Memórias de um sacristão proscrito

 

Lá se vai meio século quando, no dia do aniversário da dona Ilga, fui excluido da sacristia pela simples razão de trocar as bebidas do altar. Havia na frigideire da casa canônica, uma garrafa de cachaça Marumby, junto com as de vinho que, por ocuparem espaço menor do que um garrafão, era colocado em garrafas com rótulos de bebidas variadas, desde a gasosa às cervejas, e claro, a cachaça. Era onde abastecíamos os pequenos cristais, galheteiros para a eucaristia. No lusco-fusco, dei de mão na primeira garrafa que se apresentou. Era a maldita da cachaça. Sem prestar o mínimo de atenção e ao menos desconfiar da presença da intrusa, completei o vinho que restava no reservatório.

Foi numa noite de sábado, minha mãe não costumava ir á missa, nem no dia do seu aniversário. Ficou em casa preparando um jantar de carnes e massas e eu mal podia esperar a hora de chegar para comemorar com a família e mesa farta os seus 44 anos.

Vestido de coroinha, uma batina vermelha e uma túnica branca – sobrepeliz, eu estava concentrado ao lado do altar. Enquanto o monsenhor rezava a missa eu tentava entender a desavença que tive a tarde numa disputa de bolitas, modalidade três covinhas, no pátio do colégio. Perdi um único e raro baletão com o desenho das Três Marias e o Cruzeiros do Sul, o mais cobiçado. Desconfiei da trapaça, o mindinho de um pé desviou a leiteira que lancei com precisão, mas que beirou e não caiu na caçapa. Foi uma armadilha, pensei, e já estava prestes a sair dali para desafiar os inimigos e declarar uma guerra de taquaras, sem precedentes, quando ouvi protestos do sacerdote em meio a celebração. Freiras agitadas na sacristia, a missa parou na eucaristia.

– O vinho virou cachaça, disse a irmã Terezinha

– Milagre, alguém gritou lá de fora

– O Monsenhor tá furioso, parou a missa, disse dona Carlota

– É coisa do demônio, falou o coletor de esmolas

– Quem foi que abasteceu o altar? Perguntou a irmã Zoé

Os olhos se voltaram para o sacristão, já sem as vestes de coroinha e como um raio abandonou o local vestindo bermuda de saco de farinha de trigo, tingida de azul Guarany, suspensórios, uma camisa volta ao mundo e botina de couro esfolado.

Durante o jantar de aniversário a casa foi visitada pelas irmãs, a notícia se espalhou depressa, ceia interrompida, só faltou o sermão do padre. O assunto encerrou quando minha mãe questionou a presença da cachaça na geladeira.

No dia seguinte procurei meus adversários do jogo de sábado para negociar ou declarar guerra. Recuperei o bolitão, no tapa, mas voltou.

 

O arsenal e a fagulha

Doutor Tenebro estava parado diante da churrasqueira, pasmo com a notícia que acabara de ler. Uma fagulha pode ter provocaso o incêndio num barraco da periferia, matando duas crianças que ficaram em casa, sozinhas, enquanto a mãe saiu para trabalhar.

A nota foi publicasa sem muito destaque, já que o a tragédia foi bem longe da sua cidade, aliás, do outro lado do pais, mas despertou o interesse do velho advogado, pelo tamanho poder de destruição de uma faísca.

Como um tição tão pequeno pode fazer tanto estrago? Era a pergunta que o doutor fazia para ele mesmo. Ideias tenebrosas lhe vieram a memoria, enquanto olhava uma pilha de carvão acomodada sobre buchas de jornais.

No Fundo, o que mais chamou a atenção do dr. Tenebro, foi a repentina descoberta de cortar caminho para iniciar o fogo do churrasco, uma batalha que enfrentava todas as semanas. Suas armas eram o jornal de domingo, uma garrafa de álcool e um a caixa de fósforos. Chegava a gastar todo o suprimento num mesmo dia e, em algumas situações, precisava apelar para o forno a gás.

Não entendia como que ele, dotado de todo o arsenal para um incêndio de grandes proporções tinha menos poder de fogo comparado a uma simples fagulha.

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