O espelho sem face

Acordo em Passo Fundo e enquanto preparo o chimarrão ouço o locutor no rádio comemorar a lista de ministros e dos partidos que estão do lado do presidente eleito, afirmando que agora homem só casa com mulher, que trabalhador vai ter que se submeter às leis do patrão senão fica sem emprego, que neguinho tem que levar pau mesmo se não obedecer às regras do novo comandante que vem aí, elencando uma série de outros comentários que beiram a destruição da raça que ele chama, pelo o que eu pude entender, inferior.

Não demorou nem um segundo para lembrar o livro – Ensaio sobre a cegueira, em que José Saramago já alertava sobre uma epidemia branca que se espalhou incontrolavelmente numa cidade, resguardando os cegos em quarentena, reduzidos à essência humana. Recolhidos a um manicômio, quem podia enxergar se fazia de cego evitando que as pessoas se aproveitem da sua condição, além das gangues que se formam dentro desta microssociedade com o surgimento de lideres que procuram tirar vantagem sobre outros na mesma condição de cegueira.

Não vejo problema algum, enquanto tomo um mate, relacionar a obra do escritor português ao comportamento de boa parte dos brasileiros que, de um bom tempo para cá, vem elegendo os que se posicionam por meio dos discursos de intolerância, violência, preconceito e sobretudo, a total incoerência em tudo o que dizem, prometendo acabar com os malfeitores que roubam a nação. Políticos que para atrair a confiança do eleitor sopram fúrias aos quatro ventos afirmando que lugar de condenado (leiam-se, ministros do futuro governo), é na cadeia, que a constituição é soberana e por aí vai. O que se vê são brandidos condenados e o que deveria ser justiceiro integrados no mesmo grupo. Um juiz submetido às regras dos delinquentes.

Os cegos elegeram Donald Trump. O guru da direita, Olavo de Carvalho, doutrinou milhões com sua fake visão, ocupando um vazio desprezado pela esquerda, elegendo o mais improvável.

É preciso recuperar a lucidez e resgatar o afeto desta legião de peregrinos que se jogaram confiantes numa aventura sem a mínima segurança. José Saramago nos obriga a fechar os olhos e ver “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Pronto, desligo o rádio e vou preparar o café.

 

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *