho do que penso e digo quando me pedem opiniões. Acho que é tão importante discutir o feminismo e o movimento da comunidade LGBT quanto falar sobre guerras na síria e explicar fórmulas. Me sinto muito isolada no meio em que vivo, pois ninguém pensa como eu. Se dou minha opinião, logo me falam que o que eu estou dizendo é um absurdo, quando o verdadeiro absurdo é aquele racismo, machismo e aquela homofobia reproduzida pelos meus amigos. Pior que ouvir meninos sendo machistas, é ouvir todas essas coisas, e até coisas piores, vindo de meninas. Nós deveríamos nos aceitar do jeito que somos, e não rir de uma menina mais gordinha por usar uma calça mais colada ou um short mais curto. Deveríamos nos unir e nos importar com nós mesmas e com as outras, sem levar em consideração se é gorda, alta, “feia”, se tem cabelo liso ou cacheado. Deveríamos defender o nosso direito de nos expressarmos e agirmos como quisermos, não de um jeito x pois o jeito y vai “chamar a atenção dos meninos”. O feminismo é muito importante para mim e para todas as meninas e mulheres, pois é o movimento que luta e nos garante nossos direitos. Sem o feminismo, muitas mulheres ainda seriam chamadas de bruxas e queimadas em fogueiras. Hoje em dia, isso acontece do jeito “moderno”: somos chamadas de vários nomes por vivermos como queremos, sendo que esse é um direito de todas as pessoas, não importa o gênero. A sociedade, depois de tanto tempo, continua muito machista: se recusa a dar voz a quem precisa (nesse caso, as mulheres), e não faz nada para impedir que sejamos quase crucificadas. Tantas pessoas ainda pensam na mulher como um ser que deve ser calma e relaxada, elegante e bem arrumada em todas as situações. Não seria problema tratar as mulheres e meninas de um jeito x se tratássemos os homens e meninos desse mesmo jeito.

Temos que dar voz para todas as mulheres, pois todas nós merecemos ser ouvidas. Eu mereço dar minha opinião na sala de aula sem ficar nervosa por saber que irão rir de mim. Todas as meninas que tem cabelos cacheados merecem continuar desse jeito sem ter medo que digam que seus cabelos são “duros” ou “ruins”. Independente do que fez no passado, faz no presente ou fará no futuro, todas as mulheres merecem ter o direito de se vestirem, se expressarem, de agirem, pensarem, falarem e viverem como bem entenderem. Todas nós somos especiais. E eu queria muito que pais e professores ajudassem seus filhos, meus amigos, a entenderem isso.

Mulher não é um objeto.
Negro não é ladrão, nem escravo.
Gays, lésbicas, transsexuais e todos da comunidade LGBT não são pecadores.
Eles são quem são, e não podem mudar isso. Todos nós temos o direito de vivermos como quisermos, ao mesmo tempo que todos nós temos o dever de aceitar e respeitar os outros, independente de quem ou como for.”

Velha infância

As doenças mais comuns na minha infância eram conhecidas por sarampo, varíola, catapora, varicela, caxumba. Acho até que os sintomas de algumas eram semelhantes.  Quando uma criança empipocava a pele, ela era misturada às demais para que todas contraíssem o vírus ao mesmo tempo, o que facilitava o cuidado coletivo. Assim, todas ficariam curadas mais ou menos ao mesmo tempo, reduzindo desta forma o trabalho de acompanhamento. Outra providência era que todos perderiam o mesmo período de aula e retornavam juntas. Certa vez uma turma inteira contraiu varicela e a professora foi obrigada a suspender as aulas por falta de alunos. O maior cuidado era com a caxumba que podia descer para os testículos dos meninos e provocar um estrago.

Outra providência tomada pelos pais era a administração de remédios para combater verminose. Como a água não era tratada e poucos tinham acesso aos filtros de barro, as frutas eram consumidas no arvoredo sem o cuidado de lavar as mãos, a presença de vermes era certa. Não recordo se existiam campanhas de combate à verminose, mas lembro das “chumbadeiras de bichas”, uma espécie de benzedeira, que durante uma reza, uma ladainha, derramava chumbo derretido dentro de um copo de água que era colocado na cabeça da criança. Uma crença para controlar as lombrigas, como uma espécie de transição de um ciclo de acordo com o calendário gregoriano.

Sal amargo e óleo de rícino também eram outras maneiras de combater os vermes. De gosto horrível eram enfiados com uma colher goela adentro, sempre com a ajuda de um adulto para controlar os chutes e tapas e segurar fechada a boca da criança até a certeza de que aquela gosma já tinha tomado o rumo do estômago.

Isso foi há muitos anos, quando não existia saneamento básico, hospitais, postos de saúde, água filtrada, encanada, engarrafada, a abundância de Mac’s, Wal’s, Hut’s, Fast’s. Uréia naquele tempo era um produto colocado nas plantações de milho, hoje evoluiu tanto que é utilizado para o melhoramento do leite. Parecia até que as doenças também eram diferentes. Os alimentos tinham gosto e matavam a fome de verdade. Um tempo em que a qualidade da sobremesa mexia com as bichas.