O BUGIO OS CACHORROS E O JORNALISTA

(Crônica muito bem humorada do Paulo Monteiro sobre um fato real, cheio de elementos que valorizam a arte de contar histórias)

Falham todos os sábios e todas sabedorias. Apenas os poetas são infalíveis. Prova a musa popular gaúcha em quadrinhas como esta:
Todo mundo se admira
do bugio andar de espora.
O bugio já foi tenente
da Brigada Provisora.
A musa popular produziu muitos versos sobre esse nosso parente distante e até um ritmo tipicamente nosso: o Bugio.
Meu amigo Flavio Damiani é viva prova de que o poeta popular está certo.
Aos fundos de sua aprazível casa, em Porto Alegre, às margens do Arroio Passo Fundo, ainda vive o inspirador desses versos. Ali desfruta sua longevidade isolado dos demais de sua espécie, como um velho lobos solitário ou um quati-mundéu. Apossou-se de uma larga faixa de mata ciliar, apreciando, em particular, um frondoso abacateiro e os sons de uma pequena cascata.
Calmo, pacato, como rezam as biografias dos valentes heróis das nossas revoluções à gaúcha. Aprecia, sobre-modo, abacates. Colhe-os e, serenamente meditando sobre os símios e assemelhados, sentado nos galhos vai saboreando os frutos, espalhando caroços e contribuindo para a formação de uma pasta originada pelos que não consegue segurar.
Nosso “tenente”, com certeza, deve sentir saudades das peleias de antigamente. Os heroicos atos de incêndios, estupros, estaqueamentos e degolas, praticados pelos seus heroicos provisórios reviveram nas últimas semanas.
Espiando pelas janelas viu e ouviu os entreveros nas ruas de Porto Alegre. Acostumado aos constantes protestos do Bota e do Black Jack resolveu agir.
Conto.
Bota é um guaipeca preto, barulhento como todo o viara-lata. Black Jack é um border acarijozado, cabeça e lombo retintos e pernas carijós. Embora nascido na maior e mais rica cidade do país, não perdeu seus instintos caninos. E dá cobertura as arruaças promovidas pelo Bota. Este odeia o Bugio.
Basta Flávio soltá-lo no patio e começa as arruaças. Profere os mais violentos impropérios em sua linguagem canina, sempre acompanhado pelo indefectível border.
Dia desses o Chico (nome plebeu conferido ao nosso parente) não aguentou. Moria um abacate, como quem destrava uma granada e póim! bem no meio dos cachorros. Estes, ágeis baderneiros, desviavam-se do artefato e continuavam os protestos.
Flávio Damiani que, como bom jornalista, acompanhava a confusão resolveu seguir a normalidade da vida. Enrolou um tapete que por ali jazia e resolveu batê-lo. Desviando-se da encrenca aproximou-se do tronco do abacateiro e pom! ficou o tapete contra a árvore.
Santo Deus!
O bugio deu um pulo no galho. E desceu com galho e tudo encima dos cães.
Foi o tendéu.
Espalharam-se caninos e símio. O Bota, todo lambuzado e fedendo abacate podre refugiou-se dentro de casa, seguido pelo ilustre Black Jack. Flávio mal teve tempo de olhar e ver o Chico disparando em sua direção. Protegeu os olhos contra a árvore e mal teve tempo de sentir uma pata que lhe comprimia o coccix e outra sobre os ombros, seguindo o bravo “povisoro” de volta aos galhos.
O Chico sumiu. Viram-no há pouco mais para as nascentes do arroio Passo Fundo. Na casa de Flávio as coisas voltaram ao normal. Ao normal, em termos, pois o “tenente” abandonou o posto.
Moral da história, pois de toda a história que se preze precisamos retirar um ensinamento: Como governante daquele pequeno reino verde-amarelo, Flávio Damiani aprendeu por que os governantes preferem varrer o lixo para de baixo dos tapetes. 

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