Cuidado! Lobão convida Heitor, Cícero e Prático para um encontro – pode ser armadilha.

O cantor e compositor Lobão convidou Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque para uma espécie de debate ideológico pacífico com a desculpa de rever seus pontos de vista. Em meio a uma crise existencial ao que parece, o músico, que prometeu deixar o Brasil caso Dilma ou a esquerda vencessem as eleições, mas não cumpriu a promessa. Agora quer conversar como “pessoas crescidas que estão nessa luta por um Brasil mais justo” e mais, cada um à sua maneira. Lobão, todos sabem, é admirado pela direita e os outros defendem idéias de esquerda e no caso do Chico, já foi hostilizado por um grupo playboy da noite carioca.

O que preocupa é que a espécie predadora nunca foi confiável. É só rememorar histórias como Chapeuzinho Vermelho – Charles Perrault, com o lobo tentando se passar por vovozinha, ou como vilão na história dos Três Porquinhos de Jacobs. Nos dois casos, tanto a ira quanto a gula denunciam os pecados capitais, fora a traição que é uma das virtudes de caça da alcateia.

Portanto, é preciso ter cuidado, muito cuidado ao aceitar uma proposta sinistra. Afinal, lobo em pele de cordeiro é o que mais se encontra por aí, na calada da noite ou no sol do meio dia.

Se confirmado, que o encontro ocorra nomRio, de pr gerência na Floresta da Tijuca mas, por precaução, é melhor que vá junto o caçador e se reservem algumas pedras para a história ficar completa e ter certeza de que o Lobão vai desaparecer quando for beber água.

Androvaldo e Quaresma – O suborno na sala dos espelhos

– Eu não tô a fim de pegar o pato sozinho, dizia o Androvaldo no salão dos espelhos, quase vazio.

Ele estava por todos os lados e falava consigo mesmo. Os espelhos da direita mostravam um Androvaldo tenso xingando a mãe do padre. Os da esquerda um Androvaldo sincero e disposto a ir até o fim com aquele desafio em que se meteu. Às costas estava Aquiles, um garçom de terno preto, camisa clara e gravata borboleta vermelha, trazia uma bandeja na mão esquerda sem copo ou comanda, abraçado ao Quaresma, um pato branco de bico amarelo-laranja, um marreco de Pequim, mas para os apostadores era um pato, um prato cheio para a platéia que se alvoroçava atrás dos espelhos.

O clube dos vidraceiros tinha como casa de apostas o salão dos espelhos, um octógono em forma de arena de onde era possível acompanhar competições como a mais nova modalidade: Largar o pato no picadeiro, sair em perseguição sobre a plataforma de tabuão coberta de cera, calçando meias de lã. A pequena vantagem do pato é que ele voa, mas Androvaldo, bailarino da escolinha de artes cênicas, queria manter-se em pé, deslizando na pista, na direção do pato, como encenava o Lago dos Cisnes.

Dada a largada o garçom lançou o Quaresma feito boliche mirando o meio do salão. Androvaldo partiu acrobaticamente usando um pé, depois o outro como se planasse numa pista de gelo. A regra era não encostar sequer um fio de cabelo nos espelhos. Quaresma bateu asas e foi para um lado. Depois de passar lotado, fazer uma pirueta e um sit-spin perfeito, Androvaldo quase encostou o traseiro num dos espelhos. Voltou à carga, mas desta vez fazendo um zig-zag para confundir Quaresma que tentou voar em direção aos demais patos que nada mais eram que sua imagem multiplicada nos espelhos, mas abortou a investida quando viu que todos vinham em sua direção.

Quaresma procurava os cantos o que dificultava o campo de ação de Androvaldo que a esta altura já ensaiava uma ação maquiavélica para garantir o dinheiro das apostas do clube dos vidraceiros. Realimentando a ideia inicial de que não pegaria o pato sozinho, resolveu que usaria um laranja para consumar o fato. Afinal em toda a falcatrua sempre tem um laranja, concluiu que não seria difícil encontrar um, já que o garçom que ali estava vivia de gorjetas e por certo não recusaria uma propina, mesmo que viesse em forma de suborno.

Era um show de sincronia na pista até que o pato passou a demonstrar sinais de cansaço. Era a hora de agir, mas Quaresma era esperto e usou Aquiles como escudo posicionando-se junto aos seus calcanhares. Afinal, Aquiles era seu dono e o criara desde que, talvez por descuido, foi chocado por uma galinha. Não guardava rancores por ter sido abandonado pelos pais ainda na casca do ovo.

Armou-se a grande oportunidade e sem perda de tempo, Androvaldo partiu em direção aos dois num footwork perfeito aplicando uma rasteira nos calcanhares de Aquiles que em milésimos de segundos desabou sem dó nem piedade sobre o coitado do Quaresma que mal pode fazer quá!!!

Era o fim de uma luta onde o pobre do pato representando os excluídos levara um golpe traiçoeiro, e como sempre, fora das regras do jogo.  Aquiles pegou o pato e Androvaldo o dinheiro das apostas. Quaresma pagou o pato.

Enquanto o Quaresma cambaleava no picadeiro juntando suas penas, o contribuinte protestava o dinheiro pago para assistir à roubalheira. Perto dali Androvaldo colocava uma “ajudinha” no bolso do garçom e outra na mão do juiz… sim, havia um juiz para aplicar as regras.

Quando a verdade vai dar uma volta

 

O filho, pré-adolescente, faz o tema de casa na mesa da sala, uma redação sobre a verdade, enquanto o pai, no sofá, mexe no celular lendo ou respondendo mensagens.

– Pai, o que é uma verdade?

– Verdade? Bom, verdade… é dizer o que é, é ser sincero.

– Um pai sempre diz a verdade para o filho?

– Mas é claro, quando eu menti prá você?

– Quando eu era pequeno você disse que a carne do boi crescia na bandeja e da galinha num saco plástico.

– Se eu falasse a verdade você não comeria carne.

– E a televisão que manda beber leite porque é saudável, é a mesma que diz que ele está cheio de mistura (uréia, água oxigenada, formol, bicarbonato).

– Isso é um crime, eles deveriam obrigar essa gente a tomar um caminhão de leite adulterado.

– Você mesmo disse que mentiram dizendo que era obrigatório o uso de extintor de incêndio nos carros.

– Ah, isso sim, mentiram e roubaram da gente… foi igual o golpe do kit de primeiros socorros aplicado antigamente.

– Você acredita que políticos falam a verdade?

– Eles tentam chamar a atenção.

– Antes da eleição é uma coisa, depois é outra.

– Há uma grande diferença entre o discurso e a prática.

– E esta gente conhecida que a policia prende, tá sempre negando a verdade, nunca tem culpa, sempre são inocentes.

– Eles tem o direito de negar.

– Em quem vou acreditar?

O pai olha para o filho com ar penalizado, e não diz nada.

– Você mesmo disse pai, que o Neymar deixou o Brasil na mão na final da copa inventando uma lesão.

– Foi um show pra TV mostrar, autopromoção pra valorizar seu passe.

– O Galvão mentiu?

– Ele, a comissão técnica, a FIFA, os patrocinadores…

– Você acha que o Neymar é um bruxo?

– Bruxo?

– Sim, previu o Brasil levaria sete gols da Alemanha e inventou a lesão, foi você mesmo quem falou.

– Eu, o Brasil inteiro e o Romário

– Tá difícil escrever sobre a verdade se só encontro mentiras.

– Ela deve estar em algum lugar.

– Você mesmo me disse que foi a babá quem provocou a separação do Chimbinha e da Joelma do Calypso, bem como aconteceu com a Gisele Bündchen.

– Li na coluna do Simão, acho.

– Viu, além de não ter certeza, ainda pode ser uma baita mentira.

– Tá filho, chega de perguntas, faz a tua redação que eu vou assistir o noticiário da televisão.

– Então vamos lá, eu vou escrever assim pai, ouve aí: “Em quem vou acreditar? Quem fala a verdade? Para onde ela foi? Deve ter saído para dar um passeio durante o noticiário; anda de mal com a televisão que tem boicotado a sua presença. A verdade não tem casa e aqui em casa é um exemplo de que ela sumiu já faz um bom tempo”.

Pausa

O pai desliga a TV

Silêncio…

 

 

Diploma pra quê?

 

Afirmando que os estudantes não são clientes que vêm comprar certificados e criticando o modelo universitário com seus conteúdos voltados à formação de mão de obra para o mercado de trabalho, o filósofo italiano, Nuccio Ordine, abriu a Aula Magna do semestre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para um Salão de Atos lotado de professores e alunos. “Se você perguntar aos calouros – por que estão na Universidade? – a resposta geral sempre é para conseguir um diploma.

Não poderia ser diferente quando temos um mercado consumista, voltado para a concorrência e a vocação para espremer o empregado até a última gota de maneira que ele não pense e assim obedeça e não reclame, é obrigado a reduzir a convivência social ou familiar ao máximo para que durma cedo, madrugue e produza mais.

A escola e a universidade deveriam ser uma  busca pelo melhor, para ser livre. O saber ensina a criticar, para que se pense com autonomia. Mas, o contexto social hoje tem uma lógica utilitarista, com imposição de ganho que proíbe e impede a paixão em nome do prazer desinteressado e gratuito. Vivemos num contexto político dominado pela ditadura da maximização do lucro. Temos dificuldade em responder nossos próprios questionamentos. A máquina que deveria disponibilizar espaços para que a humanidade tivesse tempo para viver e raciocinar sobre o significado das coisas acaba alienando e escravizando. O vocabulário, o poder de identificar o certo do errado, de separar o bem do mal, de ouvir e de pensar vão se distanciando a partir da intolerância, da falta de transparência, da imposição de idéias e palavras, da analise unilateral das coisas, de se achar a única pessoa que pensa corretamente no universo ao ponto de se considerar um Deus e sair pregando o evangelho, abrindo templos e recolhendo as riquezas que tanto condena e espalhando o medo do apocalipse.

Voltamos então a esta ganância de querer mais e comprar sua liberdade. Nuccio lembra que no universo do utilitarismo uma faca é melhor que uma poesia, porque o instrumento é material. O pensador John Lock já definia que “Ler e escrever versos impede de ganhar dinheiro e coloca em risco o patrimônio familiar”. Portanto, pouco se valoriza o bem cultural, muito embora Grécia e Itália souberam ganhar dinheiro com seus patrimônios da humanidade, distribuídos ao ar livre pelos dois países. Outros continentes preferem destruir a história em nome de um progresso limitado, na maioria das vezes assassino e avassalador.

Assim é na educação, as universidades e escolas estão transformadas em empresas, onde o crédito e o débito são as principais palavras e a única ideia que vendem é a do diploma que mais tarde vai amarelar numa parede a espera de um reconhecimento.

Enfim, não sabemos dar importância aos saberes inúteis que deveriam nutrir o espírito. Não temos consciência sobre as coisas que nos fazem sobreviver. Ao citar uma anedota de Wallace, Nuccio resume esta falta de consciência das coisas que nos cercam: “Dois jovens peixes nadando, encontram um peixe ancião em direção oposta, que abana pros jovens e pergunta – como está a água? Os jovens se olham e se questionam – água? O que é isto?”.

Não se pode distinguir o que nos cerca porque não somos educados para entender, mas para obedecer e ter um diploma na parede que também não se sabe pra quê.

Quando os funerais eram bem comemorados

Antigamente os funerais eram bem comemorados. Tinha parente que só aparecia no velório. Certo dia um locutor da rádio ao ler o convite para enterro convidou toda a cidade para as “comemorações” e por pouco não revelou o menu. Sim, o menu porque dia de velório misturava dor, sentimentos e comilança.

Quando alguma pessoa idosa estava por morrer, já desenganado pelo médico que geralmente estipulava uma “data de partida”, se iniciava na casa um verdadeiro ritual de preparação de doces e salgados para receber as visitas.

Carneava-se porco, galinha ou se o morto era bem popular, que reuniria boa parte da cidade, sacrificava-se uma rês. Também tinha velório humilde que distribuía bolachinhas, que ficavam por meses guardadas em latas, e eram servidas com chá, mate, leite e café preto.

Outros se resumiam numa pastelaria, como foi o caso do seu Mano, que era o diminutivo de Manoel. No leito da morte, sentiu um cheiro de fritura que vinha da cozinha e chamou a neta para saber o que estavam preparando. Ao saber que era pastel, pediu para que a neta trouxesse um para ele, mas ouviu da voz inocente da menina:

– A vó disse que os pasteis são pro velório!

Quando o seu Vito, fazendeiro famoso e de bom coração estava por morrer, logo toda a parentaia foi avisada. No dia seguinte começaram a chegar os convidados e nada dele partir. Passaram-se três longos dias até que o seu Vito se entregou. Uma verdadeira quermesse.

Os funerais eram locais de encontros de familiares e movimentavam as comunidades. Os adultos se revezavam em confortar os de casa, recordavam bons e maus momentos da vida do falecido. Não era tão raro assim ouvir gargalhadas quando o assunto era o lado engraçado de quem partia. Às crianças cabia espantar as moscas que rondavam o caixão.

Hoje a tradição ficou de lado, a falta de tempo, a facilidade de se deslocar, as redes sociais oferecem on-line, quer dizer, transmitem ao vivo a cerimonia e também, pelo fato dos velórios não serem mais em casa. Isso tudo tornou sem graça o último adeus.

 

A Utilidade do Inútil

O tema norteia a Aula Magna que abre o ano acadêmico de 2016 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no próximo dia 10 às 10 horas da manhã no Salão de Atos da UFRGS. Na “lousa”, professor e filósofo italiano Nuccio Ordine, dono de uma extensa ficha intelectual dedicado ao estudo da rebeldia – e de um rebelde em particular, o teólogo Giordano Bruno, assassinado pela Inquisição por defender ideias consideradas heréticas, como um sistema solar heliocêntrico e de um universo infinito. Odine defende ainda outro tipo de rebeldia, um tipo de conhecimento que muitos classificariam de “inútil”.

No mais recente livro de Odine A Utilidade do Inútil (Editora Zahar com tradução do professor da UFRGS Luiz Carlos Bombassaro), ele faz uma comparação simples, mas que leva a aprofundar o pensamento sobre as conseqüências quando a utilidade do capitalismo, um sistema que defende que o tempo é dinheiro e o que vale é o empreendedorismo. “No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para o que serve a música, a literatura ou a arte”.

A Utilidade do Inútil não deixa de ser uma crítica a determinadas características incontornáveis da cultura contemporânea como a de atrelar o valor de algo a sua possibilidade de gerar lucro. Isso reflete na idéia de que tudo que se aprende tem que ser direcionada a preparação para o mercado. Na hora do aperto e do corte de gastos o gatilho sobra para as atividades artísticas, afetando privilégios como os direitos do consumidor à cidadania, na sociedade e mesmo na escola.

A fome do capital caça o que não se devora.

A Aula Magna tem entrada franca, por ordem de chegada. Quem não for pode acompanhar pela internet em aovivo.ufrgs.br/ufrgstv/

 

Ladainhas, novenas e capitéis

É o que dá entrar no facebook sem estar preparado para tanta informação inútil de maneira nada aproveitável. O ócio campeia nas redes sociais e o ódio é apenas uma forma de acobertar a covardia daqueles que não tem coragem de falar em público. Sim, as redes sociais são públicas, mas também são privadas para quem quer se esconder por detrás de uma tela golpeando o teclado, espargindo toda a raiva e o veneno de quem não foi convidado para entrar, mas que também não tem a menor intenção de sair.

São nômades a procura de um lugar seguro para acomodar a caravana. São ricos, pobres, depressivos, hiperativos, ladrões, bandidos, beatos, honestos, íntegros ou safados, bem ou mal educados, que se empoderam de uma ferramenta democrática que compartilha amores, desamores, paixões repentinas, declarações, assuntos sérios e besteiras, na ânsia de levar o mais longe possível, atingir o maior número de internautas na esperança de que leiam longas, repetidas e desanimadoras ladainhas bem como pedem para compartilhar suas novenas com intenção de agradar os santos, os arcanjos e os querubins e realizar seus desejos solicitados durante promessas fervorosas feitas com devoção no capitel de cada estrada. (pra quem não sabe ou não é daqui – capitéis são pequenos santuários, locais de oração, instalados em estradas rurais substituindo as capelas)

O facebook acima de tudo é um lugar para extrapolar, judiar, jurar, amar ou tripudiar e pedir desculpas. Pode acomodar a mais pura inocência ou acobertar a mais cruel ameaça e o mais brutal dos crimes.

O que não se quer dizer cara a cara se diz no face, lugar sagrado, onde o bem e o mal disputam o mesmo espaço.