Uma pequena história do rádio sobre o Brasil que partiu

Fico sabendo pelas redes sociais do prematuro passamento do amigo, radialista, operador de áudio de praticamente todas as emissoras de rádio que Passo Fundo já teve e tem. Conheci o Brasil Carvalho nos tempos da rádio Municipal, que era da prefeitura e depois fechou. Funcionava na Avenida Independência e lá era o meu endereço de todos os sábados à noite para apresentar o programa – Nova Geração Presente – criado pelos poetas Ubiratan Porto e Paulo Monteiro. O Ubiratan também se foi prematuramente. Tinha lá meus 16 para 17 anos quando comecei no rádio. Depois, fui para a Rádio Planalto e ingressei na televisão já com meus 20 anos.

Reencontrei o Brasil anos depois, durante uma transmissão da noite final do festival da Coxilha nativista, em Cruz Alta. Convidado pela própria Rádio Planalto, levei a tiracolo um estreante em comentários de festivais, o professor Renato Justi.

O Brasil instalou a parafernalha toda, testou áudio com a rádio em Passo Fundo e entregou a transmissão ao nosso cuidado.

– Mete bala que tá no ar, ordenou o Brasil

Começamos a transmitir em torno de 22 horas de um domingo e só terminamos lá pelas 3 horas da madrugada de segunda.

O Justi estava nervoso, era a primeira vez que ele encarava uma transmissão. Antes, no entanto, ele se limitava a dar palpites às emissoras da fronteira que tinham por característica, transmitir praticamente todos os festivais possíveis do Rio Grande do Sul. Fez gargarejo, impostou a voz, treinou por semanas para fazer bonito. Montamos um júri paralelo que nos auxiliou nos comentários e análises das músicas, eram ninguém mais que Aparício Silva Rilllo, Paixão Cortes, Jayme Caetano Braun, Telmo de Lima Freitas e Honeyde Bertussi. Também participaram das conversas o Nico Fagundes, o Lucio Yanel, o Pedro Ortaça e o Neto Fagundes que nos alcançou com exclusividade a lista das músicas vencedoras, antes de serem anunciadas oficialmente.

Diríamos que foi uma baita transmissão se não fosse um único porquê: a rádio não estava no ar. A comunicação via linha da telefônica era precária, era uma única linha de ida, sem retorno do estúdio. A telefonia liberava o sinal e seja lá o que deus quiser.

Foi o último festival que transmiti, o primeiro e último do Justi e o Brasil continuou no rádio. Claro que não teve culpa, o sinal caiu logo no início e ficamos com som local, falando entre nós mesmos. A rádio devolveu o patrocínio, cobriu nossas despesas e num acerto entre as partes cortamos o cachê.

Fica o meu consternado abraço à família do Brasil e este registro que com certeza ele também gostaria de ter contado, por se tratar da história do rádio.

 

Ultraje sem vigor

Não foram poucas vezes que me senti ultrajado por ouvir murmúrios imbecis de grupos que se acham musicais. A pobreza crítica e a aleatoriedade dos que se intitulam compositores, reproduzida nos instrumentos musicais e nos vocais das bandas formadas em berço esplêndido, tem dado provas de que num mundo em quem a comunicação avança o conhecimento regride.

Acham que falar de sexo, aliciamento de menores, cheirar, fumar e beber misturas alucinantes fazem a cabeça das pessoas. Um lixo consumido por quem não pensa, que vive na hereditariedade social de famílias chamadas tradicionais, cujos pais e avós foram beneficiados por generosas ofertas de contratos obscuros.

Partem fazendo barulho e falando besteiras, empilhando palavras sem fundamento e chamando aquilo de poesia, de letra, de música, na tentativa de arrebanhar fiéis que se aglomeram para consumir hipocrisia.

Nunca fui a um show do Ultraje a Rigor e nem sairia de casa para ver algum, porque seu rock, o decadente rock, não me chama a atenção. Isso fica claro quando um público vai ao Maracanã para assistir as verdadeiras lendas do rock e se deparam com um produto que não adquiriram, ou que nada tem a ver com o espetáculo, um prato que não está no cardápio. É ultrajante chamar o Ultraje de lixo? Se chamaram é porque tem motivo e que deem graças que ficou só no lixo, poderia ser muito pior.

Conselho de ladrão

Passava das nove horas da manhã de uma segunda-feira quando deixei o meu carro para revisão e numa parada quase na porta da concessionária, embarquei no primeiro ônibus em direção ao centro. Mal consegui me acomodar num dos bancos, coloquei o celular em cima da perna e estava desenrolando o fone de ouvidos, quando vi passar pelo corredor um cara valente com a mão na cintura, por debaixo da camiseta, anunciando um assalto. Logo um segundo, me parecendo mais calmo, chegou apaziguando os passageiros dizendo que era para ficarem calmos e entregassem os celulares. Quando vi, o meu tinha sumido, escorregou para o meio dos bancos, depois que uma senhora ao lado deu um salto e puxou a sua bolsa.

O ladrão mais calmo me encarou e pediu o aparelho.

– Meu, cadê o celular?

– Tá vendo algum?

– Eu vi que você tinha um quando entrou no ônibus.

– Rolou por baixo dos bancos, respondi.

Sem pestanejar ele colocou a mão no bolso da camisa, mas só encontrou um cartão TRI, aqueles que dão direito a você andar de ônibus e de trem.

Devolveu o cartão para o bolso dizendo:

– Hoje só queremos celulares!

Apalpou os bolsos das calças e enfiou a mão num dos bolsos de trás, o que quase gerou um protesto de minha parte, avocando o meu direito por se tratar de assédio ou invasão alheia. Mas ao ver a arma na mão do meliante resolvi perder a piada e salvar a vida.

Ele seguiu arrecadando celulares entre uma parada e a outra, sempre aos gritos para que todos mantivessem a calma.

Feita a “feira”, ainda esperou a porta abrir para descer e, neste meio tempo, olhou para mim com cara de mau e foi avisando:

– Vou te dar um conselho, não faça mais isso, não esconde o celular, é muito perigoso.

– Agradeci o conselho com um sinal de positivo.

Assim que o ônibus arrancou novamente, uma senhora que estava sentada no banco da frente me alcançou o celular, são e salvo.

Disso tudo fica uma lição: A total ausência de políticas de inclusão e segurança do governo gaúcho está colocando um novo profissional no mercado, que escolhe suas vítimas e sabe o que vai furtar delas. Ou sai para buscar apenas os itens que estão faltando na dispensa. Enfim, logo surgirá um curso de marketing para larápios, ensinando como tratar bem seus clientes e conquistar novos fornecedores.