O pinto e a bomba do mate

Herculano, nascido e criado nas bandas de Caçapava, precisou fazer um xecapi. Exame de sangue, marteladinha no joelho pra conferir os reflexos, dizer 33 entre outros. Já tinha feito outros por insistência da patroa, a dona Laura, zelosa com o peão da estância.
Mas desta vez a médica incluiu na requisição uma investigação nada tradicional, prescreveu uma colonoscopia cuja avaliação incluí outra via de acesso ao esqueleto, um túnel até então mantido intacto a qualquer tentativa de abuso ou invasão.
– Sabe como é que é, o senhor come muita  carne gorda e tal, precisamos verificar.
Disse a médica, procurando amansar o paciente, um tanto alterado com a resenha descrita por ela.
 
Na salinha, a simpática enfermeira passava-lhe as instruções de preparo para o exame que consistia em uma dieta leve a base de merengue e líquidos claros.
 
– Suspendo o mate?
 
– Não precisa, mas se for beber, use camisinha.
 
Herculano não aprofundou detalhes sobre a camisinha, já estava por demais envergonhado da situação pela qual iria passar, afinal, não é fácil abrir as pregas para alguém desconhecido, ainda por cima, grogue.
 
Na madrugada, véspera do exame, de bombacha arriada, sentado solito na porta do rancho, enquanto mateava e contava estrelas, Herculano matutava em silêncio, cabisbaixo, olhando desconfiado para o preservativo tamanho murcho dependurado entre as pernas. 
De fato ele não conseguia entender a relação da bomba com o pinto.

 

 

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

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