Descartando a carta de vinhos

No requintado restaurante o sommelier vem a mesa com uma carta de cem diferentes tipos de vinhos finos.

Detalha os melhores por suas características – safra, uva, frutado, encorpado, buquê…

De cara fiquei Desconfiado, afinal, o trabalho de um sommelier na antiguidade, Renascença, por aí, era o de verificar se a bebida não estava envenenada. Eram dotados de extrema habilidade, “detectavam as substâncias perigosas que se ocultavam em comidas e bebidas”, afirma o professor google através da wikipédia. Ficaram famosos em Paris, viraram profissionais. Paladar aguçado, comiam e bebiam um pouquinho, nada o suficiente para que um formicida o abatesse ali, na mesa, na frente do cliente.

Eu olhava atento para o escanção, como são chamados pelos portugueses, e imaginando quantos tombos não terá levado até hoje experimentando vinhos numa noite movimentada na casa de pasto. Teria ele um dia exagerado numa dose perfumada com o doce aroma de um veneno letal e retornado a mesa naquela noite para enfeitiçar os clientes e levá-los para sua taberna celestial? Fiquei imaginando se lá em cima aceitariam meus cartões de créditos a perder de vista, regado com outros ingredientes como vales refeição, transporte e pré-datado.

Eu já estava tonto com tanta explicação quando ele encerrou tal eludição, sem provar um unico gole de todos que apresentou e  foi perguntado:

– Qual será sua escolha?

– O que não vai me dar dor de cabeça, respondi.

 

 

Um nome para o Júnior

 

Thadeu e Maraysa foram, logo cedo, no cartório da cidade para registrar o recém-nascido.

– Neymar, vai ser o nome dele, diz a mãe com o filho no colo.

– Tem certeza que vai colocar este nome? Pergunta o notário.

O pai tenta justificar sua contrariedade depois de assistir a estreia do futuro xará do seu filho na copa, mas a mulher estava decidida.

– Thadeu, a gente vem combinando o nome do bebê desde o dia em que descobrimos o sexo dele.

– Mas Maraysa, nosso filho vai virar meme, olha o que tá acontecendo.

– Oh Dedeu (apelido no marido), ele tem até uma chuquinha miojo.

– Sim May (apelido dela), mas a onda passa e a chuquinha não vai ficar permanecer para sempre.

– A gente combinou…

– Menos May, dá um desconto, uns dez por cento ao menos.

Observando tudo, o responsável por registrar, definitivamente, o nome do filho resolveu intervir de maneira amigável e porque não, conciliadora.

– Olha pense num familiar querido do qual seu filho possa herdar o nome, o Neymar também herdou, ele é Júnior.

– Taí, respondeu o Thadeu, podemos encontrar uma solução.

– Heródice, com H, nome egípcio do meu pai, pode se chamar Heródice Júnior, disse a mãe.

  1. – Neste caso, Neto, responde o notário.

– Então, porque não Melchyades, com ch e y? Nome do meu avô.

– Nem pensar, a tua avó não queria o nosso casamento, lembra?

– Esloveno então, não tão na copa mas é de onde vieram os antepassados da mãe.

– E o sangue marsupial da minha mãe australiana?…

E ficou aquele jogo de nomes de antepassados e até de heróis de seriados e cinema.

Ela

– Blade Runner, meu preferido em noites de chuva.

Ele

– Vão apelidá-lo de replicante, não dá, quem sabe Magaiver?

Ela

– Nem pensar vai acabar com as tesouras da casa.

Ele

– Ah, já sei, Quelônio, em homenagem ao nosso jabuti, ou snowflake, o morcego que habita o sótão e casa.

Ela

– Aí já é demais, bota Temer de uma vez.

Ele

– Você tá de brincadeira com o nosso filho.

Ela

– Não tou não, tou é irritada, desse jeito ele vai sair daqui registrado como Bolsonaro.

Silêncio repentino, a criança chora, os pais agitados tentam se acalmar e o dono do cartório se posiciona no computador para iniciar o registro d acabar com a discussão…

– Neymar, com y?

 

 

Tangente

– Pai, o dólar tá batendo na casa dos R$ 4 reais
– Sério?
– O Temer acabou com a farmácia popular
– Eu não dependo de remédio!
– Leiloaram o pré-sal e a gasolina tá virando os R$ 5 reais
– Agora deve baixar filho
– Queimaram o pato da FIESP na avenida Paulista
– Alguém tem que pagar o pato, melhor, queimar o pato
– Mas ele era teu totem, tua referência
– Perdeu a importância
– A copa começa em uma semana e não vejo ninguém de verde amarelo nas ruas.
– Eles tão lá na Russia, você vai ver na TV nos jogos do Brasil
– Eu teria vergonha em sair na rua com a camiseta do Basil
– Nem me fala, escondi a minha, bem escondidinha
– Você tava todo empolgado com o novo governo, te orgulhava de ter botado lá
– Nem tanto filho, eu não votei nele
– Não votou mas achava que ele ia resolver tudo por isso vestiu a camisa amarela, bateu a panela e endeusava o Cunha
– Eram outros tempos meu filho, não queira me culpar
– Mas o senhor gritava da janela: Mil vezes o Temer, ele vai nos salvar.
– Era o único jeito de tirar a Dilma
– Ela não tinha culpa
– Bom, isso não vem ao caso
– Tá ficando complicada a coisa pai
– Também tou achando, o povo não vai aguentar
– O que é isso pai?
– Isso’que?
– Povo!

Ócio, preguiça… da intolerância com a mídia ao livro do Pedrinho

Aposentei minhas pilchas. Faz mais ou menos um mês que solicitei minha exoneração da Câmara de Porto Alegre. Lá não sou mais jornalista, mas o jornalismo continua impregnado nas minhas vestes. Portanto, não aposentei as pilchas como deveria e sim como eu queria, desejava, descrevia no meu subconsciente. Dormir tarde e levantar além da hora, e no inverno, é igual deitar na rede contando estrelas sem ver o tempo passar, sim, porque contar estrelas é não ter o que fazer mesmo e ainda, se atrapalhar na milésima e ter de começar tudo outra vez.

O ócio te proporciona coisas que em sessenta anos você nunca se deu ao luxo. É o período das realizações como, passar dias de pijama sem precisar se preocupar com o banho ou a barba por fazer. Até a velha meia colorida já se afeiçoou ao pé. Tomar café sem lavar a xícara, derramar no chão as migalhas do pão e dispensar a vassoura porque a cachorra se encarrega na tarefa de lamber o assoalho.

É na preguiça que você descobre que deixou de ler um monte de livros que comprou, que ganhou de presente, que recebeu dos autores e que ficaram espalhados na estante, na cômoda, na cabeceira da cama ou no balcão da sala, alguns debaixo da pia do banheiro.

São dias que você lê jornal e preenche as palavras cruzadas, confere o horóscopo que diz que você deve ter cuidado ao sair de casa. Parece que astrólogo já sabe que é disso que você precisa, de um motivo pra ficar em casa.

O controle da TV juntou pó e aquela tela de plasma é um enfeite no canto da sala. O rádio sim, este passeia no dial a procura de credibilidade da informação e de boa música. O rádio é parceiro da preguiça, do ócio, da tristeza, da alegria, da dor. Pena que o locutor não sabe disso e insiste em repetir a pauta achando que as pessoas devem saber daquilo que ele bem entende.

E foi numa destas descidas das escadarias do sótão que dei de mão no livro do Pedrinho Guareschi, “Mídia, Educação e Cidadania” (editora Evangraf). Na parceria do Osvaldo Biz, sugerem uma leitura critica da mídia. Obra com uma didática acessível aos mais céticos seguidores da Globo Educação. Avaliam os mais variados programas de televisão e o que eles representam e alertam para o senso critico do telespectador dando-lhe instrumentos para que se posicione diante do que vê.

pedrinho

Aprofundam a discussão sobre a educação das mídias, ausência da democracia, da transparência e de oportunidades para o exercício da cidadania. A mídia não tem autocrítica e, portanto, a sociedade não age diante da neutralidade, da falta de pluralidade, garantido pela constituição à midia alternativa. Hoje 90% dos meios de comunicação são privados e as emissoras públicas estão fechando. Fecham um capítulo afirmando que não se faz educação sem comunicação.

Uma reflexão interessante é sobre a necessidade do quinto poder que deve ser o contraponto do quarto poder, um processo desafiador, critico e de enfrentamento à grande mídia que impera absoluta e chega a tornar submissos os três primeiros. O quinto poder é o povo que tem nas mãos uma das armas mais potentes para combater os quarto, de forma que sabendo utilizar corretamente comunicação pública, plural e democrática das redes sociais, o quinto poder, pode pular para primeiro lugar.

Ah este ócio nos põe a pensar tanta coisa…

 

A decadência do seu Brasiliano

Tinham tudo em casa, produziam tudo o que consumiam. Ai o pai conheceu uns estrangeiros que o convenceram a comprar de fora. Fechou pocilgas, hortas e galinheiros. Passou a comprar tudo dos estrangeiros. Aí quebrou financeiramente a família do seu Brasiliano Preto Brás.

A história da Petrobárs se confunde com a do seu Brasiliano. Para beneficiar o capital estrangeiro deixa de produzir derivados deixando obsoletas as refinarias, importa o que aqui nós temos de melhor, entrega nossos recuros naturais aos investidores internacionais e eleva o preço dos combustíveis. A difeença é que o seu Brasiliano que abriu mão do seu negócio ao cair na conversa dos gringos, não pôs a culpa em ninguém, já o fracassado governo Temer e seu Parente dizem que a culpa é do PT.

Natalino e Annoni – Práxis e Religiosidade

Uma análise que vai além da simples questão da luta pela terra no Norte do Rio Grade do Sul, é uma pesquisa que mergulha num problema muito mais profundo, o de classe social, o conflito entre os detentores da terra e a força de trabalho. Na esteira um outro elemento, o religioso, que se mostrou ineficiente em alguns momentos mas que contribuiu em outro para a organização dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O livro me foi alcançado pela procuradora Dra. Maria Helena Pierdoná Fonseca empenhada nos estudos políticos e religiosos dos movimentos sociais. “Conflito Religioso e Práxis” (IFIBE/UPF Editora, 2016, 214 páginas), é um fino relato da ação política dos acampamentos de Encruzilhada Natalino e da Fazenda Annoni no Norte gaúcho. É uma dissertação que o padre Elli Benincá, defendeu na PUC/São Paulo, em 1987. Padre Elli foi um dos fundadores e professor de Faculdade de Teologia e Ciências Humanas de Passo Fundo.

Praxis

“A Cruz de Encruzilhada Natalino exerceu um efeito psicológico muito forte sobre os acampados (…) sentiam-se atores de um processo social em desenvolvimento” (Pe. Elli Benincá)

As diferenças que geram estes conflitos se cruzam nas missas de domingo. Os cânticos religiosos pregando a resistência e a luta pela Reforma Agrária, de distribuição igualitária, de forma que o trabalhador se tornasse patrão e não empregado, desagradava os grandes proprietários rurais que dividiam a mesma eucaristia, o mesmo espaço dentro da igreja. Por outro lado a discriminação de uma raça nativa e também mestiça veio no encalço do movimento, “os caboclos, religiosamente, sempre foram considerados incapazes (…) tiveram poucas oportunidades ns comunidades religiosas”, trecho publicado no livro, de uma entrevista com o padre Arnildo Fritzen, então pároco de Ronda Alta quando começou a ser montado o acampamento da Encruzilhada Natalino, marco inicial do MST. Para agravar ainda mais a desacomodação destes trabalhadores, em grande parte nômades e, portanto, não tinham noção nem mesmo intenções de propriedade, os pequenos agricultores descendentes de europeus, estes sim decididos a serem donos de terra, também consideravam os caboclos uma “raça inferior”, incapacitados para o trabalho no campo.

É possível a solidariedade ideológica de pessoas de uma classe com a ideologia da outra?  Como se pode construir uma visão de mundo que agrade a todos? Enfim, como lidar com a carga ideológica de um discurso religioso e a manutenção do status quo? São questões debatidas e analisadas num trabalho de pesquisa e de estudos do comportamento humano. Um relato de um época recente que deve se somar ao conhecimento daqueles que se interessam pela história e o intrincado jogo dos movimentos sociais na busca de espaço e de conquista dos seus direitos.

No jantar de reconciliação sobrou pra capivara e o camundongo

Vazou o conteúdo da conversa de Temer com o líder do locaute dos caminhoneiros, aquele mesmo que se disse negociador, negociou, mas não representou a totalidade da categoria. Foi durante um jantar no Jaburu

– Acho que foi bom pros dois lados o desfecho da greve, não te parece Michel?

– Olha agsrfhsfg… (inaudível), vocês me deram uma sobrevida

Risos

– É, precisávamos dar uma agitada pra desviar a atenção, aliás, a tensão sobre vossa excelência

– Mas o início foi tumultuado

– Sim, o Padilha foi com muita sede ao pote, antes mesmo da reunião ele já tinha convocado a imprensa pra dizer que estava tudo resolvido

– Aí o carinha aquele agsfrbshrs (inaudível), furou o acordo, saiu da reunião dando entrevistas e bagunçou o combinado

– Peço-lhe desculpas excelência, mas esta atitude não estava no script, mas lhe foi chamada a atenção. Com certeza isso não se repetirá

– Assim espero, não podemos contrariar nossos investidores, eles são o esteio da nossa economia

– O senhor diz da nossa economia particulaaaar né presidente?

– Bem por aí

– Mas preciso lhe fazer mais um pedido excelência. As Forças Armadas, o senhor mandou desbloquear as estradas e tem um grande numero de caminhões das nossas empresas, estou temendo danos ao nosso patrimônio

– Fica tranquilo, já pensei nisso, aliás tenho caminhões, ou melhor, amigos pessoas que tem empresas de transportes e que já me pediram para que as forças de segurança dêem guarida e auxiliem na retirada dos veículos de vocês do meio dos autônomos

– Excelente excelência, saindo o último não haverá mais problema

– Sim, garantido a integridade da frota, depois é repressão total

– Os autônomos vão resistir

– A ordem é baixar o cacete

– Muito bom presidente, muito bom, assim eles passam a obedecer mais a gente

– Sim, meu governo é de austeridade

– Claro excelência, todos sabem disso embora escondem os altos índices de aprovação do seu governo

– Isso é inconcebível, tão de sacanagem comigo

– Agora vai ser mais difícil, ainda mais que o povo já está descontente com o senhor e seus ministros, bem como o Parente, que gerou esta M toda

– O povo não tem problema, é só encher o tanque que esquece tudo

–  E a imprensa?

–  Padilha já negociou com eles, todos muito bem partrocinados, a pauta vai ser positiva

– O senhor é esperto excelência, não é por acaso que chegou ao topo

Risos, muitos risos… e algumas chacotas

– Mas no final acho que deu tudo certo, os meus ministros te atenderam direitinho?

– Não tive maiores problemas excelência, só acho que poderíamos ter valorizado mais esta negociação

– Como assim?

– O grau dos negociadores podia ter sido mais refinado.

–  Não gostaram deles?

–  Não é isso presidente, vou lhe contar, o pessoal até ironizou a dupla esclada pelo senhor para solucionar um problema nacional

–  Ironia?

–  Sim, diziam que a capivara do Padilha ainda passa, agora, aquele camundongo do Marum…

Risos, muitos risos, rolaram de rir… Marcela chegou a ir até a porta da sala de jantar para conferir o que se passava, preocupada que o Michelzinho acordasse

– É o que a casa oferece, disse Michel, selando a conversa.