Deus ficou tiririca

Parlamentares regidos pelo fervor na devoção, na crença e na Tradição Família e Propriedade – TFP, deram um show no impeachment. Deputados justificando seu voto em nome de Deus, depois, claro, da família e dos seus interesses. Foi um festival de louvor que até Deus duvida. Apelar pela devoção não faz um Brasil melhor, o que faz é a consciência do voto e quem tem consciência não precisa justificar suas ações. Transferir atitudes é não assumir a responsabilidade, é temer a verdade e faltar com o seu compromisso para o qual foi indicado. É uma forma de não se sentir culpado, afinal, foi Deus quem mandou. Falar em nome de Deus ou do Estado é temeroso porque engloba uma série de situações e de interesses. Já em nome do eleitor, do pai, da mãe, do filho ou de quem quer que seja não descredencia a justificativa. No ganha ou perde tudo é justificável, até mesmo cunhar dizeres na roupa ou na pele, mas falar em nome de Deus é muito ariscado e pior ainda é representá-lo, já que o criador supremo é onipotente e pode não ter gostado nada do que rolou na Câmara dos deputados que aprovou o Impeachment da presidenta Dilma na noite deste domingo, 17 de abril de 2016.

O cara é Cunha

Começa a pesar cada vez menos se o Eduardo Cunha, a esposa e a filha, são beneficiários de quatro contas num banco da Suíça no valor de 2,4 milhões de francos;

Se recebeu 1,3 milhões francos suíços em propina para exploração de petróleo pela Petrobrás Benin, África do Sul;

Se os delatores da Operação Lava-Jato, Júlio Camargo, Fernando Baiano, Alberto Youssef e João Henriques confirmassem à justiça que Cunha cobrou o pagamento de US$ 5 milhões em propina para viabilizar contratos de navio-sonda da Petrobras;

Se Cunha foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção e lavagem de dinheiro; se a própria PGR tenha investigado o deputado sobre a cobrança de propina de R$ 52 milhões do consórcio formado por OAS, Odebrecht e Carioca Christiani Nielsen Engenharia, que atuava na obra do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, denúncias que foram feitas por meio de delação premiada;

Ou ainda que o presidente da Câmara utiliza o cargo para atrapalhar as investigações conduzidas pela Lava-Jato, através de fatos comprovados pela Procuradoria e que aparecem numa lista com 11 razões para retirar Cunha da presidência da Câmara dos Deputados.

O que importa mesmo, e é o que muitos não estão se dando conta, é que o Cunha conseguiu um fato inédito, dantes nunca visto – fazer o Congresso Nacional funcionar nos finais de semana, com todos os deputados trabalhando pelo bem de todos – assim como é no comércio, na indústria, no trabalho informal. Desta vez as forças estarão concentradas para destituir a presidenta do país embora boa parte duvide que ela não seja culpada das acusações que recaem sobre si para sofrer um processo de cassação.

Mas isso vai ser jogo rápido, em que a guilhotina pode disparar ou trancar, agradar ou desagradar muita gente.

O importante mesmo é o que vem depois desta oportuna providência. O costume de votar nos finais de semana os grandes projetos que tramitam na Casa como a reforma política, por exemplo, tomando conta dos noticiários de sábado e domingo. Imaginem, se a votação do Impeachment fez com que a rodada dos campeonatos estaduais fosse alterada para que as emissoras de televisão pudessem transmitir ao vivo o voto de cada um dos deputados pelo afastamento do atual governo, a mobilização que seria para mostrar à nação as grandes decisões do parlamento.

A população poderá freqüentar a praça dos três poderes levanto mate, cerveja gelada, fazer churrasquinho ou piquenique acompanhando os embates em plenário. Brasília não será mais a mesma com o Congresso aberto nos finais de semana. Não teremos aviões lotados saindo na quinta à noite e retornando na segunda de manhã, porque os deputados ficarão na capital federal votando projetos de interesse da sociedade. Sim, porque a corrupção estará controlada, já que a verdadeira culpada foi afastada, cessam as investigações e o país passa a viver outro momento de realizações e crescimento.

Mas eu ia esquecendo outra possibilidade que poderá ocupar os congressistas – a possibilidade de Cunha assumir a presidência da República do Brasil. Ele e o Temer caçam a Dilma, depois, Cunha pega o mesmo processo de Impeachment e caça o Temer por ter sido cúmplice da Dilma, por saber das pedaladas e até assinado algumas.

Assim, o inovador Eduardo Cunha assume o poder fazendo todos trabalharem nos finais de semana e colocar em dia o que historicamente tem ficado para trás.

Que a passagem do Temer seja rápida porque queremos Cunha – ele é o cara.

Domingo de decisões tem largos e rabudos

 

No futebol a palavra rabudo cabe ao goleiro que conta com toda a sorte para defender a cidadela. É aquele que fecha o gol ou ainda é largo o suficiente para não deixar a bola entrar, ou ao time que inexplicavelmente vira o jogo ou marca um gol no apagar das luzes do estádio de futebol, quer dizer, aos 50 do segundo tempo.

O campinho do colégio as freiras em Colorado, cidade em que nasci no Rio Grande do Sul, era desnivelado e de chão batido, tanto que um tempo se jogava chutando pra cima e outro pra baixo tamanho era o declive do terreno. Lá eu jogava no gol quando criança. O time que defendia a meta do lado de baixo tinha que contar com a sorte para não levar uma goleada. Além da sorte, ter um goleiro rabudo. Muita bolada na boca, de sair sangue dos beiços e muito dedo destroncado por conta das batalhas debaixo das traves. Quando não era uma bolada, era uma voadora que geralmente acertava a boca do estômago. A bola, meio murcha, nunca tinha uma direção certa e geralmente desviava pelo caminho. Enfim, o arqueiro precisava ser rápido e certeiro onde os reflexos eram testados em tempo real.

Quem viu o jogo Glória de Vacaria e o Internacional na tarde deste domingo teve uma rara demonstração do que é ser um rabudo. O goleiro Roballo, do Glória, contou com a trave, as pernas, o corpo e até o calcanhar para defender sua equipe. No primeiro gol Colorado ele fez a chamada defesa à queima roupa – é aquela que a bola vem quente e parece queimar o fardamento – mas não adiantou porque Vitinho completou para as redes. Em seguida Roballo segurou um rebote do próprio Vitinho! e sem contar as boladas no travessão.

O exemplo mais característico de um goleiro rabudo veio aos 40 do segundo tempo, quando o jogo já estava dois a zero, Marquinhos bateu um pênalti, a bola bateu na trave esquerda e correu em cima da linha, por tas do arqueiro  para beijar a trave direita e na volta o próprio Marquinhos tentou completar para o gol e aí a bola beijou o calcanhar do Roballo, embora o lance não valesse, ficou claro que rabudo é rabudo, seja nas traves, seja no pé.

Outro exemplo de rabudo foi o Grêmio achar um gol aos 50 minutos de jogo e empatar com o Juventude de Caxias.

Isso faz renascer uma pergunta pertinente:

– Como é que um time com tanta sorte forma uma geração sem títulos?

O goleiro do Juventude não foi largo, já o Roballo foi rabudo.