As bicicletas de Colinas

 

Imagina você, antigamente, subindo um morro de bicicleta, sem marcha, numa única engrenagem, uma só roseta para alavancar o pneu traseiro pra te levar para o alto. E na descida, controlando o freio nos pedais e, se escapasse a correia viraria um tendéu.

Subir morro de mula, cavalo ou carroça puxada por bois ainda vai, mas de bicicleta, para se chegar ao topo é penitência.

Pois para contrariar qualquer cálculo da física eis que surgem as bicicletas de Colinas. Sim, uma cidadezinha encantada no vale do Taquari.

Antes de cruzar a ponte do Rio Taquari em Estrela, vindo de Porto Alegre em direção ao norte gaúcho pela BR 386, vai ver uma plaquinha com uma seta indicando que a cidade de Colinas fica logo ali.

Anda uns dez ou quinze minutos de carro, não marquei a quilometragem, mas é uma estrada boa, asfaltada, cortando plantações e vilarejos, como o do Costão, dos Chocolates da Sirlei, lugar para tomar um capuchino e saborear as delícias do cacau num ambiente aconchegante.

Mais adiante você vê uma bicicleta, sem uso, em cima de um telhadinho e pensa que alguém colocou lá pra bonito, não dá lá muita atenção, mas vê outra e em seguida mais outra.

– Que é que faz tanta magrela velha na beira da estrada?

Aquelas primeiras aparições são apenas uma mostra para o que vem depois. Entrando em Colinas é bicicleta prá todo lado e ninguém para pedalar.

Aí fui perguntar ao prefeito:

– Mas que diabos tantas bicicletas sem usuários?

– Elas foram doadas por moradores, não as usavam mais de tão velhas e viraram ponto turístico.

Sim, nelas desfilam coelhinhos na páscoa, papais-noéis no natal e viram jardins suspensos na Festa das Flores.

Mas aí a pergunta que não sossega:

– Por que tanta bicicleta em Colinas?

Pode ser que os moradores não se importam pedalar colina acima e morro abaixo.

Exagero meu, a cidade não fica lá no alto, é uma elevação, banhada pelo Rio Taquari que fica um pouquinho mais abaixo. Nenhum sofrimento para se chegar pedalando. Como recompensa você encontra uma cidade bem cuidada, limpa, conservada, com ares europeus e caramanchões públicos que fazem sombra para um mate. Nem precisei de tempo para ver que o povo é hospitaleiro. As pessoas te cumprimentam e são atenciosas quando se pede informação. Parece uma daquelas cidades em extinção, que só existem nas lendas. Não sei bem porque, mas quando eu escrevia esta crônica me veio à mente algumas cenas do filme de animação francesa – As Bicicletas de Belleville, com suas ilustrações maravilhosas.

O prefeito Sandro Herrmann e a secretária Raquel Dihl, já foram avisando que vem aí a ciclovia ligando Estrela, Colinas e Imigrante. Serão 37 quilômetros de pista lisa unindo as três cidades. Os adeptos aos passeios sobre duas rodas já podem planejar seus roteiros Tour De La Colline, por entre os vales. Sou até capaz de me aventurar, afinal, bicicleta não vai faltar, tem mais de sessenta disponíveis nos passeios públicos de Colinas e como sou zero a esquerda no pedal, tanto faz elas andarem ou ficar paradas.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *