O atropelamento na mídia

A mídia ocupada com os assuntos de Curitiba e Brasília, passando pelo Rio de Janeiro levou uma rasteira e quando o rabo de arraia já tinha ocupado toda a sua circunferência tentou se erguer, tarde demais, o atropelamento na mídia foi coletivo. Os caminhoneiros vinham, há pelo menos 15 dias alertando sobre a paralisação, ou melhor, vinham organizando paralisações pelo país como indicativo de greve que tomou corpo na semana passada. A mídia, no entanto, não fez o seu papel, não avisou a população, não prestou serviço à nação. Estava preocupada em exercer seu poder invisivel ao melhor estilo de quem faz parte de um conglomerado economico que compõe o complexo sistema financeiro brasileiro. Desesperados os jornalistas correram atrás do prejuízo e a única prestação de serviço que conseguem dar é dizer que os postos estão sem combustíveis, que os supermercados estão lotados e que a população corre o risco de desabastecimento. Em contrapartida ninguém sabe ao certo os motivos da greve que a mídia não informa, nem mesmo procura saber. A pauta rasa e superficial, está visivelmente conduzida às notícias de Brasília e, de certa forma, condenando a ação dos grevistas procurando culpados. É o lado agonizante da informação. Deixa de aprofundar temas importantes que realmente interessam à sociedade Para manter-se agarrada ao poder e aointeresse das elites. É o que todos nós, sociedade, pensamos dos meios de comunicação social nos dias de hije. As redes sociais ganham espaço e falam a linguagem do povo. A pauta das redações precisa ser repensada. O atropelamento causdo pela greve dos caminhoneiros é um exemplo claro de que as coisas estão erradas.

Reconhecendo a culpa

Na pressa de aliviar a culpa do caos que se aproxima, coxinhas ou direita, borrados com a cagada que fizeram em 2016 saíram do anonimato e propalaram nas redes sociais o fim da paralisação. Mais uma vez entraram pelo cano, caíram na conversa do Temer e seus aliados e entraram na onda da mídia. Cheguei a receber salmos, orações comemorando fim do protesto. Ai se Cristo soubesse!!!

A velhinha das sete quedas

 

Dona Palmira já nasceu desastrada. A parteira gorda, apoiou de mau jeito, todo seu peso sobre o leito da natividade e quebrou a cama ao puxar o rebento que, ao sair, fraturou o pé; foi a primeira queda.

Demorou a andar por conta do pé descontado, mas venceu a luta e acertou o passo. Com o tempo se acostumou aos tombos, alguns puxando água do poço, quando não conseguia firmar o garrão e quase descia corda abaixo puxada pelo balde d´água, outros tombos foram leves, sem maiores consequências, como escorregar na lama e descer a rua sem carrinho de lomba, quedas comuns em dias de chuva.

Mas, ultimamente algumas ocorrências foram registradas com frequência, nas missas de domingo. Palmirinha, poderia se chamar Mira, mas por uma ironia do destino o nome acabou no diminutivo, não combinando com pernas e braços longos e um porte físico avantajado. Enfim, quando se nasce Eva, vira Evinha, Ana, Aninha, Vitalina vira Vita e Abrelino pra chamar de Lino. Vai entender a intenção dos pais, a criatividade das tias ou o apelido dado pelos amigos, enfim, voltamos a Mira, aliás, a Palmirinha e suas quedas domingueiras. Foram sete nos últimos seis meses, contabilizadas pela Cristiane Damiani, que casou com um Xavier e que também atende por Cris Xavier, mais uma redução do nome.  Três tombos na escadaria da igreja, um no confessionário, ao tentar se ajoelhar para contar seus pecados, outro tentando subir o altar e finalmente um tropeção no banco da igreja ao sair da missa foram a gota d’água para que o padre consultasse o médico. O sacerdote atravessou a rua e narrou ao doutor os fatos registrados com a velha senhora e suas frequentes quedas.

Na primeira oportunidade que teve, justamente durante uma consulta de rotina, o galeno aproveitou para ampliar o checape. Desviou a atenção do pé e subiu aos olhos da paciente. Não precisou nem diagnóstico do laboratório, viu na hora que dona Palmirinha apresentava uma severa opacidade do cristalino.

O problema foi desvendado ali mesmo, no consultório, acusando uma estreita relação entre as cataratas e as sete quedas.

Caminhoneiros acusam o golpe

Depois de apoiarem o golpe, quando foram as ruas no Impeachment da presidente Dilma reclamando do preço dos combustíveis, na época R$ 2,80 o litro, caminhoneiros pediam a imediata ascensão de Temer. Nem dois anos depois o preço foi às nuvens e eles voltam a protestar. Um direito deles e eles estão fazendo o que os batedores de panela não fazem. Entendo, no entanto, que o erro é bloquear rodovias. Deveriam bloquear Brasília.

Um milagre no Pinheiro Torto

Quem chega a Passo Fundo vindo de Porto Alegre pela 153, necessariamente atravessa a ponte do Rio Pinheiro Torto. Nem faço ideia sobre a origem do nome de tal afluente, mas penso que tenha relação com algum acidente da natureza, seja com a árvore que empresta o nome ou com o percurso do rio. Enfim, este é um assunto para o Paulo Monteiro, historiador e poeta, pesquisador sobre a origem da cidade.

Pois foi justamente na companhia do Paulo e mais uns amigos do Grupo Literário Nova Geração que lá por 1975, ou seis, organizamos uma pescaria “litero cultural” no Pinheiro Torto. Havia uma regra bem definida de que – da água retiraríamos o peixe e da natureza nossa inspiração para a poesia.

Saímos no sábado levando anzóis, caniços e uma rede de espera. Sofremos implacáveis ataques, sem trégua, de numerosos enxames de mosquitos que tentavam matar a fome com o nosso sangue e nada de peixe para matar a nossa fome. O trato era de que sobreviveríamos da pesca abundante, frutos do rio, assados na grimpa e nos gravetos.

No domingo, logo depois do meio dia recolhemos a rede de pesca e nela, grudadas, duas pequenas criaturas pré-históricas, barbatanas espinhentas e boca de piranha. Já tinham feito um estrago nas malhas de nylon. Não acumulavam sequer um grama de carne que pudesse ser aproveitada.

“O diabo vem em forma de alimento que não mata a fome na mata” profetizou alguém de cima de uma grande pedra, no único momento litero-artistico da pescaria, sim, porque  no restante do tempo procurávamos o que comer e a natureza tava que era uma dureza naquele final de semana.

Eis que, observando aquela situação pré-desesperadora e para evitar algum ato de atropofagia, um dos membros da caravana abre a mochila e saca de dentro dela três latas de sardinhas levando ao delírio os aventureiros famintos. Foi uma espécie de milagre embutido da multiplicação. Gritos de alívio e abraços fraternos como quem vence uma batalha. Só havia um problema, aquela rica inteligência esqueceu de levar um abridor de lata. Quase foi linchado, sim porque na hora do desespero o amigo pode virar inimigo, até comida, num piscar de olhos. A única ferramenta disponível era um facão sem ponta e com pouco fio, talvez uma sobra da guerra dos porongos, que só serviu para aumentar a ira da cáfila que salivava tal cão raivoso. As latas foram esfregadas sobre as pedras até gastarem as tampas.

Perdemos o molho, mas ganhamos uma bela lição: Quando o peixe não vem pelo rio, serve enlatado. A vantagem é que as latas de hoje dispensam o abridor.