Morre o João, mas quem parte é o Chico Campos

Ao acordar cedo, leio no whats uma a mensagem do Kiko, meu irmão, comunicando a morte do amigo Chico Campos em Passo Fundo. Logo conferi nas redes sociais a notícia do passamento de João Rodrigues da Silva Campos. Ai me cai a ficha de que o Chico não tinha Francisco no nome, aliás, nem sabia que ele se chamava João. A noite, falando com o amigo e imortal Paulo Monteiro descobri que nem ele sabia que o Chico não assinava Francisco, isso que eram compadres. Enfim, só fomos descobrir no momento derradeiro o seu nome verdadeiro.

Podemos dizer que conhecíamos o Chico Campos por mais de 40 anos, toda a vez que ia a Passo Fundo passava no Bar Oásis para tomar um café e fumar um cigarro avulso e saber do Argeu Santarém, colega jornalista que lutava contra um câncer; eram quase irmãos. O ‘Santa’ morreu não faz muito e levou com ele uma parte do Chico, unidas agora em outra dimensão.

Avesso ou por não ter acesso a boa etiqueta, vestia-se aos trapos e arrastava um tiracolo de lona onde carregava panfletos clandestinos mimeografados com textos e noticias da esquerda durante o regime militar. Era um encrenqueiro com quem usava farda e se caso proibissem qualquer manifestação, lá estava o Chico para mostrar sua desobediência.

Numa tarde de domingo eu cobria um clássico do futebol entre o Gaucho e o 14 de Julho no estádio Wolmar Salton em Passo Fundo. Foi quando notei uma movimentação atrás de uma das goleiras, mas do lado de fora do alambrado. A polícia que fazia a segurança no estádio dividia as duas torcidas, ficando entre elas um espaço vazio. Pois foi neste justo espaço que o Chico Campos resolveu assistir a partida. Os policiais da Brigada Militar que já conheciam sua fama tentaram removê-lo e não conseguindo jogaram a teimosia para dentro do camburão. Foi quando cheguei para defender o amigo e em questão de segundos passamos a dividir o mesmo espaço.

– Porque te colocaram aqui, perguntei pro Chico

– Não sei, e porque você ta aqui dentro?

– Por tua causa, respondi.

O camburão continuou estacionado atrás da goleira e foi de lá que acompanhamos, por uma fresta para a entrada de ar, todo o segundo tempo do clássico, para que, no dia seguinte eu pudesse publicar a minha resenha da partida nos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, dos quais eu era correspondente.

Sim, claro, ia me esquecendo, depois do jogo fomos liberados com um pedido de desculpa do comandante que estava no estádio, mas que não agiu para não perder nenhum lance do clássico, acomodado nas tribunas.

Imagino o que deve ter acontecendo na chegada do João Rodrigues da Silva Campos em outro mundo. Deve ter dado o maior rolo no guichê de identificação por causa do nome que não bate com o apelido.

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

3 comentários em “Morre o João, mas quem parte é o Chico Campos”

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