O dia em que a diarista não veio

Ontem, antes de dormir, fiquei sabendo que a diarista não apareceria nesta sexta-feira. Dei de mão no aspirador que levantou vôo pelas paredes, cantos do teto, nas frestas do assoalhos, pás dos ventiladores de teto. Aproveitando a onda aspirei até os cachorros da casa e me declarei “inimigo do pó”, erguendo a haste do aspirador feito herói, um gesto ridículo, mas fiz.

Ao acordar pela manhã vi que a sujeira da casa ainda estava lá e a faxina por fazer.

Sonhar com trabalho me deixa puto.

A primeira aparição do homem do tempo no Jornal do Almoço

Início dos anos 90, período em que eu coordenava o Jornal do Almoço da RBS TV lá no morro Santa Teresa, o Cléo fazia as suas primeiras participações na Rádio Gaúcha despejando chuvas e agonizando secas por todo o estado. Cléo trazia para os noticiários uma voz diferenciada para os padrões do rádio, alguns tons bem abaixo do que qualquer agudo dos mais afiados locutores e repórteres.

Naquele verão o Rio Grande do Sul sofria com uma estiagem sem precedentes. Plantações secando, gado morrendo de sede anunciando uma quebra recorde de safra.

Liguei para o Cléo no 8º Distrito de Meteorologia para bater um papo sobre aquele momento e dos riscos da seca para os gaúchos.

Pois o meteorologista foi tão convincente que na hora, mesmo sem conhecê-lo, resolvi convidar para que participasse do Jornal do Almoço naquele mesmo dia.

No horário marcado lá estava o entrevistado na redação do JA. Em seguida a produtora Marinês Canton foi até o suíte master, onde eu ficava para colocar o jornal no ar e me perguntou:

– Você conhece o entrevistado do tempo?

– Não, por quê?

– E então desce e dá uma olhada.

Barba de bom velhinho, camisa xadrez, cabelos espetados tipo Andy Warhol vendendo suas latas de feijões.

Meu Deus, pensei… o cabelo dá pra resolver na maquiagem, mas a camisa…

Aquele xadrez de “rasgar o vídeo”, linguagem dos diretores de imagem, poderiam interferir na leitura da câmera e comprometer o sinal e em último caso, reparando exageros, tirar o programa do ar.

Foi quando então que a Marinês achou a solução.

– Uma camisa do Lauro Quadros, eles tem o mesmo porte físico e o Lauro sempre guarda camisas de reserva na maquiagem, disse ela.

Nem dez minutos depois, com o cabelo levemente lambido por uma camada de gel o Cléo Kuhn estreou no Jornal do Almoço, vestindo uma camisa lisa, graças aos caprichos do Lauro Quadros.

Virei amigo do Cláo e cheguei a pegar uma carona no mesmo dia. O carro eu não lembro direito, acho que era um Chevette que precisou de um empurrãozinho para pegar no tranco e deslizar morro abaixo.

 

A morte do coronel Anacleto de Passo Fundo

Marga e eu recebemos para o café da manhã de domingo em casa, o Carlos Alberto Fonseca, jornalista e procurador do município de Passo Fundo e a esposa, Maria Helena Pierdoná Fonseca, procuradora do Estado. Entre uma xícara de desnatado e um pão feito em casa, confirmaram a morte do coronel Anacleto, agora, no mês de agosto.

Duvido que alguém com mais de cinquenta anos e que residia na região do Planalto gaúcho nunca tenha ouvido falar ou escutado este radialista que acordava o campo e a cidade todos os dias pelas ondas médias da extinta Rádio Passo Fundo.

Quando criança, nos anos sessenta, morando na recém emancipada Colorado, eu despertava com as bagunças do coronel que batia numa lata, acho que era uma lata que levava para o estúdio e mandava todos pularem da cama pra trabalhar, alertando para não perderem o horário, acho que era do ônibus, que ele classificava como “cipó”. Tinha o das seis, das sete e assim por diante. Na verdade chamava a macacada pra saltar das árvores e ninguém se incomodava, era mais ou menos isso.

Confesso que não conheci o coronel e nem mesmo a sua história, embora tenha começado a minha vida profissional na Rádio Planalto de Passo Fundo onde ele, pelo o que sei, também trabalhou. Achei até que tinha partido há muito tempo por nunca mais ter ouvido falar nele.

A história do Fleumir Resende – coronel Anacleto, nome de guerra, vale uma biografia porque encantou gerações no tempo em que o rádio era indispensável na sociedade e quando a criatividade nascia do improviso e do talento dos seus profissionais.

Nunca soube também se foi um militar ou o coronel dele era patente emprestada e o motivo de ser chamado Anacleto.