Narradores de fogão

 

Vinham na escuridão da noite e contavam histórias tenebrosas como se elas fossem de verdade. Podia ser um vizinho ou parente. Enquanto borbulhava a carne para o caldo da sopa sobre a chapa quente, a lenha seca estalava e as lascas verdes tocavam músicas. Nós, crianças, ficávamos recolhendo na ponta do dedo a espuma da lenha que cintilava e cheirava lamentos de uma grande arvore que se transformou em fragmentos, mas que ao mesmo tempo resplandecia o perfume da madeira. Eram noites mágicas de frio seco ou úmido que recolhia para dentro das casas todo e qualquer ser vivo que habitasse desde os oitões telhado as profundezas dos porões de terra.

Os fogões esquentavam as casas e traziam para junto deles as noticias do vilarejo. As narrativas não tinham tempo nem ordem, elas iam surgindo de acordo com quem chegasse e se juntasse às conversas. Muitas vezes o simples fato de um gato caçador de ratos ter feito um estrago no celeiro era um gatilho para disparar, com boa dose de crueldade, longas fábulas e lendas de lobos e dragões que todos os anos atacavam as aldeias em busca de alimentos, entre eles, porcos e carneiros.

Qualquer uivo que ecoasse nas madrugadas deixava as crianças agitadas e os adultos atiçavam o medo aumentando o poder da imaginação e dos apuros do lado de fora. Era uma forma de mostrar aos pequenos os perigos do mundo.

 

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

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