Os bastidores da máfia do leite – Como agem seus agentes

Bastou pouco mais de uma hora de conversa com o promotor de Justiça Mauro Rockenbach do Ministério Público gaúcho, para entender como funcionam os bastidores da criminalidade organizada que transforma o leite num produto altamente rentável, onde nem o soro do queijo é descartado. Um crime que, pelo Código Penal, é inferior à adulteração de produtos saneantes como o formol por exemplo.

A história começa em maio de 2012, quando o promotor de Justiça Alcindo Bastos procurou Rockenbach, tendo em mãos uma série de denúncias que levam a crer na existência de uma máfia agindo na comercialização e na industrialização do leite.

De posse de resultados de análises feitas em laboratórios, a Operação Leite Compen$ado foi deflagrada, prendendo dezenas de pessoas e denunciando outras tantas, desde o produtor, passando pelo transportador, o intermediário e finalmente chegando a indústria.

Com o apoio das Polícias Federal, Civil e Militar, foi possível entrar nos postos de resfriamento, abordar transportadores e descobrir a rota do produto. Quase todos em cidades localizadas na bacia leiteira do Norte do Rio Grande do Sul onde estão localizadas as cidades de Erechim, Ibirubá, Horizontina, Três de Maio, Panambi, Santo Augusto, Gaurama, Esmeralda e Rondinha, respingando ainda em Guaporé, Venâncio Aires e Teutônia.

Rockenbach alerta que o leite é uma “substância altamente perecível” e que se presta para a adulteração com produtos químicos que aumentam o volume e mascaram a qualidade.

Além da compensação de água, para aumentar o volume, o leite que chega à sua mesa, é mascarado por uma série de outros produtos que você até então só conhecia na utilização de limpeza do assoalho da sua casa, calçadas, pocilgas ou até mesmo para encher o tanque do seu carro como:

– Etanol

– Ureia

– Peróxido de hidrogênio que é uma solução antisséptica

– Soda cáustica que contém substância alcalina

– Bicarbonato de sódio

– Cal virgem

– Cloreto de sódio o conhecido sal de cozinha

– Amido

– Soro

 

A medida certa para cada cem litros de leite é adicionar 10 litros de água e um litro de ureia por exemplo.

A adição de produtos químicos elimina os “seres vivos” o que permite guardar o leite resfriado por até quarto meses. Você já imaginou o que contém 100 em mil litros de leite? Pelo menos 100 litros de produtos nocivos à saúde, alguns deles, cancerígenos.

Claro que a indústria chia e diz que isso não é comprovado; pois que bebam por 100 dias deste leite aí descoberto nas fraudes, depois veremos o resultado.

Ia me esquecendo, o formol, pois numa das constatações feitas durante a operação, os falsários alegaram desconhecer a presença de formol. Ocorre que a ureia é usada há décadas no batismo do leite, a mesma ureia que é utilizada para o melhoramento das plantações, dos gramados. Ocorre que, não faz muito, os agricultores reclamaram para a indústria que o fertilizante, um grânulo branco, se dissolvia rapidamente. Os químicos da indústria desenvolveram então uma película utilizando formaldeído na composição, para retardar a dissolução e para isso, utilizaram formol. Realmente a máfia, traída, não se deu conta da presença desta solução cancerígena, conforma a Organização Mundial da Saúde, que proíbe seu uso, inclusive, para o alisamento de cabelos, mas que foi parar no leite.

Aliás, por falar em legislação, nada se compara os crimes de adulteração de alimentos com os de adulteração aos produtos usados na limpeza e conservação de ambientes, os chamados saneantes.

Vejamos então:

A pena aplicada para quem falsificar ou adulterar produtos alimentícios destinados ao consumo humano é de 4 a 8 anos de reclusão, e multa (art. 272, CF)

Já para quem adulterar matérias-primas, os insumos farmacêuticos, cosméticos e saneantes, a pena é de 10 a 15 anos de reclusão e multa (Art. 273, CF).

Conclui-se que o crime é menor para quem colocar produto de limpeza no leite do que quem coloca leite no peróxido de hidrogênio, por exemplo. (Bem lembrado Rockenbach)

Falamos do soro no leite, mas que soro é este?

Só pode ser o soro do queijo.

A indústria ressabiada com as constantes investidas dos órgãos de repressão, investigação e fiscalização, passou a recusar o leite nitidamente batizado. Para não perder a viagem os atravessadores vendem para as queijarias. No processo de fabricação do queijo é secretada uma seiva viscosa, meio transparente, meio leitosa chamada soro. Este soro não é colocado fora, ele volta para o leite.

Aliás, é bom tomar cuidado com o queijo ralado que você usa na sua no spaghetti ou na pizza. Pode ter de tudo, menos o que você acha que tem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

2 comentários em “Os bastidores da máfia do leite – Como agem seus agentes”

  1. Ser humano é o único animal que mama na fase adulta o leite de outra espécie escravizada para isso. E tudo por conta da indústria que incute a ideia de que precisamos de leite. O resto é decorrência disso. Ganância e erro.

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