O marido de Dolores

O cara era uma muralha, capitão Nascimento perto dele era fichinha. Comandava aos gritos a ordem unida e quem saísse da linha pagava com apoios, abdominais e o tradicional “pulinho de galo”, uma performance que macho que é macho chama de gay, mas que na realidade é o cúmulo do ridículo.

Soldado tem que ser homem com H maiúsculo, repetia olhando na cara do pelotão. Era durão, e não levava desaforo prá casa.

Um dia o cabo Figueiredo sumiu, despareceu do dia prá noite e nunca mais deu as caras… e quando deu, estava barbudo e os cabelos presos com rabicó.

Andou vagando por aí infiltrado nos movimentos sociais, reunido informações, fazendo um diagnóstico do comportamento humano em tempos de desacomodação social.

Frequentava reuniões de sindicatos, ONGs, centros acadêmicos, condomínios, até de moradores de rua debaixo de pontes, marquises e viadutos, sem teto, sem perspectiva, subjugados e subtraídos.

Certa noite Figueiredo chegou em casa de madrugada, atrasado por conta de uma passeata, uma manifestação de rua que deu trabalho. Cheirava pólvora e fumaça, resultado de uma tremenda batalha de rua, provocada por desordeiros que incendiaram bens públicos e privados para escapar da tropa.

  • Estes insurgentes sem família, sem endereço, sem respeito, não tem moral pra pedir o que pedem. Deveriam estar em casa a esta hora da noite assistindo o Chaves, o Jornal Nacional, lendo a Veja ou Paulo Coelho, formando seu caráter, a sair nas ruas bagunçando tudo. Pau neles, dizia Figueiredo com ar superior de galo de terreiro, mas já baixando a crista ao ver Dolores de bob’s, e uma toalha umedecida na canhota,

Dolores ficou uma arara exigindo explicações e mesmo antes que o pobre milico batesse continência já foi levando uns sopapos. Ela batia bem de esquerda e ele se defendia com a direita. A sessão corretiva só parou depois que Dolores se cansou de bater com uma toalha molhada na volta da paleta do marido.

No dia seguinte, Figueiredo saiu de casa disposto a vingar a humilhação e se incorporou a mais uma caminhada convocada por redes sociais sem nenhum comando aparente.

Tomou a dianteira e em pouco tempo lá estava ele, incendiando ônibus, virando contêineres e chutando o que se atravessasse pelo caminho assim como fizera na noite anterior, só que desta vez não estava apenas com um simples infiltrado para desviar o sentido do protesto e atrair foco da mídia. Roxo de raiva por ter apanhado da esposa de forma exagerada, o Figueiredo conhecido como linha dura na caserna e nas ruas teve seu currículo manchado por Dolores que bateu a torto e a direito por conta de um ciúme doentio por não acreditar nas histórias do marido que mentia a sua identidade para não ser reconhecido.

 

Figueira em alta e uma Raposa destroçada

Não se pode comparar um fim de semana esportivo com uma vitória gremista e uma derrota colorada como sendo um arrasa quarteirão e que pode determinar os rumos de um campeonato que mal começou. O que o Figueirense fez no Orlando Escarpelli foi confirmar a sua boa fase dentro de casa e um Rafael He-Man Moura com sede de bola, gastando todo o futebol reprimido nos tempos de inter. Os times catarinenses – Figueirense e Chapecoense – mandam es suas casas e aprontam fora delas. São dois serelepes danados de segurar, Grêmio e Inter que o digam.

O Cruzeiro anda irreconhecível e o tricolor contribuiu com mais um capítulo da maldita fábula da raposa, mantendo a toca iluminada com a lanterna do brasileirão.

O jogo na Arena provou mais uma vez que o Luan está sobrando e pedindo passagem na seleção principal do Brasil. Que o Tite olhe pro Sul.

Morre o João, mas quem parte é o Chico Campos

Ao acordar cedo, leio no whats uma a mensagem do Kiko, meu irmão, comunicando a morte do amigo Chico Campos em Passo Fundo. Logo conferi nas redes sociais a notícia do passamento de João Rodrigues da Silva Campos. Ai me cai a ficha de que o Chico não tinha Francisco no nome, aliás, nem sabia que ele se chamava João. A noite, falando com o amigo e imortal Paulo Monteiro descobri que nem ele sabia que o Chico não assinava Francisco, isso que eram compadres. Enfim, só fomos descobrir no momento derradeiro o seu nome verdadeiro.

Podemos dizer que conhecíamos o Chico Campos por mais de 40 anos, toda a vez que ia a Passo Fundo passava no Bar Oásis para tomar um café e fumar um cigarro avulso e saber do Argeu Santarém, colega jornalista que lutava contra um câncer; eram quase irmãos. O ‘Santa’ morreu não faz muito e levou com ele uma parte do Chico, unidas agora em outra dimensão.

Avesso ou por não ter acesso a boa etiqueta, vestia-se aos trapos e arrastava um tiracolo de lona onde carregava panfletos clandestinos mimeografados com textos e noticias da esquerda durante o regime militar. Era um encrenqueiro com quem usava farda e se caso proibissem qualquer manifestação, lá estava o Chico para mostrar sua desobediência.

Numa tarde de domingo eu cobria um clássico do futebol entre o Gaucho e o 14 de Julho no estádio Wolmar Salton em Passo Fundo. Foi quando notei uma movimentação atrás de uma das goleiras, mas do lado de fora do alambrado. A polícia que fazia a segurança no estádio dividia as duas torcidas, ficando entre elas um espaço vazio. Pois foi neste justo espaço que o Chico Campos resolveu assistir a partida. Os policiais da Brigada Militar que já conheciam sua fama tentaram removê-lo e não conseguindo jogaram a teimosia para dentro do camburão. Foi quando cheguei para defender o amigo e em questão de segundos passamos a dividir o mesmo espaço.

– Porque te colocaram aqui, perguntei pro Chico

– Não sei, e porque você ta aqui dentro?

– Por tua causa, respondi.

O camburão continuou estacionado atrás da goleira e foi de lá que acompanhamos, por uma fresta para a entrada de ar, todo o segundo tempo do clássico, para que, no dia seguinte eu pudesse publicar a minha resenha da partida nos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, dos quais eu era correspondente.

Sim, claro, ia me esquecendo, depois do jogo fomos liberados com um pedido de desculpa do comandante que estava no estádio, mas que não agiu para não perder nenhum lance do clássico, acomodado nas tribunas.

Imagino o que deve ter acontecendo na chegada do João Rodrigues da Silva Campos em outro mundo. Deve ter dado o maior rolo no guichê de identificação por causa do nome que não bate com o apelido.

O país das boas práticas

A ratazana preocupada com a desordem das coisas resolveu colocar em curso um Projeto de Boas Práticas para organizar a sociedade dos roedores e torná-los mais habilitados no seu dia a dia em busca de alimentos e se protegerem das emboscadas do felino da casa.

Assim todos teriam um código de sobrevivência e poderiam transitar livremente por locais nunca dantes permitidos sem que interferissem na rotina do lar.

Sairiam das canalizações dos esgotos e subiriam para um patamar aconchegante onde teriam direito a três refeições ao dia, aposentos individuais, espaços coletivos para discutir normas e valores e aulas práticas, com professores formados dentro da comunidade que multiplicariam o conhecimento, ensinando táticas de boas maneiras para acessar a dispensa sem esparramar os grãos, evitando desta maneira a ira dos patrões, que não passavam de meros usurpadores da pátria, adeptos a morte à míngua do que zerar a fome da nação. Deixariam por exemplo, de se contentar só com a pipoca que cai no chão do cinema e passariam a reproduzir sua própria arte. Seriam finalmente emancipados, independentes.

Mas toda esta movimentação despertou a atenção do gato que espreguiçava em almofadas e sofás da mais fina seda, com livre acesso às dependências da casa e como quem não quisesse nada circulava discretamente pelos gabinetes e reuniões de família captando as energias negativas de quem tem muito e muito quer.

Certo dia o gato espreitou o movimento e seguiu a caravana até o sótão de um casario abandonado, descobrindo o plano dos camundongos. No conforto da sua almofada, nos dias que se sucederam, começou a planejar um golpe. Visitou mais vezes o sótão e não conseguiu detectar nenhuma formula que o permitisse contra-argumentar às propostas dos roedores e seus meios de inclusão.

Numa destas espreitas, ávido por um álibi, ouviu a ratazana comentar que para manter o processo e partir para seus próprios meios de produção, tornando-se independentes da casa do patrão, precisariam pedir ajuda às formigas que armazenavam riquezas de sobra em suas galerias e poderiam perfeitamente auxiliar com incentivos à rataria. Em troca os ratos ajudariam a cavar tocas em locais íngremes, de solo rochoso, rico em minérios, além de colherem folhas e galhos secos para que as formigas pudessem forrar seus ninhos e se protegerem do inverno.

Foi aí que o bichano viu a oportunidade de interromper o processo de Boas Práticas, temendo que seu reinado fosse para o beleléu. Ao mesmo tempo temia a falta de ratos para perseguir e justificar a sua importância na hierarquia doméstica. Foi então que resolveu agir, não admitiria o fim das mordomias tornando-se um gato sem serventia e o próximo a ser comido.

Entrou na sala para o espanto de todos e travou-se um grande debate entre o gato e a rata.

– Vocês não podem pedir auxilio às formigas, afinal, elas são mineradoras do reino, perfurando galerias em busca de riquezas.

– Não estamos fazendo nada de errado, apenas propondo uma troca.

– Esta troca é inconstitucional, ela só é permitida aos grandes investidores e não para programas sociais.

– Mas não estamos tirando nada de ninguém.

– Você pensa que não, mas como a aristocracia vai se manter com um proletariado como vocês fazendo parte do bolo?

– Mas ninguém aqui falou que vai ser para sempre!

– Nem uma fatia pode ser retirada e ponto final sentenciou o gato que retirou-se da sala para buscar ajuda e colocar um fim àquela insubordinação, àquela rebeldia coletiva.

Logo os ratos partiram atrás de Justiça pedindo apoio ao cachorro da casa, com quem eles estreitavam uma certa relação de amizade.

O cão de guarda, que mantinha um espaço territorial próximo de uma área de vegetação espessa que, por ironia chamava de Mato Grosso, era responsável pela vigilância e a ordem não apenas da casa, mas também do quintal, portanto e de certo modo ficava de olho no gato para mantê-lo dentro das regras. Afinal, o cão era um justiceiro e prometeu ajuda aos ratos.

Na reunião seguinte o cão foi para o sótão, para o espanto do gato, ouviu atentamente os dois lados.

Concluiu que se o gato não tivesse mais serventia na casa ele também correria o risco de ser chutado e os dois perderiam as mordomias as quais estavam acostumados. Quem pagaria aquela ração deliciosa, os dentes afiados, os banhos quentinhos e as sessões de massagem e de tosa?

Mas o que os ratos não sabiam, era que o cão e o gato mantinham uma atividade paralela que ia desde os desvios de cargas de filés e peixes que abasteceriam a geladeira da casa até a uma requintada rede de contatos internacionais para a venda de carne enlatada com valores superfaturados e subornos aos operadores dos contratos.

O cão retirou então qualquer possibilidade de ajuda e permitiu que o gato continuasse o seu processo de cassação dos direitos dos ratos e afastasse a ratazana do processo que ainda aguarda um desfecho.

Os tempos eram outros

Abro com a observação de que eu já havia publicado não faz muito estra crônica, mas agora recebo esta ilustração do cartunista Daniel Cruz e não posso deixar de fazer o registro do filho dando num nó no pai e o pai se safando como pode na pura controvérsia..

Pulhas

– O que é um canalha, pai?

– O Bolsonaro

– Mas o senhor disse que era o Cunha

– Este é um pulha

– Mas pulha não era o Lula

– Isso ele foi, em outra época

– Quando o senhor torcia pros canalhas?

– Sim! Não! mais ou menos

– Porque o senhor mudou?

– Porque eu torci pro Jean ganhar o BBB

– Humm, o que errou o cuspe?

– O próprio

– Mas o senhor é também contra a Globo

– Totalmente

– Mas assistia o BBB

– Isso foi em outra época

– O senhor também disse que a Dilma roubava

– É que eu assisti na TV, deu no rádio e no jornal

– Então quem embolsa é o Bolsonaro e não a Dilma?

– Nunca pus a mão no bolso dele pra te dar certeza

– E o Tiririca pai quando ele disse – sim – você quase teve um infarto

– Ele é o Judas

– Mas o Judas não são os…. aqueles da Lava-Jato/

– Os delatores

– Isso, você sempre disse que eies eram Judas

– Sim, Judas foi o cagoete

– Cago o que?

– NÃO! Não é o que você tá pensando

– Nunca ouvi falar deste tal de cagote

– É cagoete filho, um delator

– Um Judas você quer dizer…

– Não deixa de ser, uma versão moderna

– Você disse que se fosse deputado não ia falar tanta merda

– Maneirando as palavras filho, não falaria mesmo, diria sim ou não em respeito ao povo e a nação

– Mas aqui em casa você antes de dizer sim ou não sempre faz um discurso feito deputado aprovando o impeachment da Dilma.

– Filho, por Deus, por você, teus irmãos, tua mãe, o gato e o cachorro, chega de perguntas tá?

Como destruir um projeto e dar um golpe na educação quando um governo provisório exclui a inclusão

O Diário Oficial da União publica esta triste página. A educação sofre um golpe profundo com a extinção da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação e Cultura (MECc). O governo provisório exclui a inclusão.

Para quem não sabe a Secadi desenvolvia a articulação com os sistemas de ensino implementa políticas educacionais nas áreas de alfabetização e educação de jovens e adultos, educação ambiental, educação em direitos humanos, educação especial, do campo, escolar indígena, quilombola e educação para as relações étnico-raciais. Tinha por objetivo o desenvolvimento inclusivo dos sistemas de ensino, voltado à valorização das diferenças e da diversidade, à promoção da educação inclusiva, dos direitos humanos e da sustentabilidade socioambiental, visando à efetivação de políticas públicas transversais e intersetoriais.

Vejam no link o quadro que revela o fim do combate à discriminação dos excluídos neste país.

http://www.jusbrasil.com.br/diarios/117137167/dou-secao-2-02-06-2016-pg-17

 

 

 

Não deu pro Walter

Eu só vi uma vez o Claudiomiro, em pessoa, jogar futebol. Tenho a impressão que foi numa partida pelo gauchão no estádio Wolmar Salton em Passo Fundo quando o Gaucho tinha os irmãos Pontes na defesa e o Bebeto no ataque. O tanque colorado não deixava barato, tinha uma imposição física de peso e demolia qualquer zagueiro desde que não fosse um dos Pontes ou o Paulão.

Ao ver o Walter em campo jogado pelo Atlético Paranaense me pareceu estar enxergando um protótipo do Claudiomiro, parrudo, ensacado no fardamento e com presença no ataque. Tirei a duvida com o jornalista Olides Canton que, ao meu lado, assistia Inter e Atlético nas Tribunas de Imprensa do Beira-Rio.

– Não tem diferença física, disse o Olides

A diferença em campo é que Walter joga na arrancada, pega a bola e avança costurando a zaga. Do meio campo a grande área é um bólido desgovernado, atropelando quem se atreva a atravessar seu caminho, e tem um chute potente, tanto, que foi numa destas disparadas com a bola no pé que ele torpedeou o pé direito da  trave do goleiro Danilo Fernandes. A sorte é que bola chutada de bico e rasteira geralmente não faz curva.

O bom nisso tudo, para os adversários, é que o tanque de combustível do Walter esvazia rapidamente. No segundo tempo ele baixou o ritmo e o inter garantiu o 1 a zero e a liderança do campeonato brasileiro, sim, a liderança com um time em formação, contando com a gurizada da base. Não é pra qualquer um. Não deu pro Walter.