O conciliador

Haddad até pode estar virando esta eleição pelo que revela a pesquisa Vox Populi, sem o apoio dos partidos tradicionais como o PSDB, MDB, PP, DEM, PTB que apoiam o Bolsonaro. São partidos que nunca sairam do poder, isso é fato. Haddad vencendo, o que não me parece tão fácil ou provável assim, não vai precisar distribuir uma vela para cada santo. Pense, não é uma virada de mesa? Livres da casta politica que domina o país há mais de 500 anos. É a oportunidade para retomar os projetos sociais que beneficiam pobres, ricos, tranalhadores, pequenos e grandes empresarios, a agricultura familiar e o agronegócio. Não é por acaso que coração da democracia bate do lado esquerdo do peito que é onde tem lugar para todos.

Janela da vergonha

É uma vergonha a Justiça opressora que proíbe manifestações e discussões dentro das universidades. Sinto-me penalizado depois de integrar a geração de jornalistas brasileiros que democratizou a comunicação na Justiça criando a Rádio e TV Justiça, o Fórum Nacional de Comunicação & Justiça e todos os seus braços de discussão da transparência do judiciário e do ministérios públicos dos estados e da união. Na hora em que as velhas raposas, de dentro dos seus gabinetes, se acovardam diante de ameaças de inimigos virtuais isolados em suas tocas com seus joguinhos de guerra e de terror, fico imaginando o que seria deste país se não tivéssemos esta gente corajosa que aos milhões sai de casa para superar o silêncio dos também acovardados meios de comunicação e quebrar o silêncio das ruas para, em alto e bom tom, dizer – Não!

O MEC do Messias

 

O pai, sr. Brasil, entra no quarto e se depara com a filha devorando um Kama Sutra. Quase ignorando a sua presença ela continua lendo e observando as posições.
 
Num impulso messiano o pai arranca o livro das mãos da menina aos gritos de – Pouca vergonha!
 
Ameaça jogá-lo pela janela quando é interrompido, calmamente, pela filha que diz:
 
– Estou estudando, pai.
 
– O quêêêê… Estudando esta imoralidade, esta safadeza? Não sei por que não te quebro ao meio sua…
 
– Olha com o que vai dizer…
 
– Sua desajustada
 
– Ah, melhor
 
– E ainda tá me tirando?
 
– Posso explicar?
 
– Nada vai me convencer
 
– Pai, leituras, filmes e revistas eróticas fazem parte novo currículo escolar, educação sexual, sexualidade, sacou?
 
– Sacou porra nenhuma, ficou louca, bebeu, fumou? Parece alucinada.
 
– Tou te falando que é o currículo.
 
– Não queira me enrolar, inventa outra história, te peguei no flagra com esta… esta…
 
– É melhor deixar pra lá e acreditar em mim, sério, é a nova realidade da escola.
 
– Mas nem que a vaca tussa, vou já trocar você de colégio e tá proibida de pisar lá a partir de agora.
 
– Mas pai…
 
– Mais um ai e vou te encher de porrada!
 
Pensou melhor e resolveu anunciar a sentença da filha ali mesmo:
 
– Vou colocar você na escola do Júnior, séria e educadora, não quero filha puta, vagabunda, depravada…
 
Visívelmente transtornado, aos berros, sai do quarto com um Kama Sutra debaixo do braço e quase o coração sai pela goela ao ver, em cima da escrivaninha, uma edição da G Magazine. Dá de mão na revista e sai do quarto chamando Joana, a empregada.
 
– Fica de olho na Kathyanne, não deixa que ela saia do quarto e nem pensar em sair pra rua.
 
Tenta insistentemente ligar para a mulher que está no salão de beleza fazendo cabelo, pé e mão para o encontro de casais da TFP à noite. Leva algum tempo para atender, deixando Brasil impaciente até que enfim:
 
– Joyce, vem já pra casa, peguei a Kathy mergulhada em livros e revistas de pornografia, uma pouca vergonha o que tá acontecendo nesta casa.
 
Minutos depois Joyce rompe a porta de casa, ainda com um bob’s no cabelo. Júnior também chega da aula, quase ao mesmo tempo. O pai pede pra Joana chamar a filha no quarto e inicia uma inquisição na sala de jantar.
 
– Depois de muitos palavrões, batidas na mesa, chute nas cadeiras e ameaças de fechar a escola para sempre e denunciar tudo para presidente da nação, é interrompido pelo filho.
 
– Mas pai, lá na minha escola também é assim.
 
– Como assim, essa putaria toda?
 
– Sim pai acabei de ver um filme do ministro, sadomasoquismo puro, homem com homem, direto, o ministro inclusive, no papel principal, vestido de noiva.
 
– Do que você tá falando pirralho desgraçado, que ministro é este?
 
– O Frota pai.
 
– Que Frota? Caralho!
 
– O Alexandre Frota, ministro da Cultura, tou virando fã dele, ele traça tudo o cara é de fudê.
 
– CHEGA!!!
 
– Mas pai agora é praxe estudar a vida dele, a professora disse que são ordens de Brasília.
 
O pai acusa o golpe, sente que perdeu o controle da casa, o sangue sobe de um jeito incontrolado, o pai tem um chilique, vira os olhos, amolece o corpo e desaba no carpete.
 
Enquanto a empregada chama a ambulância, Joyce sacode o marido aos gritos de:
 
– Acorda Brasil… acorda!!!
Crônica: Flávio Damiani
Arte: Daniel Cruz

 

Metáforas

O grilo falante esqueceu de avisar o pequeno gafanhoto que o que se combina em casa não se fala na Rua. Quando lembrou já era tarde, o estrago já estava a caminho. Mexeu com as aranhas justiceiras deixando-as em alerta. Suas teias foram reforçadas formando uma rede de desconfiança. Elas são quietas, unidas e corporativas.

O grilo, por sua vez já havia reclamado das cigarras por não gostar da sua forma de comunicação com os outros insetos. Prometeu cortar regalias e foi ao bispo para negociar o desmatamento químico do átrio em todas as igrejas onde vivem as cigarras transformando-as num envenenado jantar do formigueiro.

Mas as formigas não se contentam mais com cigarras, afinal, elas são trabalhadoras e compram comida, armazenam em suas amplas dispensas e preparam os melhores pratos feitos com os eletrodomésticos que conseguiram comprar graças aos programas sociais do molusco.

As formigas, no entanto, nunca tiveram uma boa relação com o grilo, elas são trabalhadoras e ele fala demais. Um por se posicionar favor da retirada das conquistas da categoria trabalhadora da qual as formigas são as legitimas representantes, outra pelo seu cego desejo de esmagá-las pisando seus carreiros.

As formigas também estão quietas, elas não são corporativas, mas são cooperativas e educadas por terem acesso às escolas. Também não tem força nas pesquisas porque a pesquisa raramente vai a periferia.

Difícil entender você

Uma vez quando eu era guri pequeno na minha cidade houve um assassinato. Pessoas que se davam bem brigaram num baile, facões cortaram o ar e o couro, numa peleia das boas. Um corpo caiu e o outro foi embora, mesmo ensanguentado.

A notícia correu no povoado; eram amigos de infância, o que é que deu errado?

Aí, minha mãe, que costumava anotar os nomes dos amigos a lápis pra ser mais fácil apagar, não confiava nem um pouco de que amigos do peito não brigam e que por muito menos se matam. Em meio a uma conversa com a tia Marieta no portão da casa, ouvi ela dizer, despretenciosamente:

– É difícil entender as pessoas.

Aquilo me acompanhou anos e eu achava que ela tinha exagerado nas palavras, falou pouco, faltou alguma coisa pra frase dela ter ficado completa.

Busquei entender a resposta da minha mãe a vida toda. Presenciei amigos brigarem e se jurarem de morte e no dia seguinte encontrá-los abraçados ao redor de uma mesa de bar.

Aquele caso lá na minha infância deve ter sido algo isolado, imaginei; aquilo que não se pode explicar, mesmo porque não foi investigado.

Hoje, no entanto, ao ver que as amizades se desfazem numa tecla, num comando, pessoas morrendo por dentro, tomadas pelo ódio e sem amor ao próximo agridem um teclado com violência para denunciar sua insatisfação, ou até mesmo num desabraço após a discussão de bar, eu vejo que a minha mãe estava coberta de razão. – É difícil entender as pessoas.

Tem tolo pra tudo

Um fato precisa ser levado em consideração na política; a direita brasileira sempre esteve no poder, mesmo no governo dos trabalhadores. No regime militar, lá estava a ARENA dando suporte à ditadura.

Agora MDB, PSDB e PP (antiga ARENA), se unem a Bolsonaro para manter seus privilégios, são apoios que envolvem cargos, ministérios, livre trânsito (sem prisões) e o achatamento das conquistas previdenciarias, já que as trabalhistas o proprio Bolsonaro ajudou a enterrar. São os mesmos que derrubaram o governo dos trabalhadores quando este deu carta branca à Policia Federal para investigar e por na cadeia os verdadeiros ladrões da nação. Pois tomaram o poder, prenderam quem eles queriam prender, Lula, imbatível nas urnas e o Cunha, protótipo do idiota sonhado pela direita,  descartado depois de fazer o jogo sujo.

É a elite se armando para o próximo golpe que é o de apoiar um capitão e um general, rebaixado. A elite, é bom que se lembre, representa uma minoria, mas com poder de convencimento extraordinário baseado na mentira e na omissão da mídia. Abra o olho, tem tolo pra tudo, não seja um deles.

O fantasma da velha senhora

A velha senhora tinha uma ferida sobre o nariz que não cicatrizou até a morte. Um ninho de parasitas, uma diversão para moscas e varejeiras. Tinha 14 filhos e fama de beberrona.

Escondia, no velho casarão de madeira, garrafas de vinho e grappa. Discretamente distribuídas pelos cantos, volta e meia eram localizadas pelas filhas durante uma faxina e outra.

O médico proibia, mas ela sempre dava um jeito. Os porões, fartos de pipas, eram um estimulo para ela que descia todos os dias para conferir se a bebida estava no ponto. Degustava todas como se cada prova fosse o último gole.

Charge do Daniel Cuz

Um dia antes de partir, no seu leito de morte, ela fez o seu último e derradeiro pedido. Sem a força necessária na voz, fez um sinal ao doutor, puxando o braço até a frente do peito e com a mão fechada apenas esticou o polegar e o mindinho, um gesto tradicional nas tabernas sinalizando copo de vinho. O médico liberou e ela bebeu o último cálice.

A casa da velha senhora fechada com trincas de madeira, não tinha chave, tão pouco fechadura, qualquer um entrava e saia como bem entendia. Mas desde o desencarne a casa ficou vazia, sem movimento a não ser das cortinas ao vento num bailado fúnebre e aterrorizante para as crianças do povoado. Vez que outra alguém chegava ou saia buscando alguma coisa. Os dias foram se passando e a desconfiança de que o casarão era visitado por forasteiros moinantes foi se tornando quase que uma verdade.  Os pretensos fantasmas desencovados do campo santo faziam grandes algazarras, depois iam embora sem mexer em nada, tudo ficava no seu devido lugar.

Os pequenos eram os mais atiçados e se empolgavam com os detalhes nos relatos dos adultos, causos recheados de personagens de parentes mortos ou desconhecidos que vagavam pelas matas a procura de uma confortável cova para descansar o esqueleto. Os olhos destas crianças estavam sempre voltados para o velho casarão que ficou fechado naquela primavera, mas bem vigiado pelos olhos infantis que passavam horas debaixo dos pés de camélias carregadas de flores que iam do branco ao vermelho passando pelo lilás e o amarelo, com um perfume doce e intenso. Misturado ao aroma dos figos e pêssegos inundavam como um bálsamo nas tardes de sol e preguiça. Da sombra das cameleiras as crianças vigiavam a casa de janelas enormes e cortinas longas que deixavam frinchas que vazavam movimentos do lado de dentro. Revezavam-se durante o dia já que a noite faltava-lhes coragem para se aventurar. Um simples deslocamento de ar numa cortina ou ringir uma janela era suficiente para chamar a atenção e não raro disparar os curiosos de volta para suas casas.

Os dias foram passando e o desinteresse foi tomando conta. Por fim, a vigília foi deixada de lado, as histórias contadas em noites de filó não tinham mais fundamento, nada foi visto, nada foi constatado.

O casarão ficou lá por muito tempo intocado, cortinas ao vento, pombos ocupando os oitões e morcegos dando rasantes atrás e algum inseto distraído. As noites eram macabras e as crianças não chegavam nem perto, afinal, «No creo en brujas, pero que las hay, las hay», há que se ter prudência.

Certa noite, no entanto, dois  meninos que vagavam pela vizinhança fazendo pirraça e lambança, viram a porta do casarão abrindo e fechando sem que alguém entrasse ou saísse. Como não acreditavam mais em fantasmas ou assombrações deslizaram por entre as camélias e se depararam com a silhueta da velha senhora que agachou para pegar uma garrafa e servir um cálice de vinho. A fresta na janela não deixava duvidas, era ela que voltara para reclamar seu troféu escondido e não achado. Houve uma gritaria, um rebuliço, as crianças brancas do susto, uma palidez indescritível, dispararam até a casa dos avós, que ficava próxima

Com a língua de fora e buscando o último ar para recuperar o fôlego, relataram o ocorrido, com requintes de medo e pavor.

– É uma invenção á toa, disse o avô, recém jantado, ouvindo o noticiário no rádio valvulado.

– Parem de andar por aí vendo coisas, ninguém entra ou sai da casa que não seja visto disse a avó, mandando as crianças para suas casas.

Mas, nada de arredarem o pé, não sairiam daí sozinhos, nem sob tortura, aliás, uma pratica comum à época nos porões da ditadura. O medo tomava conta do corpo inteiro, as pernas tremiam se controle e os calafrios eram constantes.

E tanto insistiram que a avó decidiu levá-los para casa. No caminho a avó, corajosa, para provar que nada tinha de anormal entrou na casa e saiu com uma taça na mão com um ar preocupado.

– Engraçado, alguém bebeu vinho e deixou o copo sujo aí dentro, comentou a velha senhora, acrescentando que: – Ninguém vem aqui, já faz um tempo.

Os meninos que acompanhavam o movimento desde as camélias aceleraram o passo e em segundos disparavam como um bólido na direção de casa. Desde aquela noite nunca mais foram vistos vagando pelo povoado depois do cair da tarde.

Charge do Daniel Cuz