O gatuno de Passo Fundo

 

Saio do supermercado Zaffari da Rua XV de Novembro com uma dúzia de pães franceses, que a gauchada chama de cacetinho. Avanço na direção da casa da minha irmã que aguardava com uma canja para fazer frente ao minuano que soprava nesta noite gelada. Alguns passos adiante, nas proximidades do edifício treme-treme, do nada surge um vulto que, de um jeito decidido foi tirando a minha frente e indagando sobre minha recém aquisição no mercado.

– Pães, apenas pães.

– Não se trata de um assalto, mas, se os pães não vierem de boa…

– Vai sujar suas mãos por meia dúzia de cacetinhos?

– Não é isso, vai alcançar na boa?

– Mas quem sabe repartimos?

– Já falei de boa.

Minutos depois lá estava eu na fila do pão solicitando nova remessa.

A atendente era a mesma, com um olhar estranho entregou-me o pacote. Desta vez tomei outro rumo, desviando pela Rua Teixeira Soares, cruzando o Hospital São Vicente na direção do antigo quartel do Exército até atingir a Tavessa Wolmar Salton.

Qual não foi minha surpresa ao ver, debaixo de uma marquise, o meu algoz com os meus pães, já acompanhados de queijo e salame e uma garrafa térmica de café com leite.

Sim, identifiquei item por item porque parei na frente dele e perguntei se o meliante precisava de mais alguma coisa.

Na maior calma ele continuou mastigando e disse que já estava servido.

– Por hoje tou satisfeito, respondeu com um ar de gentileza.

Chegou a oferecer os cacetinhos que sobraram, mas eu nunca faria esta desfeita, claro que se viessem com o queijo e o salame a conversa mudava de rumo.

– Fica pra você, afinal é fruto do TEU trabalho, proclamei quase aos berros e me retirei.

Nem meia hora depois, eu, na canja, pensando naquele andarilho que degustava nas minhas barbas um sanduba de pão, queijo e salame. Confesso, é o meu sanduiche predileto.

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

4 comentários em “O gatuno de Passo Fundo”

  1. Certa vez, eu li num livro, do qual não lembro o título, a seguinte frase: “Ganhe o seu sustento com honestidade. Se não for possível, ganhe de qualquer modo”. Esta frase era atribuída a um filósofo. Esqueci também o nome do filósofo. Se alguém sabe, por favor me informe. Informo que nasci em Passo Fundo, mas que no tempo em que morei lá, nunca tive conhecimento de um deste tipo. Gatuno? Talvez o título do conto esteja amenizando, porque, na realidade, foi um assalto. Se fosse um gatuno, passava na corrida, arrancava o pacote com os pães e fugia. (Luciana Carrero – escritora / Porto Alegre)

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