As cotas e os filhos da cocota

Ingressar numa universidade pública pelo sistema de cotas e concluir o curso com um alto conceito me faz pensar: Quantos excelentes trabalhos de pesquisa foram deixados para trás por dezenas, centenas de anos, nos tempos em que os estudantes egressos de escolas públicas sejam negros ou brancos, não tiveram a oportunidade de se destacar num campo reservado aos alunos de melhor poder aquisitivo? Por que esta sede tacanha para privatizar a educação e retirar dos mais pobres o direito ao curso superior de qualidade? Quem está por trás de todo este processo?

Pois eu fui lá, amparado no sistema inclusivo de cotas, egresso de escola pública, meti a cara aos 57 anos de idade e conclui, cinco anos depois, o que eu jamais imaginaria alcançar.

A ousadia valeu a pena, houve o reconhecimento a um trabalho até então inédito de pesquisa juntando a profissão que exerci por 40 anos e a sala de aula. O jornalismo e a pedagogia têm suas esquinas por onde cruza o fazer do conhecimento. Um sistema de ensino só estará falido quando censurar o acesso à informação desde os primeiros anos de escola.

Vivemos um momento ameaçador em que a democracia e a pluralidade estão sendo forçadas a abandonar os bancos escolares e, o duro golpe de sucateamento das universidades, ódio das cotas que afrontam os filhos mimados da dona cocota.

Os carrascos do conhecimento retiram os direitos e conquistas dos estudantes e trabalhadores, menosprezando a constituição. Vestem a capa da liberdade e da igualdade, cobertos de maldade. Já o cara que abriu as portas do ensino superior nas universidades públicas para os pobres e negros, dando condições de acesso ao ensino superior, está preso.

Autor: flaviodamiani

Jornalista, cronista, mora em Porto Alegre

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