O cronista e suas fases

O fino da crônica está no espaço e no tempo em que ela ocorre. O cronista precisa ver uma cena, vivenciar um fato, ouvir, sentir, cheirar, criar e escrever com leveza, ironia e sensibilidade. O cronista que não anda nas ruas, não pega ônibus, não vai ao mercado público e não conversa com o taxista, o barbeiro, o engraxate, não pode ter a dimensão dos fatos. O cronista é aquele que está fora da cena, fora da noticia, fora do salão de baile. Ele não precisa anotar nada nem fotografar a briga de trânsito, ele só precisa ter a dimensão da história e associar os fatos. O cronista não tem lado, tem unhas e dentes afiados, uma língua envenenada, um texto mortal. É dever do cronista se acomodar num bar ou no café da padaria e ficar ouvindo o as conversas ao redor da sua mesa. A vida alheia é o fertilizante da memória para produzir histórias. O cronista é um observador, é o que não se envolve, é o que fica de longe contemplando o movimento, é o popular. É o fio condutor que se mantém neutro e não protege ninguém.

Fora isso, ele não passa de um fascinado que se impressiona quando se depara com a realidade dos fatos e sai relatando para o mundo o chão que pisa, depois, retorna a fraude do seu descaminho.

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *