O CHATO

 

No terminal de passagens o chato se debruça no balcão e dá inicio ao seu predestinado ofício.

– Tem passagem para hoje até Porto Alegre?

A atendente responde:

– Hoje não tem mais, agora só no ônibus da próxima terça-feira.

– Como assim?

– As passagens deste domingo esgotaram o próximo ônibus que sai daqui para Porto Alegre é na terça.

– E eu vou ter que esperar até terça pra ir embora?

– Se for de ônibus, sim.

– Mas eu tenho que estar lá na segunda-feira.

– Infelizmente não posso fazer nada.

– Não tem como dar um jeito?

– Como?

– Me arruma um lugar.

– Em pé?

– Não, quero ir sentado.

– Nem em pé nem sentado senhor

– Mas é brincadeira…

– Quem sabe o senhor compra a passagem aqui e pega o ônibus em Floripa.

– E pode fazer isso?

– Sim.

– Como funciona?

– O senhor adquire a passagem aqui e embarca em Florianópolis.

– Mas é seguro?

– É sim, todos fazem assim.

– Todos?

– Os que optam embarcar em Floripa.

– Mas porque não me falou antes então?

– Porque o senhor não perguntou.

– Mas poderias ter me dado esta opção.

– Posso retirar a passagem?

– Peraí, ela é mais cara?

– Não tem diferença, o preço é o mesmo.

– Mas Florianópolis fica mais longe de Porto Alegre do que a Pinheira e o preço é o mesmo?

– Sim, não tem diferença.

– Então se eu comprar uma passagem daqui eu tenho prejuízo, isso é uma exploração.

– Não, senhor, com a passagem comprada na Pinheira, tanto faz o senhor pode embarcar aqui ou em Florianópolis, porque o ônibus sai de lá.

– Sim, mas daqui pra Porto Alegre é mais perto.

– O senhor vai escolher o horário para eu imprimir a passagem?

Neste momento a fila de espera aumentava e o cidadão, vestindo uma camiseta tricolor, não saia da frente.

– Só mais uma pergunta; se eu decidir embarcar lá em Florianópolis como vou saber se tem passagem para o horário?

– É só o senhor acessar o site da empresa e pode comprar por lá pelo cartão de crédito.

– Mas eu não utilizo cartão de crédito.

– Então é só vir aqui, depois da uma da tarde, que eu retiro o bilhete.

– E fora deste horário tem algum telefone pra contato?

– Este aqui senhor, falar com o Vinicius.

– Se eu ligar agora ele atende?

– Se não estiver fora de área, atende sim.

– Hummmm!!!

– E se não atender?

– Aí o senhor vem aqui.

Aí já se formou um murmurinho com um ensaio de via geral e uma senhora impaciente com um bebê de colo que ameaçou trocar as fraldas da criança ali mesmo, no balcão. Ele fez menção de ir embora e ameaçou voltar para buscar mais alguma informação mas a senhora interrompeu o movimento com um:

– Tinventa olhólhó!!!!

O camarada beijou o distintivo da camiseta e gritou:

– Viva o Tricolor dos pampas

Prestes a ser defenestrado via janela do guichê, vazou pela porta da frente.

 

 

Exames que quebram a rotina

Fui cedo me apresentar ao serviço de medicina por imagem, na hora marcada.

– Moça, olha só, esqueci a requisição em casa, é para o exame abdominal, horário já está marcado, tem problemas?

– Precisamos da requisição.

– Mas vou perder o exame, moro longe, não dá tempo de ir e voltar.

– Tem que ter requisição.

– Mas eu mostrei pra você quando vim aqui semana passada marcar o procedimento.

– Nós não ficamos com cópia.

– Mas é uma requisição simples, será que não consigo um médico para me autorizar?

– Não dá.

– Pago a consulta, mas rápido, porque já tou me mijando perna abaixo, mandaram vir com a bexiga cheia.

– Não dá senhor, não tem como.

– Veja a minha situação, tá piorando, o caldo vai engrossar.

Falei com voz forte e aguda, numa demonstração de firmeza, já que o resto do corpo não se garantia, não se sentia mais tão seguro.

– Qualquer problema o banheiro fica quase no final do corredor.

Disse ela apontando a porta. Mas não desisti e continuei insistindo:

– Quem sabe faço o exame e trago a requisição depois, é para aproveitar toda a água retida, entende?

Enquanto eu tentava argumentar, desesperadamente na busca de uma solução, ela me interrompeu abruptamente com um ar severo e um tanto irônico.

– Estou vendo aqui que a sua consulta estava marcada para ontem.

– Como?

– A sua consulta estava marcada para ontem e você não veio, hoje não temos horário, só semana que vem.

Não lembro ter chegado ao banheiro, só me dei conta donde estava quando, na saída, esbarrei numa senhora que protestou:

– Pensei que o banheiro era só de mulheres.