O perigo ronda a esquina e o resto da rua na cidade toda

Num dia normal de volta pra casa uma vítima se depara com o seu próprio assaltante e os dois travam uma longa conversa. O assalto virou corriqueiro, forma laços de amizade e rede de negócios.

     

Ladrão

(Crônica: Flávio Damiani / Ilustração: Daniel Cruz)

O Doca chegou feliz em casa naquela noite. Depois de um beijo na esposa sentou-se à mesa para ceia, um ensopado de legumes com caldo Knorr. Contou que tinha encontrado o Grilo Manco, um assaltante conhecido e já com clientela estabelecida no Beco da Praça, no centro da cidade, um corredor de arbustos em forma de labirinto, sem saúda para transeuntes desatentos. O Grilo ficou manco depois de dar um bote errado na vitima, o Samurai, um lutador de Jiu-Jitsu que lhe tirou o joelho do lugar, pra sempre.

Antes que Leninha perguntasse por que tinha feito aquele caminho, disse que desta vez o encontrou no ponto de ônibus, que o Grilo recém tinha deixado o seu local de trabalho e reclamando da féria do dia.

– A grana anda curta e os celulares em mau estado de conservação, comentou Grilo.

– Sim, mas no primeiro assalto você levou a minha corrente de ouro 18, lembrou Doca.

– Aquela tá penhorada, respondeu Grilo.

– Bem pensado, disse Doca.

Grilo lembrou que geralmente a primeira vez em que uma a pessoa é assaltada o ladrão tem chances de conseguir bons resultados.

– Depois começam a relaxar com bijuterias.

– A vida não tá fácil pra ninguém.

O amigo assaltante reclamou que precisava tirar umas férias com a família, mas sem carteira assinada não tinha como receber adiantado, nem um décimo terceiro e lamentou que é difícil ter seu próprio negócio.

– O Carijó, lembra daquele grisalho, freguês de caderneta do Presídio Central?

– Lembro, estabelecido preto da Santa Casa?

– Ele mesmo, colocou um BAR

– Olha!!!

– Me disse o outro dia que tem conseguido mais do que nos assaltos.

– E onde fica?

– O BAR?

– Sim, o Bar.

– Não tem um ponto fixo.

– Como assim? E a bebida gelada?

– Você não entendeu, BAR são as iniciais de Bazar de Artigos Roubados

– Ahhhhhh! E eu lá ia saber que existia isso?

– Sim, ele é um atravessador ambulante.

E esposa do Carijó, dona Cotinha também colocara seu próprio negócio, em plena ascensão, um Bazar de Artigos Recuperados na redondeza, que também não deixava de ser um BAR.

Pra não deixar barato e o encontro casual não passar em branco, antes de se despedir e não fugir à sua natureza, Grilo anunciou um assalto amigo, em forma de discurso ao estilo MBA.

– Aí amigão, sabe que eu tenho por você uma enorme admiração, aliás, você já foi, no passado, um dos meus clientes em potencial.

– Sim, depois de rapar tudo o que eu tinha, passamos a cultivar esta amizade, que espero, seja duradoura embora não seja mais tão lucrativa.

– No que você pode me ajudar?

– O celular foi levado ontem pelo teu parceiro do Largo do Mercado.

– A concorrência é violenta.

– Tenho estas moedas, um TRI e uma nota de cinquenta pro lotação e fiquei de comprar um vinho pra levar pra Leninha que me espera pro jantar.

– Então me dá os cinquenta e as moedas e fica com o TRI e eu te devolvo 25 pro vinho, pode ser?

– Combinado, assim tá ótimo.

– Bah! Não tenho 25, leva vinte, o pessoal não tem facilitado o troco, mas acho que dá pra comprar um vinho razoável.

– Um bom tá em torno de 26, 27, por aí.

– Leva trinta então.

– Te agradeço

– Manda um abraço pra Leninha

– Será dado.

Doca pegou a primeira colher de sopa, soprou e levou a boca, mas não sem, antes comentar:

– Este inseto é uma figura, tá se especializando, ficando esperto, educado, gentil. Dá gosto se assaltado assim. Por fim, elogiou o cardápio e o perfume que Leninha estava usando.

– Parece aquele que te dei e que foi levado num assalto.

– Pois é, peguei no BAR da Cotinha.

 

 

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