A reintegração de posse da árvore de Natal

 

Estava tudo no seu lugar, a árvore erguida no canto da sala, aquele que todos visualizam quando descem a escadaria em direção a cozinha. Bolas coloridas, lamparinas, enfeites da liquidação do Natal passado, mas ainda sem uso, portanto, novos. Não tinha chumaço de algodão porque com o calor de 40 graus ficaria ridículo por neve no pinheirinho. O presépio completo, sem os reis magos que só virão no janeiro, andam resolvendo questões políticas envolvendo o Tramp e o Oriente Médio. Recém eu havia instalado as luzinhas, prontas para serem testadas quando algo fora do contexto quebrou a harmonia do ambiente. No galho mais alto, disputando espaço com a estrela de Belém, havia um pássaro marrom. Um sabiá com ar de arrogante tomou posse da árvore que tanto trabalho deu para chegar ali. Desde a longa fila no Black Friday para aproveitar o desconto, fazer com que ela coubesse no carro, até o quebra cabeça para juntar todas as peças e montá-la de acordo com as instruções. Esta ousadia não sairia barato.
 
Gentilmente o convidei a retornar ao bosque dos fundos, de onde ele veio, negociei até um aumento na porção de alimentos que eles recebem todas as manhãs, eles que eu me refiro inclui a familia do sabia, parentes e amigos.Ele me pareceu irredutivel e na primeira tentativa não houve acordo. Para piorar as coisas, numa visível manobra de pura provocação, talvez pra me tirar do sério, desceu dois galhos e se posicionou na parte de trás da árvore, com as costas protegidas pela parede. Ele foi estratégico, o que me deixou mais irritado, pois até aí o etrategista era eu, armado de argumentos sensíveis, utilizando a emoção e a boa intenção, até então. Ele, o sabiá, sabia que nhão haveria qualquer possibilidade de um ataque pelas costas já que a parede o protegeria. Se houvesse combate, o que estava se tornando quase que uma evidência, os ataques aéreos e por terra viriam pelos flancos ou quando muito pela frente. Isto foi um aviso de resistência e e um claro sinal de que haveria luta de posse e reintegração.
 
Como sou contra a violência e qualquer tipo de uso da força, comecei com um alerta. Uma sacudidela na árvore como forma de deixá-lo ciente sobre as consequências desta sua atitude impensada. A segunda tentativa foi um pouco mais desastrada, a árvore vergou e só não foi ao chão porque um balcão, modelo cômoda, amparou o peso e evitou o início da destruição. O sabiá bateu asas, mas não voou. Senti que ele estava em apuros, e abria-se aí a munha grande oportunidade de acabar com a teimosia sabiá ficou enroscado porque bateu as asas e não voou. Senti que ali estava a grande oportunidade para acadeste obstinado invasor, antes que ele acabasse com o meu Natal.
 
Mas como nem toda a luta é fácil, ele resolveu complicar a situação e se embenhou ainda mais na mata, digo, no pinheirinho. Sorrateiramente aquele monte de pena voadora foi se aninhando, tornando-se impossível arrancá-lo a força sem destruir parte da sala, a árvore e todos os acessórios.
 
Impotente e sem alternativas parti para estratégias menos rudimentares como cbo de vassoura, havaianas ou bodoque. Fui logo colocando em ação o pelotão de choque. Conectei as luzinhas na tomada, torcendo para que funcionassem, e cerquei a área, aí sim com uma vassoura, um rodo e meus dois cachorros. Não haveria escapatória, seria o ataque final, já prevendo baixas. Quando as luzinhas piscaram feito pirilampos, tal qual mísseis avançando na direção do inimigo, o “sem árvore” ergueu a cabeça e num impulso, como um raio, desocupou o território, deixando para trás parte da sua farda de combate, o que de certo modo valorizou a luta. Esfarrapado e depenado, fez um pouso forçado no caramanchão, ajeitou o fardamento e desapareceu.
 
Juntei as penas como troféu e recoloquei a árvore no seu lugar, fechei a janela para evitar um possível retorno, quem sabe em marcha, acompanhado de comparsas para um contrataque de cinema.
 
Peguei o chimarrão e fui matear com o menino Jesus que estava agitado, assustado com o que se passou sobre seu berço. Foi aí que notei que só sobrou ele. O presépio ficou em pandarecos, eu e o resto em frangalhos.

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