Dona Pikuxa, o pangaré e a filha Venenosa

 

Venenosa nasceu no segundo decanato de escorpião e tem nome de signo. Mãe zelosa e filha do mesmo naipe patrulham os passos da pobre criatura que tem uma amor secreto. Sob o roupeiro a mãe guarda uma espingarda de dois canos pro caso de algum apuro. Diz que é para espantar os gatos, mas não revela a espécie. Se é de quatro ou talvez de duas patas.

Venenosa certa feita estava em casa e recebeu uma ligação do Panga, um fazedor de fretes que andava na redondeza fornecendo algumas entregas e na tentativa de priorizar a atividade fim ligou pra Venenosa. Sim, o Panga também era um fornecedor de prazeres. Ao saber que ela estava sozinha em casa, resolveu dar uma escapadinha, deixou a caminhãozinho estacionado a mais ou menos duas quadras de distância para não levantar suspeita e largou no trote. Passadas cadenciadas para não chamar a atenção da vizinhança, invadiu o portão da frente que o esperava meio aberto. Assim que atravessou a fronteira da rua para a casa o controle remoto selou a segurança. Ninguém os perturbaria.

Panga sentia mais medo da mãe do que da filha, sim dona Pikuxa tinha porte de arma. Trataram de se apressar das iniciais aos finalmente. Tudo corria bem até que uma voz do outro lado da fronteira invade o território do amor.

– Filha tu taí? abre o portão que tou sem a chave…

Aquilo foi de subir a pressão numa tarde de verão, o Panga suava em bicas e Venenosa emudeceu.

Tentou fugir pelos fundos, mas a floresta densa de unhas de gato e japecanga não favorecia uma retirada estratégica, mesmo porque na correria ele deixara a metade das roupas espalhada pela casa.

Virou a casa dos cochichos.

Venenosa se arrastando de quatro para não ser vista da rua deu de mão no telefone e ligou para uma vizinha de quadra.

– Amiga, estou em apuros, me salva!

Ouvindo o tom de pavor cochichado, berrou em voz baixa:

– Tem ladrão na tua em casa?

– Quase isso, tem alguém aqui dentro sim, mas o problema é lá fora.

– Vou aí ou chamo a polícia?

– Só quero que você chame a minha mãe pra tua casa, ela tá no portão, depois eu te explico… o Panga tá aqui, entende?

A vizinha que interrompeu o banho para atender  amiga, deu uma volta no quarteirão e como se, por acaso, recolheu dona Pikuxa que se mostrava curiosa com tudo aquilo.

– O celular toca lá dentro e ela não atende, reclamou a mãe.

– Deve ter saído e deixado o telefone, disse a amiga vizinha.

Neste meio tempo, Venenosa tratou de despachar o Panga. Ah, sim, Panga é o diminutivo de Pangaré, um apelido carinhoso que recebeu das gurias por se considerar o garanhão do pedaço. Saiu de fininho pelo portão da frente sem olhar para trás, literalmente chegou a trote e saiu a galope.

Ao se aproximar da caminhãozinho de mudanças, encharcado de suor, ele ouve um chamado:

– Ei moço, pra que tanta pressa, chega a aqui, quero falar com você.

Era a mãe da Venenosa no portão da casa da vizinha, queria contratar um frete.

Mas Panga estremeceu com a tanta sutileza e desabou de susto ali mesmo, no meio da rua.

Reanimado, abriu os olhos e viu a idosa com uma espécie de arma na mão que o fez retornar ao seu estado letárgico. Ele jamais descobrirá que aquele cano que mirava em sua direção era uma sombrinha que dona Pikuxa carregava. Só recuperou a memória quando já estava longe, salvo e acomodado na ambulância do Samu.

 

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

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