Levando um lero

Dia de chuva, de mormaço, marrento, eu cheio de textos por fazer, usando repelente para afastar a chicungunha, aí toca o telefone fixo, é do telemarketing:

Cartoon telemarketinDaniel

– Bom dia, aqui é Mirela da Net, com quem eu falo.

– Cáspio

– Como?

– Cáspio, sabe o mar Cáspio?

– Só conheço Cidreira senhor

– É um mar que não tem saída pro mar.

– Não entendi senhor

– Não vem ao caso, é Mirela com “I”

– Com “Y”, e dois elles

– Sei

– Estou ligando senhor pra dizer que a Net e a Oi agora estão juntas, o senhor sabia?

– Não fazia ideia

– Então, eu estou ligando para lhe oferecer um plano tipo ilimitado.

– Opa, ilimitado?

– De Oi pra Oi.

– Assim não me interessa

– Ah, mas tem twitter livre

– Não uso twitter

– Mas tem 1 giga de internet

– Isso dá pra quantos minutos ao dia?

– Depende do quanto o senhor usar

– 24 horas

– Aí não dá

– Mas eu tenho um plano da TIM com internet livre

– Não existe internet livre

– Mas ela fica o ano inteiro ligada e nunca acaba

– Eu conheço plano deles, já tive também, eles dão mais gigas

– E porque vocês não dão?

– É que o nosso é um plano especial

– Especial em quê?

– Eu posso lhe encaminhar a fatura?

– Fatura de quê?

– Do nosso plano especial

– Mas o que ele oferece além da TIM, que também não é lá aquela coisa.

– Então, essa coisa é melhor em nosso plano

– Que coisa?

– A coisa que o senhor reclama

– Mas eu não te falei coisa alguma; que coisa!

– Se o senhor não tá contente com a TIM eu posso encaminhar o melhor plano e a fatura.

– De onde você tirou essa?

– Tá escrito aqui pra eu falar pro senhor, o nosso plano é o melhor de todos

– Melhor em quê, eu quero saber.

– Senhor, mas o combinado é pra eu ligar oferecer o plano e pedir se posso encaminhar a fatura.

– Sem internet ilimitada não tem papo

Nesta hora a moça ficou calada, a linha caiu e ela não retornou mais a ligação, mas quero dizer a Myrella que estou à espera de uma contraproposta, poque a TIM é uma encrenca.

 

Ilustraçao: Daniel Cruz

 

 

Herculana violada na ortografia e na carne

Herculana nunca escondeu que o que mais lhe incomodava era a segunda sílaba do seu nome. Mulher forte, cabelos lisos e pretos feito ébano, boca grande com dentes saltados na primeira fila da parte superior e deitados feito queixada na mandíbula inferior. Por falta de espaço entre as fileiras, nunca enfrentou problemas com o siso. Pele morena como a das mulheres bugras da fronteira oeste do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Ancas largas pernas grossas, peitos fartos e braços rígidos feito pau de escora.

Mulher de forte personalidade que só se relacionava com homens violentos contava a vizinhança. Quando escolhia um a dedo, recolhiam-se para o covil de um quarto que ficava no térreo de um edifício do BNH na zona norte de Porto Alegre.

O prédio tremia enquanto o casal botava o serviço em dia. Urros, gritos e gemidos por horas ecoavam pelos corredores. Duas velhinhas que moravam sozinhas no 408, fundos, aficionadas pelos documentários dos canais a cabo, Animal Planet e National Geografic, desligavam a televisão e ficavam imaginando como é o acasalamento entre o Diabo e a Diaba da Tansmânia.

Horas depois, a confusão continuava, mas era Herculana tentando expulsar de casa o agora rejeitado amante na base de xingões, gritos e palavrões.

Numa sexta-feira de dezembro, ao cair da tarde num barzinho do centro, entre a Caldas Júnior e o hotel Majestic, um casal trocava carinhos e juras de amor sentados em uma mesa de canto próximo a um ventilador barulhento, abafador de sussurros. O local era disputado pelos amantes que se sentiam a vontade e em total liberdade para dizerem o que bem entendiam sem que o conteúdo dos diálogos invadisse a mesa ao lado.

Tenório era um negro forte e musculoso operador de – conteúdo embalado na estopa – no cais do porto, o popular carregador de sacos.

Todas as noites, depois do trabalho ele saía, geralmente sozinho, e caminhava duas quadras até a rua da Praia onde por horas gastava seus trocados, fruto do trabalho diário, nos botecos da redondeza.

Naquela noite Herculana chegou disposta a levar para o ninho aquele negrão sisudo e de poucas palavras. Depois de várias rodadas de cachaça com bitter, dele, e seis garrafas de cervejas, dela, chegaram ao ponto de ônibus do Mercado Público cambaleantes, apoiados um no outro. Apaixonados, iniciaram as preliminares no banco próximo da porta traseira , observados, com o rabo de olho, dos raros ocupantes que, altas horas, retornavam para suas casas na linha da Assis Brasil.

Ainda no corredor, antes de entrar, o último beijo, e depois, silêncio total, o que desagradou as velhinhas que se posicionaram junto a lavanderia para acompanhar o episódio.

Nos dois dias que se passaram, Herculana não saiu de casa nem apareceu para trabalhar na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia.

A polícia arrombou a porta e encontrou o corpo estrangulado e de joelhos debruçado sobre o lado direito da cama.

Preso, Tenório confessou outros assassinatos de mulheres de programa até então sem pistas para a polícia.

– Minha mãe se prostituía e foi morta quando eu ainda era criança

Disse Tenório com frieza.

– Eu mato porque sinto ódio do que ela fazia.

O exame de corpo de delito revelou que depois da execução, Tenório ainda violara a segunda sílaba de Herculana.