As bestas e a pomba gira

A dupla Janair acha que não merecemos um país tropical abençoado por Deus e blá, blá, blá. Acha que tá na hora do demônio fazer a sua parte, vindo da tormenta, liderado por sua vice-presidenta com bestas de capas pretas, transmissão ao vivo e seguidores aplaudindo e pedindo bis.

Pior do que imaginar esta cena é saber que tem pessoas que defendem este estado de coisas. O medo é tanto em ver de volta a equerda no poder que legiões de analfabetos sociais para nao dizer coisa pior, se lançam neste caminho das trevas para proteger corruptos e corruptores, que tomaram o poder e precisam arrebanhar seguidores para a se manterem impunes e com foro privilegiado.

A bandidagem esta no comando e quem defende a sua permanênciaacoberta seus crimes. Já enganaram muitas vezes, agora é a vez de acabar com eles.

O gatuno de Passo Fundo

 

Saio do supermercado Zaffari da Rua XV de Novembro com uma dúzia de pães franceses, que a gauchada chama de cacetinho. Avanço na direção da casa da minha irmã que aguardava com uma canja para fazer frente ao minuano que soprava nesta noite gelada. Alguns passos adiante, nas proximidades do edifício treme-treme, do nada surge um vulto que, de um jeito decidido foi tirando a minha frente e indagando sobre minha recém aquisição no mercado.

– Pães, apenas pães.

– Não se trata de um assalto, mas, se os pães não vierem de boa…

– Vai sujar suas mãos por meia dúzia de cacetinhos?

– Não é isso, vai alcançar na boa?

– Mas quem sabe repartimos?

– Já falei de boa.

Minutos depois lá estava eu na fila do pão solicitando nova remessa.

A atendente era a mesma, com um olhar estranho entregou-me o pacote. Desta vez tomei outro rumo, desviando pela Rua Teixeira Soares, cruzando o Hospital São Vicente na direção do antigo quartel do Exército até atingir a Tavessa Wolmar Salton.

Qual não foi minha surpresa ao ver, debaixo de uma marquise, o meu algoz com os meus pães, já acompanhados de queijo e salame e uma garrafa térmica de café com leite.

Sim, identifiquei item por item porque parei na frente dele e perguntei se o meliante precisava de mais alguma coisa.

Na maior calma ele continuou mastigando e disse que já estava servido.

– Por hoje tou satisfeito, respondeu com um ar de gentileza.

Chegou a oferecer os cacetinhos que sobraram, mas eu nunca faria esta desfeita, claro que se viessem com o queijo e o salame a conversa mudava de rumo.

– Fica pra você, afinal é fruto do TEU trabalho, proclamei quase aos berros e me retirei.

Nem meia hora depois, eu, na canja, pensando naquele andarilho que degustava nas minhas barbas um sanduba de pão, queijo e salame. Confesso, é o meu sanduiche predileto.

 

O cronista e suas fases

O fino da crônica está no espaço e no tempo em que ela ocorre. O cronista precisa ver uma cena, vivenciar um fato, ouvir, sentir, cheirar, criar e escrever com leveza, ironia e sensibilidade. O cronista que não anda nas ruas, não pega ônibus, não vai ao mercado público e não conversa com o taxista, o barbeiro, o engraxate, não pode ter a dimensão dos fatos. O cronista é aquele que está fora da cena, fora da noticia, fora do salão de baile. Ele não precisa anotar nada nem fotografar a briga de trânsito, ele só precisa ter a dimensão da história e associar os fatos. O cronista não tem lado, tem unhas e dentes afiados, uma língua envenenada, um texto mortal. É dever do cronista se acomodar num bar ou no café da padaria e ficar ouvindo o as conversas ao redor da sua mesa. A vida alheia é o fertilizante da memória para produzir histórias. O cronista é um observador, é o que não se envolve, é o que fica de longe contemplando o movimento, é o popular. É o fio condutor que se mantém neutro e não protege ninguém.

Fora isso, ele não passa de um fascinado que se impressiona quando se depara com a realidade dos fatos e sai relatando para o mundo o chão que pisa, depois, retorna a fraude do seu descaminho.