A última ceia

 

Quem é mais importante na conservação e preparo dos alimentos?

Pois houve um conclave para discutir a utilidade dos utilitários. Porém, não contavam com  o elementos surpresa, uma espécie de Judas que invadiu a ceia para crucificá-los.


Ilustração, Daniel Cruz

Foi num jantar na grande mesa dos eletrodomésticos. Eram doze no total, mas um estava atrasado. Assim mesmo iniciaram a grande conferência. A geladeira por ser a maior de todas destacou a sua importância na vida das pessoas, afinal, sem ela não tinha como conservar alimentos e nem água gelada para os dias de calor como o de hoje em Porto Alegre.

– Não fosse por mim a comida estragaria e haveria uma grande epidemia, disse a Consul que não era bem uma Brastemp.

O micro-ondas evidenciou a sua agilidade no aquecimento dos alimentos o que desagradou o fogão a gás que se sentiu rejeitado. O forno elétrico também não gostou nada do que ouviu e ameaçaram defenestrá-lo do quinto andar,  mas foram impedidos pela cafeteira que serviu um expresso passado na hora, evitando uma cisão.

Já a grelha disse que unia os casais, deixava o jantar mais romântico, ao passo que o réchaud se vangloriava:

– Não tem jantar romântico sem a minha presença, queijos e vinhos é a minha especialidade.

O split aproveitou a deixa para lembrar que é ele quem aquece o ambiente durante e depois do jantar.

O chuveiro lembrou que é dele o banho quente.

A máquina de lavar reivindicou os louros.

– Afinal, quem limpa a sujeira das louças deixadas na cozinha?

O mixer, que até então estava quietinho, ouvindo tudo, resolveu se rebelar e disse que sem ele não haveria preparo de alimento algum.

– Eu trituro, eu fatio, eu misturo eu tenho 1001 utilidades.

Foi quando entrou na sala, atrasado, o liquidificador, de sombreiro vestindo roupas de caubói, arrastando as botas e cuspindo ódio.

– Além de não me esperarem para iniciar a ceia, sou obrigado a ouvir deste nanico que ele é mais importante do que eu! Exclamou aos berros, ameaçando transformar todos em suco.

A turma do deixa disso tentou acalmá-lo, mas, ele estava incontrolável, se sentido dono da razão e da verdade. Os ânimos estavam alterados o consumo de energia aumentou, já era alta voltagem na veia, o ambiente estava prestes a explodir e o liquidificador, uma arma perigosa reconhecida por lei e se sentido poderoso nesta condição, resolveu acabar a celebração. Disparou suas lâminas contra a caixa de luz interrompendo o fornecimento do sangue energizado a esta altura bombeado com a pressão de uma comporta de Itaipu. O corte abrupto atingiu o coração de cada eletrodoméstico, todos morreram na hora, inclusive o liquidificador que, por se achar acima da lei, de longe imaginava que poderia sucumbir com a sua própria arma.

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

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